A única verdade é que a verdade não existe

26/01/2016 11:35

Em uma democracia, por princípio, a “palavra” se impõe e quem domina a “palavra”, domina a cidade, a igreja, a escola, a família, etc. Nesta atmosfera há necessidade de saber convencer: “de que esta ideia ou opinião é melhor do que aquela”. Quem domina o discurso, transmite a percepção de que “sabe tudo”, pode até saber pouco, mas precisa saber o suficiente para ser persuasivo.


Para testar ou driblar a persuasão, a pergunta reflexiva, o questionamento deveria existir e buscar sempre uma resposta, sobre “o que está se dizendo”, sobre “o que está se fazendo”! Como os gaúchos dizem: “não pode haver distinção entre o que se diz e o que se faz”.


Sem a pergunta reflexiva cada indivíduo sustenta uma percepção, uma leitura com base em um argumento, um conceito de verdade que é uma estrutura mental que acompanha o desenvolvimento do discurso, da comunicação, das informações recebidas e processadas no bojo do juízo de valor de cada um.


Este conceito sustenta uma verdade e alicerça a premissa de que a única verdade é que a verdade não existe. Como a verdade está contida em um conceito, como existe “n” conceitos, existem “n” verdades. Esta premissa abala as certezas e a certezas que mantém a zona de conforto dos indivíduos “não deveriam ser desestruturadas” sob pena de aumentar o stress cotidiano. Cada fato social passa pela “palavra”, por uma reflexão do indivíduo e é preciso que os fatos sejam compreensíveis para quem não os viveu.


Avançando na reflexão de base platônica, sobre “o que está em jogo”, chegamos ao axioma da dialética que apregoa que “não há nenhuma razão para que a maioria tenha razão”. Ora a maioria ganha, ora a maioria perde!
E opinião pública gaúcha sente este dilema, vive com a percepção de que existe uma maioria que aprova, o que a maioria reprova. E esta “certeza incerta” mantém a população na labuta cotidiana e mantém aflorado o sentimento da “cordialidade”, que permite suportar o insuportável.


Na tomada de decisão, cada um vê as coisas através do seu próprio prisma. Cada um constrói o seu entendimento sobre os fatos, a sua realidade. Esses entendimentos são construídos pelas paixões, pelos desejos ou até mesmo pelos interesses. Então a decisão resultante desse entendimento não é necessariamente verdadeira, mas por essência constrói a base da opinião pública.


Para a democracia avançar, a cidadania se constituir e as certezas dos indivíduos e da opinião pública sobre a política se tornarem salutares é necessário que haja a distinção entre as principais dicotomias que devem diferenciar a esfera privada da pública:


Opinião ≠ conceito;
Aparência ≠ essência;
Doxa ≠ episteme;
Emoção ≠ razão (logos);
Pessoal ≠ impessoal;
Privado ≠ público.


Com definição conceitual destas distinções pela opinião pública e agentes públicos e a constituição clara do conceito de “bem comum” terrar-se-á as separações operacionais entre o privado (pessoal) e o público (impessoal). Com a separação destes conceitos no modus operandi da população e dos gestores públicos a “palavra” se constituirá como elemento básico da democracia, se torna um agente desburocratizador do sistema e facilitador da deliberação e qualificação das políticas públicas. Sem contar que a “palavra” nutre a tolerância, o respeito a diferença que deve constituir a base da convivência familiar a social.


O diálogo deve ser realizado respeitando as diferenças culturais, religiosas, étnicas. E é o diálogo que advém da “palavra” que oferece a possibilidade de operar o desejo da sociedade: “que a palavra empenhada seja cumprida” e que o serviço público atue em benefício do “bem comum”.

A percepção do gaúcho sobre 2015 e a esperança com 2016

19/01/2016 11:31

Analisar o cenário social do RS, a partir dos dados de pesquisas de opinião realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião ao longo do ano de 2015,subsidia o entendimento sobre os dilemas da opinião pública gaúcha e os temores em relação a crise econômica, política e social. A crise social pode ser entendida como uma crise de confiança nas Instituições, de aumento do individualismo e de diminuição do sentimento de comunidade.

