A origem do radicalismo que estamos vivendo

16/10/2018 17:44

Desde a Constituição de 1988 o país ficou focado em atender lacunas históricas e o Congresso voltado a legislar o direito das minorias. Governo após Governo a Constituição foi sendo alterada, tornando seu conteúdo em uma colcha de retalhos.

No Estado Democrático de Direito, como é o caso do Brasil, as minorias devem ser respeitadas. Mas o direito da minoria não pode se sobrepor ao direito da maioria, sob pena de colocar em xeque o conceito de maioria. E na prática, o conceito de maioria não foi o foco dos sucessivos governos.

Pelo princípio democrático a vontade da maioria deve se sobrepor a da minoria, com o propósito de alcançar o bem comum. A decisão da maioria deve ter como farol a igualdade, a liberdade, a solidariedade e a isonomia. 

O preâmbulo da Constituição diz que o Estado deve assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos.

O problema reside no distanciamento entre o que foi projetado pela Constituição e o que é entregue pela política brasileira.

A maioria da sociedade acumula indignação e frustração com os políticos e insatisfação com as sucessivas demandas não atendidas. O sofrimento da população está associado a ampliação da corrupção, a sensação de insegurança, ao aumento do desemprego, a ineficiência de serviços públicos (saúde, educação, infraestrutura) e a sobrecarga tributária.

Soma-se a este contexto a entrada da tecnologia, que amplia o individualismo e faz com que cada indivíduo se sinta empoderado e motivado nas redes sociais, ignorando os sentimentos e a opinião de quem está do outro lado. Cada um, por seu prisma, diz que não aguenta mais e que quer um país diferente.

Pronto: chegamos no atual cenário onde uma maioria silenciosa se mobiliza espontaneamente, tentando romper com o sentimento de impotência a partir da negação do que existe ou do que não funciona. Este cenário propicia o radicalismo e coloca iguais em lados opostos, amigos em desunião e faz com que o parco debate político se torne uma zona de disputa política: como se um lado estivesse certo e o outro não!

É um debate de quem acredita na minoria versus quem se preocupa com os dilemas da maioria. Pensando no anseio dos eleitores, cada um está certo, dentro de suas perspectivas, com base em sua visão de mundo. Os que defendem o direito das minorias estão preocupados em não perder o que duramente conseguiram e, os que defendem o direito da maioria, estão preocupados em recompor a ordem do país.

O que todos têm em comum é a ojeriza, a negação da política e a percepção de que o país precisa romper com o jeitinho brasileiro. O recado é claro, temos que revisitar, reinventar a política, passando pelas práticas políticas, pela reorganização partidária e enfrentando as reformas políticas.

Agora, é um momento que o país precisa de muito discernimento, muita sabedoria para enfrentar essa negação e ter como propósito a garantia e o avanço dos direitos fundamentais. 

Neste processo eleitoral o país se divide entre os eleitores que: acreditam que Bolsonaro é a solução para moralizar e garantir a segurança pública, os eleitores de Haddad, que temem pelo desrespeito aos direitos individuais e, ainda, os que desejam um equilíbrio, que o Brasil atenda as maiorias e respeite as suas minorias.

Um segundo turno inédito no RS

09/10/2018 08:04

Desde a instituição do segundo turno, as eleições gaúchas foram polarizadas entre o PT e um partido de centro-direita. Contrariando a tendência, o PT ficou de fora do segundo turno e dois partidos que eram aliados disputam o segundo turno. Esse fenômeno já havia ocorrido nas eleições municipais de Porto Alegre, em 2016.

E como podemos entender esse fenômeno?

Em primeiro lugar, porque houve a diminuição do voto ideológico, que mantinha preferência pelo PT. O indicador do Estado que era de 30%, reduziu para 10%. Essa mudança comportamental exige que o PT tenha candidatos com uma reputação pessoal maior do que a sigla do partido.

Em segundo lugar, porque há uma tendência de ampliação dos eleitores esperançosos, que entraram na eleição com o propósito de depositar sua esperança na pessoa de um candidato. Eleitores que desejam mudança, que defendem a moralidade e que estão inclinados a apostar no novo. Estes eleitores desejam um governador com coragem, atitude e que represente a nova política (não faça conchavos e cumpra o que promete). São estes eleitores que deram o primeiro lugar para Eduardo Leite com a crença de que o jovem ex-prefeito está próximo deste perfil.

