Estamos começando a viver um “novo normal”

26/05/2020 08:41

Estamos vivendo um “novo normal”. Essa é a frase que tem sido dita a cada decreto, definido por um prefeito ou um governador para estabelecer o fluxo de pessoas e a rotina de cada cidade. E os prefeitos e governadores também tem um “novo normal” para tomar as decisões, sendo obrigados a reavaliar o cenário a cada 15 dias e tomar decisões de curtíssimo prazo. E nesse “novo normal”, as regras são reavaliadas pelo avanço da pandemia, pelo número de contaminados, de leitos de UTI utilizados e até mesmo de óbitos. É o avanço do Coronavírus que nos diz o que pode ou o que não pode ser feito, e até se poderemos sair de casa.

Esse “novo normal” é de isolamento social ou de distanciamento controlado. Onde os abraços, beijos e apertos de mãos continuam vetados e as famílias e amigos têm a convivência social limitada. Nesse novo normal, a internet ganha cada vez mais espaço. As salas de encontro são virtuais e as pessoas comemoram festas de aniversário por web conferência.

Nesse “novo normal”, relações comerciais exigem protocolos e regramentos. A ida ao supermercado, à farmácia ou a uma loja é planejada e só se compra o necessário. Nesse “novo normal” as compras não são mais uma atividade de lazer da família e o Shopping Center passou a ser um local onde se vai para encontrar algo específico.

Vivemos um “novo normal” onde não vemos mais o rosto das pessoas, uma realidade onde as máscaras se tornaram obrigatórias e marcam um novo tempo.

Nesse “novo normal” as crianças continuam sem aulas ou com aulas pela internet, conforme a realidade da escola. E as escolas não sabem dizer como será o processo avaliativo ou até se o ano letivo não será perdido. E além de perder o contato com os colegas da escola, nesse “novo normal” as crianças não podem mais brincar com os amigos, fazer o dormidão com o melhor amigo e nem passar o final de semana com os avós.

Datas de eventos importantes continuam a ser transferidas. Nesse momento não sabemos quando será o ENEM ou as eleições. As universidades federais não sabem se conseguirão terminar o primeiro semestre ou se abrirão vagas para novas turmas em 2021.

Nesse “novo normal” não se pode visitar pacientes nos hospitais e nem idosos que estão em lares da terceira idade. Não se pode nem velar um ente querido com muitas pessoas, por muito tempo. Em alguns lugares do país, se perdeu o direito de acompanhar o parente no hospital e de enterra-lo.

Nesse “novo normal” as pessoas que viajam a trabalho se preocupam com as condições de higiene, os protocolos dos hotéis onde irão ficar, e os hotéis se preocupam com os hóspedes que irão receber.  As cidades turísticas tentam se reinventar e contam que existe um novo normal para a prática do turismo, explicando que o turismo de massa se tornou um turismo seletivo, com poucas pessoas.

Nesse “novo normal”, as academias tentam criar uma nova dinâmica de treino, mantendo clientes com atividades remotas e redesenhando o atendimento presencial: um professor para cada aluno.

Nesse “novo normal” a área da estética e da beleza está procurando o seu espaço, investindo no bem-estar e na qualidade de vida e utilizando EPIs específicos para atender aos clientes.

Estamos vivendo um “novo normal” sem saber quando voltaremos ao normal. Nesse “novo normal” temos que ter muita resiliência e resignação, ser paciente em casa para não ser um paciente no hospital.

Nunca foi tão difícil tomar decisões

19/05/2020 11:28

Tomar uma decisão nunca é fácil! Na maioria das vezes, tomar uma decisão significa escolher um caminho. E num momento de incertezas, como o que estamos vivendo, tomar uma decisão é muito mais difícil.

Qual a melhor decisão a ser tomada em um momento de incertezas? Essa é a grande pergunta!

Esse questionamento perpassa os gestores públicos, que desde março estão tomando decisões sobre medidas restritivas de isolamento ou distanciamento social. Precisam decidir com base em informações preliminares, em projeções, tendências e com muitos riscos.

Desde o começo da pandemia, há duas grandes teses em debate, dois diferentes caminhos em relação às medidas restritivas de combate à Covid-19: a intervenção vertical e a intervenção horizontal. A diferença entre elas está associada ao nível de isolamento social ou a quem deve ser isolado.

A intervenção vertical apregoa que apenas alguns grupos fiquem isolados, em especial, os grupos de risco. A ideia é que as pessoas sejam contaminadas e com a contaminação a maioria irá ganhar imunidade, desenvolver anticorpos para o vírus. Essa tese está associada à defesa da economia, com o argumento de que não se pode parar o Brasil.

A intervenção horizontal prevê que a maioria deve permanecer em isolamento, para retardar o tempo de contaminação. Nessa lógica, a contaminação irá ocorrer ao longo do tempo, permitindo a melhor assistência de saúde possível. Dentro dessa tese se estabelecem os “lockdowns” que fecham cidades, determinam regras mais duras e até toque de recolher.