A cada dia os gaúchos estão mais temerosos em relação à economia e a política e externam essa preocupação nas pesquisas:

- Mais de 80% dos gaúchos acreditam que a inflação irá aumentar;

- Mais de 90% afirmam que o poder de compra está menor (não conseguem mais comprar os mesmos itens com o mesmo orçamento). Sendo que os gaúchos estimam que seu poder de compra reduziu em 30%;

- Mais de 70% dos gaúchos temem o desemprego. A maior preocupação está entre a população até 40 anos de idade, em especial, entre os jovens.

- Mais de1/3 está mais endividado do que o normal em função do comprometimento da renda com o agravo da diminuição do poder de compra e tende a ter que “abrir mão” de alguma de suas contas.

Contudo, uma crise econômica sempre traz aprendizados e no atual cenário há comportamentos que devem ser observados:

 

As mudanças de 2015

a)    Necessidade de reaprender a lidar com a inflação= com a perceptível diminuição do poder de compra, o consumidor que estava acostumado a um cenário de estabilidade econômica terá que reaprender a consumir. A necessidade deste reposicionamento já “está na mesa” das famílias comandadas por gaúchos acima de 40 anos de idade e com envolvimento na gestão do orçamento doméstico antes do plano Real. Entretanto, a população abaixo dos 40 anos está observando o cenário, sem pensar em medidas de contenção de gastos e com a sua indignação com a política e os políticos acima da média.

b)   Reaprender a fazer pesquisa de preços = A tendência é que o consumidor tenha que fazer um ajuste fiscal doméstico, revendo as suas contas pessoais e decidindo as novas compras em função de sua necessidade, motivando a retomada da pesquisa de preço e análise dos diferenciais competitivos (qualidade X preço X forma de pagamento). Um consumidor que irá reaprender a pedir desconto, pechinchar e buscar marcas secundárias!

c)    As tecnologias como aliadas no processo de decisão de compra= neste cenário de planejamento doméstico, pesquisa de preço e pechincha, as tecnologias se tornarão uma ferramenta em prol do ajuste fiscal doméstico, em especial, dentre a população com menos de 40 anos. O varejo deve se preocupar com aplicativos, divulgação do produto na web e adesão a toda e qualquer nova ferramenta de contato com o consumidor, tendo como premissa que este consumidor irá tomar a decisão com as “informações disponíveis na palma da mão”.

d)   A intensificação do atendimento como um diferencial competitivo =é importante frisar que em época de crise, o diferencial competitivo dos pontos de venda presenciais estará na recepção, no atendimento, na acolhida ao cliente. O consumidor irá avaliar a necessidade do gasto, de acordo com a demanda de sua família. Neste contexto, de decisão de compra utilitária (pela necessidade) o “bom atendimento” terá um papel tão importante quanto o preço/ desconto.

e) Incremento de iniciativas empreendedoras=o orçamento apertado ou comprometido estimula famílias a desenvolverem atividades econômicas que possibilitem rendas ou rendas extras. Quando esta atividade é realizada com diferenciais competitivos, tende a se tornar um case bem-sucedido;

As expetativas do gaúcho!

Mesmo preocupados com o cenário político, econômico e social (incluindo o aumento da percepção de insegurança) os gaúchos apresentam as seguintes avaliações de expectativas em relação a sua vida pessoal/ familiar:

 

Avaliação da vida pessoal/familiar em 2015:

ü  36,4% melhorou;

ü  42,6% ficou da mesma forma;

ü  21,0% piorou.

 

A expectativa em relação ao futuro de sua vida pessoal e familiar:

ü  31,1% vai melhorar;

ü  37,1% vai ficar da mesma forma;

ü  30,5% vai piorar;

ü  1,3% não sabe avaliar.

 

Observa-se que, em média, o comportamento dos gaúchos se dividem em três grupos: os otimistas, os neutros e os pessimistas. Estes três grupos de comportamento deverão ser observados em todos os segmentos das relações sociais.Estará presente nas relações comerciais, na decisão de compra, na renegociação de dívidas ou até mesmo no mercado de trabalho. Também se mostrará nas manifestações de redes sociais e influenciará a decisão de voto em 2016.