As intenções de voto de Eduardo Leite se destacaram entre todos os tipos de eleitores, mas preferencialmente, entre a população de menor renda e entre as mulheres (que se mostram mais esperançosas). Durante todo o processo eleitoral Eduardo Leite se manteve com uma média de 60% dos votos da região sul e conforme sua campanha crescia, ampliava a sua inserção nas demais regiões do Estado.

Em terceiro lugar, os eleitores que defendem a tendência de continuidade garantiram o segundo lugar para o atual governador, José Ivo Sartori. São eleitores que avaliam que Sartori fez uma boa administração ou fez o que podia tendo em vista a situação financeira do Estado e destacam que o candidato é sinônimo de honestidade e seriedade.

Neste grupo pró situação, também há eleitores que acreditam que o novo para o RS seria manter o atual governador, tendo em vista que o Estado nunca reelegeu um governador. O voto de Sartori se destacou entre os homens e, em especial, entre os eleitores com maior faixa etária.

Durante o embate de primeiro turno os eleitores avaliaram mais as características pessoais dos candidatos do que suas proposições. Como o segundo turno é uma nova eleição, o eleitor vai querer saber o que será feito e de onde virá o recurso.

O sonho que separa gera a eleição que divide!

03/10/2018 17:37

Neste processo eleitoral a maior parte dos eleitores não tem expectativa de melhoria com o resultado da eleição! Para 48,9% dos eleitores as coisas vão ficar como está, para 24,9% vão melhorar e 21,4% acreditam que vai piorar.

As demandas são muitas e os desejos maiores ainda e, cada vez mais, estes desejos se classificam como sonhos, como algo idealizado, mas sem garantias de concretização. A maior parte dos gaúchos gosta de morar no país, mas não está feliz com o que vê no noticiário ou em seu cotidiano, há muita preocupação com o futuro.

Por princípio, a eleição é o momento de renovação do contrato social, onde os eleitores compactuam suas demandas e seus sonhos com os candidatos. E os candidatos depois de eleitos deveriam se comprometer em executar estes sonhos.

Os sonhos dos eleitores são simples, são básicos e se alicerçam nas bases da democracia: que desejam políticos honestos, que trabalhem pela sociedade, que cuidem do dinheiro público e resolvam problemas na área da saúde, segurança, educação e infraestrutura.

Há um grupo de eleitores que está desolado com a corrupção e sonha com um presidente honesto, que ponha ordem e moralidade política. Para estes, a política do conchavo e do toma-lá-dá-cá precisa ser alterada. Há uma leitura de que boa parte da ineficiência dos serviços públicos está associada a corrupção.

Um outro grupo de eleitores, deseja um presidente que esteja engajado em trabalhar pela população, em especial, cuide dos que mais precisam e dê prioridade para projetos e direitos sociais. E há quem sonhe com a retomada do crescimento econômico e a diminuição do número de desempregados, com a crença de que, o resto, a população dará conta.

Tem eleitores que se preocupam com a prestação dos serviços públicos, como a saúde, segurança, educação e a continuidade de obras paralisadas. Para estes eleitores o maior problema está associado a falta de vontade política e a incapacidade administrativa.

Cada um destes sonhos encaminha o eleitor para uma tendência de voto: analisam as opções disponíveis e tentam se posicionar. Muitos eleitores olham, analisam e não percebem um candidato com as condições necessárias: os que têm capacidade de gestão não desfrutam de uma boa reputação em termos de honestidade e os que são tidos como honestos não transmitem segurança em termos de capacidade de gestão.

Nesta conjuntura, muitos eleitores acabam decidindo por exclusão. Exclui um candidato por isso, exclui outro por aquilo e o que sobra é a decisão de voto no menos ruim.

Sempre digo que o voto é o sintoma de um comportamento. Se entendermos o comportamento entendemos a decisão do eleitor. Os eleitores estão divididos em diferentes sonhos. Sonhos que brotam no seio da sociedade, a partir de suas angústias e preocupações. E, neste contexto, há muitos que sonham com algo que não está posto, por isso não sabem o que querem, mas sabem o que não querem.

