Mais do que uma crise econômica e política: uma crise social!

26/10/2015 10:31

Analisar o cenário social do RS, a partir dos dados de pesquisas de opinião realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião ao longo do ano de 2015, subsidia o entendimento sobre os dilemas da opinião pública gaúcha e os temores em relação a crise econômica, política e social. A crise social pode ser entendida como uma crise de confiança nas Instituições, de aumento do individualismo e de diminuição do sentimento de comunidade. Esta crise social está “ancorada” na percepção da população sobre a situação econômica e política do país e tem sua origem na cultura política da população. Uma cultura de não participação política e que coloca em xeque o principal esteio da democracia.

 

A crise social também pode ser analisada sob a égide de uma crise de ética e de credibilidade. O “jeitinho brasileiro” que sempre rodeou as relações sociais e “disfarçou” o conceito de corrupção está sendo questionado!

 

A indignação da população é percebida nos mais variados campos das relações sociais, transcendendo o mundo da política. O eleitor indignado é o mesmo consumidor que se sente ultrajado. O consumidor ultrajado é o mesmo cidadão desrespeitado, o mesmo cidadão desrespeitado é o mesmo chefe de família frustrado. Todos em um único ser e com um único dilema, encontrar a “constituição reta”. A constituição reta é por princípio o que deveria ser! O que foi deliberado, o que foi definido e precisa ser cumprido! É a base do “contrato social”.

 

Há uma “onda de moralidade” insurgindo no âmago de um descrédito exacerbado com a política e com os políticos, na insatisfação com produtos e serviços praticado “por alguns mercenários” do mercado, na impotência com o aumento da insegurança pública e no temor de uma recessão econômica.

 

Do ponto de vista prático, esta “onda de moralidade” aparece nas frases mais simples até as mais rebuscadas, em diferentes pesquisas realizadas pelo IPO. De uma forma geral, o raciocínio nasce com a seguinte premissa: “como está não pode mais ficar”. Esta é uma frase corriqueira e que pontua os debates da população sobre diferentes temas, da ação mais cotidiana fruto de um conflito social que denota injustiça até o debate sobre o noticiário nacional, envolvendo denúncias de corrupção ou de malversarão de recursos públicos.

 

O desdobramento do raciocínio ou do desejo de “como está não pode mais ficar” desencadeia na premissa de que “o certo precisa ser o certo” ou de que “o meio certo não dá mais para aguentar”. Diante das dicotomias e do “jeitinho brasileiro” que sempre fez a ponte entre o “certo e o errado”, entre o “justo e o injusto”, entre o “bem e o mal”, a população começa a indicar a necessidade de resgate da moralidade, de regramento e confiança nas relações sociais estabelecidas. O gaúcho conclama pelo resgate do “fio de bigode”.

 

Esta crise está formando inicialmente um “embrião” de moralidade, tendo em vista que a população demanda características e princípios morais para a coletividade, terceirizando a responsabilidade para outrem. E a moral e a ética devem se cristalizar na conduta individual de cada cidadão, para se solidificar como princípio coletivo. E para se tornar “o bem comum”, este embrião deve ser “alimentado” pelo sentimento de comunidade e deve eclodir na participação política.

 

Diante desta tendência otimista de declínio do “jeitinho brasileiro”, poderemos “sonhar” com a chance da democracia “que temos” se transformar na democracia “que deveríamos ter”. Parafraseando o dito popular, “não há nada tão bom que não tenha algo de ruim e nada tão ruim que não tenha algo de bom!”

As gerações mais preparadas podem ser a gerações mais despreparadas!

20/10/2015 14:00

 

As gerações Y e Z, que podem ser consideradas como as gerações mais preparadas em termos de tecnologia e informação, podem ser enquadradas como as gerações mais despreparadas em termos de consciência, participação política e sentimento de comunidade.

 

Esta análise procura sistematizar alguns elementos extraídos de diferentes pesquisas quantitativas e qualitativas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, focadas no comportamento da juventude gaúcha, com menos de 35 anos.

 

Estas gerações desenvolveram-se numa época de grandes avanços tecnológicos, ampliação das oportunidades na área da educação, estabilidade e prosperidade econômica, sem experimentação do conceito de “inflação” e sem noção prática do significado de recessão econômica.

 

Possuem acesso aos mais variados bens materiais e de consumo duráveis e usufruem de um mix variado de alimentação, diferentemente da origem e desenvolvimento de seus antepassados.

 

Cresceram estimulados por atividades lúdicas diversas e contato com os meios de comunicação de massa. Acompanham a evolução do mundo digital e suas famílias procuram poupá-los do trabalho “braçal” e de situações desconfortáveis ou decepções no cotidiano educacional e profissional. No campo educacional visam a convivência com os colegas, o aumento da rede social e acreditam que o que importa é o “diploma”, sendo que o mesmo pode ser conquistado com “a realização de tantos testes quanto necessários”.

 

No mundo do trabalho possuem dificuldade para exercer tarefas subalternas de início de carreira e lutam por salários mais “avantajados” desde o começo de sua jornada por possuir “sede” por desafios e busca de constantes feedbacks. Não se espelham nos profissionais mais experientes do seu local de trabalho e avaliam que “não vale a pena seguir estes exemplos” por terem uma “outra visão do trabalho”, sem ter claro a referência de profissional experiente e competente.

 

Como consumidores são exigentes, informados sobre os produtos e com peso na decisão de compra. Preferem realizar compras no mundo virtual, em detrimento da loja física. Compram por impulso ou por modismo, a partir de tendências ou de adequação a tribo que pertencem.