A crise econômica analisada por grupo etário

13/01/2016 18:00

A cada dia os gaúchos estão mais temerosos em relação à economia, a política e externam essa preocupação nas pesquisas de opinião, demonstrando seu ceticismo, fomentando uma crise social que questiona a credibilidade e a ética das Instituições brasileiras. O IPO – Instituto Pesquisas de Opinião verificou que há uma distinção na percepção da opinião pública que varia conforme a faixa etária e centra-se, principalmente, na nova classe C e na população de baixa renda, maiores quantitativos da população gaúcha.

 

A principal variação de percepção sobre o cenário está associada ou é resultado da experiência da população com maior faixa etária. Os gaúchos que vivenciaram o período de inflação da década de 90 e o impeachment do Presidente Collor analisam o atual cenário com lastima, percebem o retrocesso econômico e político do país e fazem esta avaliação munidos de uma leitura realista sobre a necessidade de “aperto do cinto”, reagindo com muito trabalho e reposicionamento da sociedade.

 

A população com menos de 40 anos, que cresceu sobre a égide de uma democracia estabilizada e do Plano Real, que era adolescente ou nem havia nascido na época do impeachment de Collor e que “ouviu falar” da tal de URV (Unidade Real de Valor), em sua maioria, apresenta índices de descrenças maiores do que o grupo etário acima de 40 anos e não percebe o seu papel social no processo, “não sabe lidar com uma situação de crise”.

 

O comportamento dos consumidores com mais de 40 anos frente a crise se caracteriza pela (o):

 

ü  Diminuição da compra por impulso, com corte dos produtos ou serviços considerados supérfluos;

 

ü  Existência de reservas econômicas ou endividamento compatível com a renda familiar;

 

ü  Ajuste fiscal doméstico com revisão dos gastos da residência e repactuação das despesas com os membros da família;

 

ü  Receio com a possibilidade de desemprego e recolocação no mercado de trabalho;

 

ü  Retomada da premissa de pesquisa de preço, resgatando a prática “da pechincha” e buscando marcas e produtos alternativos.

 

Este processo de “ajuste fiscal doméstico” é reflexo do atual momento e sucede o momento anterior de crescimento econômico, onde o gaúcho estava “aumentando a sua lista de compra” e escolhendo em função da qualidade e da marca. Agora, as marcas secundárias, com preço competitivos, passam a ser reavaliadas pelos consumidores que buscam produtos alternativos.

 

Os consumidores com menos de 40 anos frente a crise se caracteriza pela (o):

 

ü  Sensação de “inércia” quanto ao futuro. Percepção de temor com a economia e com a política do país, um momento de incerteza que não permite uma avaliação a médio e longo prazo;

 

ü  Avaliação de que precisam “desacelerar o consumo”, mas sem definição da estratégia a ser adotada. Necessidade de novo aprendizado no processo de comprar, trabalho e economia dos recursos pessoais ou familiares em um cenário com inflação;

 

ü  Compra de produtos/ marcas alternativas que ofereçam sensação similar, atendendo a demanda do consumidor;

 

ü  Grau de endividamento maior do que 50% da renda familiar, sendo que 1/3 das famílias tende a não conseguir quitar algum de seus compromissos financeiros. Com o agravo da diminuição do poder de compra tendem a ter que “abrir mão” de alguma de suas contas;

 

ü  Alto grau de relacionamento com as redes sociais, internet e smartphones. Aumento da procura de produtos e serviços em sites de compras e aplicativos. Preferem realizar compras no mundo virtual, em detrimento da loja física;

 

ü  68% se preocupa com o desemprego e está revendo a sua relação com as chefias, buscando a manutenção de sua vaga de trabalho ou avaliando a possibilidade de se submeter a vagas inferiores (com tendência de diminuição do turnover);

 

ü  Avaliação da possibilidade de empreender, o orçamento apertado ou comprometido estimula as famílias a desenvolverem atividades econômicas que possibilitem rendas ou rendas extras.

 

O consumidor continuará comprando, mas sua decisão será menos impulsiva e mais seletiva, de acordo com as suas necessidades e capacidade de compra. Neste contexto o preço torna-se um dos principais fatores de decisão e as empresas terão que compreender as diferenças entre estes dois grandes grupos etários, mantendo diferentes estratégias mercadológicas e publicitárias.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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