Estamos assistindo a um país se dividir em pelo menos quatro grandes lógicas: os que estão de um lado, os que estão de outro, os que não querem nem um dos lados e os que não estão nem aí para o que está acontecendo (pois acreditam que não tem responsabilidade com o processo ou sempre estiveram distanciados do mesmo).

A boa notícia é que esta conjuntura deve gerar uma tendência de diminuição de votos brancos, nulos e abstenções no primeiro turno. A má notícia é que, no segundo turno, o processo deve ser contrário.

O eleitor tem mais dúvida do que certeza!

25/09/2018 15:50

A eleição 2018 é uma eleição ímpar, em todos os sentidos!

Em primeiro lugar, pelo alto nível de descrença dos eleitores. Desde a eleição de 2014 muita coisa aconteceu. Iniciou-se a operação Lava a Jato, a Presidente Dilma foi acusada de cometer “pedaladas fiscais” e houve o Impeachment.

O Vice-Presidente Temer assumiu diante de acusações de golpe e de envolvimento com corrupção. Houve o acirramento da crise econômica, com aumento do desemprego e diminuição do poder de compra. Neste contexto, houve a ampliação da violência e a população sentiu na pele o aumento da sensação de insegurança, ocorreu o agravamento da crise financeira de alguns Estados e municípios, resultando em atrasos sistemáticos de salários.

Políticos de vários partidos foram acusados de fazer parte de esquemas de corrupção, muitos políticos foram presos e condenados, incluindo um ex-presidente. Diante desta pequena retrospectiva do último ciclo da política brasileira, não é difícil compreender porque a maioria dos eleitores mostram-se decepcionados com a política e com a percepção de que a maioria dos políticos atuam em causa própria e se beneficiam com os conchavos partidários, mantendo a velha política do “toma lá dá cá”.

Em segundo lugar, na percepção dos eleitores, as opções de candidatos são muito limitadas ou representam mais do mesmo. Os eleitores associam a maioria dos candidatos a presidente com a velha política: candidatos que fazem conchavos com políticos acusados por corrupção, candidatos denunciados por corrupção, que prometem o que não podem cumprir ou candidatos sem capacidade de resolver os problemas básicos do país.

Este cenário faz com que as campanhas cresçam em torno da crença e da descrença, entre dois candidatos com mais rejeição do que intenção de voto:

- Uma campanha popular, disputada entre os que gostam e que não gostam de Bolsonaro = Com o impedimento da candidatura do ex-presidente Lula, Jair Bolsonaro passou a ser o candidato com maior porcentagem de intenção de voto e o candidato com maior porcentagem de rejeição. É o candidato que agrega a maior porcentagem de eleitores esperançosos, em função do debate da moralidade e segurança pública. Após o atentado contra sua vida, o candidato ganhou a adesão de eleitores comovidos, que não encontram segurança em outros candidatos. Para estes eleitores, mesmo que Bolsonaro seja um risco, é a ruptura com a velha política. É importante registrar que, com o atentado, o candidato ganhou espaço privilegiado no noticiário e cresce nas pesquisas a partir do movimento espontâneo dos eleitores.

A rejeição a Bolsonaro mobiliza-se pela questão de gênero, com o argumento de que o candidato desqualifica as mulheres ou pelo argumento de que o mesmo não tem capacidade, tendo em vista o seu desempenho parlamentar.

- Uma campanha entre os que defendem Lula e o antipetismo = Os eleitores de Lula reconhecem em Haddad a possibilidade de retomada dos programas sociais. Tratam-se de pessoas que tem gratidão pelos feitos do governo Lula na área social e que mantêm a esperança de que haverá retomada destes projetos e do crescimento da economia.

De outro lado, um movimento antipetista, mobilizado por dois grupos: o de pessoas com ideologias contrárias e, em especial, o grupo daqueles que acreditaram no PT e se sentiram traídos pela omissão ou associação da sigla com os escândalos de corrupção. E, no meio desta disputa, 1/3 dos eleitores observam e avaliam se devem manter o voto da razão, o voto do coração ou, ainda, se migram para um voto útil.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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