 

Quanto mais jovem, maior a familiaridade com o mundo digital, maior a tendência ao individualismo e a competição e menor a capacidade de relacionamento social com o mundo real das instituições sociais e representativas.

 

As pesquisas indicam que o acesso à tecnologia e a informação “alimenta” uma percepção de que o “mundo está na palma da mão”, esta percepção propicia uma gama imensa de “informação fragmentada” que não subsidia uma capacidade de contextualização, uma visão holística e uma consciência política.

 

Estes jovens apresentam os maiores índices de ceticismo, não acreditam na política e nos políticos, não legitimam os sindicatos e as instituições representativas. Não confiam nas instituições e não percebem a utilidade na existência das mesmas.

 

O conceito de cidadania, para estas gerações, está associado a direitos e não a deveres. Em parte, este comportamento social está sendo “alimentado” pela percepção de que há muitos direitos, sem a consciência de que há deveres e de que o direito de um acaba, quando começa o do outro.

 

Seus sonhos estão atrelados a conquistas pessoais, a conquistas materiais. Estas gerações não se “sentem” ou se posicionam como agentes transformadores da sociedade, em busca de uma nova concepção de mundo. Esse fenômeno está associado as informações e a percepção de mundo que as instituições sociais (família, escola, igreja..) compartilharam sobre as instituições representativas. E no sentido contrário, também é estimulado pela imagem negativa que as instituições representativas transmitem as instituições sociais, através de seus agentes políticos.

 

O atual momento de crise econômica, política e social (que se caracteriza em uma crise de confiança nas instituições) será propicio para o despertar do potencial “hibernado” destas gerações, que diante de novos dilemas e, com a diminuição da proteção econômica de suas famílias, terão que se aventurar para ampliar seu papel no mundo educacional, otimizar sua contribuição no mundo do trabalho e, em especial, ocupar a sua tarefa de agente transformador da realidade que o circunda, para além do mundo virtual.

 

 

A cultura política do eleitor: a cultura da descrença!

06/10/2015 14:00

Neste momento vigora no comportamento da maior parte do eleitorado um alto nível de desinformação, de apatia, ceticismo e descrédito em relação à política.  Os eleitores não acreditam nos partidos e na política e votam na pessoa, votam "em um candidato", com base nas imagens e nas percepções que dispõem deste, depositando esperança e com a eminente sensação de frustração. Para 80% dos eleitores, que não acreditam e não se identificam com o “mundo político”, o personalismo político é muito mais importante do que a identificação partidária.     

 

            Em estudos realizados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião verifica-se que o comportamento da maioria dos eleitores caracteriza-se:

 

n pelo seu ceticismo e descrença política, tendo em vista que os eleitores não confiam e não acreditam nos políticos;

 

n pelo distanciamento dos eleitores frente ao “mundo da política”. Como a população mantém um sentimento de “ineficácia política” e vive num clima de “indiferença informada”, não participa da política, mantendo-se em uma posição de desinteresse, num contexto em que a política é vista como algo distante e negativo;

 

n pelo voto personalista, dado a pessoa do candidato em função de sua imagem e seus atributos simbólicos. Como os eleitores não acreditam na “política” e nos partidos, mantém-se afastados do processo político, respondendo aos apelos das campanhas personalistas,“cumprindo” o voto obrigatório no que se denomina “tempo de política”.

 

Esta cultura política vigente,“alimentada” pelas relações pessoais de reciprocidade, pela troca de posts nas redes sociais e pelo noticiário cotidiano de denúncias,“cristaliza” uma percepção no senso comum de que a corrupção é endêmica e “faz parte do dia-a-dia de quem está no poder”.

 

            A percepção negativa nutre as seguintes crenças:

 

- “A maioria dos políticos atuam em causa própria” e qualquer pessoa que passe a ocupar o mesmo cargo estará sujeita à mesma permissividade;

 

- A corrupção no Brasil é antiga e independe do partido que está no poder. E neste cenário, um partido que assume o poder se iguala, automaticamente, aos demais.

 

O acirramento desta cultura política de descrença diminui o sentimento de “comunidade” e solidariedade e fomentará na eleição de 2016 a égide da mudança. Quando o eleitor pensa em mudança não está pensando, necessariamente,“em mudar de candidato”,mas em exigir“ uma nova maneira de governar”. A priori, a mudança significa a necessidade de melhorias, “mudar o que está ruim, mudar para melhor”. A frase do eleitor é “fazer o que precisa ser feito”, ou seja, para o eleitor “é fazer as coisas funcionarem”.

 

O eleitor almeja por mudanças na prestação de serviço (melhoras na saúde, na segurança, na infraestrutura...). Argumenta que antes de pensar em “serviços públicos de qualidade” os gestores precisam pensar em “serviços públicos que funcionem”.

 

Pode-se dizer que os eleitores esperam por um:

 

a) político que conheça os problemas da população (tenha familiaridade) e mostre soluções práticas (saídas operacionais para os problemas cotidianos);

 

b) político que tenha pulso firme seja honesto e trabalhador (que se mostre como um líder capaz de colocar em prática a sua proposição);

 

c) que apresente uma nova forma de administrar (que na prática contemple os itens acima: proposição factível por uma pessoa que passe credibilidade e tenha carisma);

 

d) que proponha mudança na gestão ou na legislação (ações ou leis que visem a transparência na política, combatam a impunidade e travem a corrupção).

 

O eleitor “sonha” com um gestor que “faça o bem comum”, e tende a destinar o seu voto a quem se dedicar a esta meta, que é por essência a finalidade do Estado.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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