Esse grupo defende que as ações de intervenção horizontal, que visam o isolamento e o distanciamento social controlado, devem se manter o máximo de tempo possível, com o objetivo de reduzir o número de mortes e, quem sabe, ganhar tempo até o desenvolvimento de uma vacina.

Na prática, ficamos assistindo aos políticos defenderem as suas ideias como se um estivesse com a razão e o outro não. O mais correto é que se “coloque na mesa” os riscos de cada decisão.

Tem-se os impactos econômicos que precisam ser debatidos mas, principalmente, quais são as projeções de números de mortos que cada medida pode provocar? Estamos falando de tentar entender melhor o que a tese dos governadores defende e o que a tese do presidente defende?

E a dificuldade de uma decisão cria um efeito cascata, dificultando decisões em todo o país. Diante da falta de clareza sobre qual discurso político está correto e sem certezas sobre o tempo de isolamento e os riscos que temos pela frente, cria-se impasses e limites para tomada de decisão da sociedade como um todo.

Pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião sobre a tendência de reação do mercado e da sociedade demonstram que as pessoas estão inseguras para tomar decisões que envolvam investimento financeiro ou até mesmo trabalhos que envolvam pessoas.

As dúvidas são muitas, de toda ordem. Quase 1/3 da população trata o ano como perdido, tem a ideia de sobreviver financeiramente, inclusive projetam a possibilidade de perda escolar dos filhos, com o argumento de que se as aulas voltarem, não mandarão seus filhos.

Quando os entrevistados se colocam no lugar de consumidores, a ideia é consumir o menos possível. Os empreendedores são os mais preocupados, e declaram a tendência de limitar toda e qualquer ação de expansão.

Na prática, quanto maior forem nossas incertezas, maior será a nossa dificuldade de tomar uma decisão!

O que ganhamos com a pandemia

12/05/2020 09:24

A máxima, “não há nada tão ruim, que não tenha algo de bom”, serve para motivar a nossa reflexão em relação aos ganhos, aos ensinamentos trazidos pela pandemia.

Começamos pensando na expansão da solidariedade: o medo e a preocupação estão fazendo o individualismo diminuir. Há muita gente ajudando ao próximo, percebe-se a cooperação se ampliando e o sentimento de comunidade começando a ressurgir.

Moradores de edifícios, que antes mal se cumprimentavam, hoje auxiliam aos vizinhos do grupo de risco, oferecendo ajuda e realizado compras para que idosos ou pessoas com doenças crônicas não precisem sair de casa.

Muitos caminhoneiros passaram a ser recebidos nas entradas de cidades, com marmitas, materiais de higiene ou cestas básicas. Alguns deles, trabalham com a premissa de não retornar para sua casa durante a pandemia. E os grupos de apoio, presentes nas estradas, motivam esses profissionais a continuarem sua jornada para manter o abastecimento das cidades.

Os movimentos espontâneos de ajuda aos trabalhadores informais e a população mais vulnerável se multiplicam e buscam suprir as famílias com alimentos, roupas e materiais de higiene.

Costureiras voluntárias fazem máscaras para distribuir ou trocar por alimentos, enquanto pessoas procuram em seus armários matéria-prima para colaborar com essa ação.

Universidades passam a trabalhar na produção de todos os insumos necessários para a área da saúde. Os cientistas do mundo inteiro estão alinhados em torno de pesquisas para a cura do vírus e o discurso mundial apregoa que a vacina chegue para todos, de forma igualitária.

Ampliamos nossa relação utilitária com a tecnologia. Pessoas que antes utilizavam os celulares somente para ligações e como passa tempo, hoje o utilizam para solicitar o auxílio emergencial, buscar informações e até mesmo para pagamentos ou compras online (mesmo que com a relutância dos mais velhos).  

Os pequenos comércios (principalmente os de bairro) passaram a ser valorizados. Atendendo pela janela, entregando em casa ou até mesmo mantendo as suas portas abertas, vendem a um público que tem aderido ao isolamento.

A pandemia fez ressurgir os velhos ensinamentos de nossos pais: poupe! Tenha reservas de emergência, seja precavido. A maior parte das pessoas não trabalha com reservas financeiras e está aprendendo que a educação financeira é vital.

No campo dos sentimentos, ganhamos mais tempo para avaliarmos a nossa jornada de vida, hábitos de consumo e a relação com as pessoas que convivemos e amamos. Sem ter a possibilidade de consumir, muitas pessoas tiveram que resolver sua ansiedade ou angústia de outra forma. Quando temos que reavaliar conceitos, passamos a repensar o que realmente é importante e necessário para viver.

E a revisão de valores permite o resgate de: crenças (olhando para dentro de si), de nossa espiritualidade, de nossa história e de nossa identidade. E como ninguém sabe o dia de amanhã, o perdão vai ganhando mais espaço entre as pessoas e reaquecendo relações antes enfraquecidas.

A pandemia acaba sendo um gatilho, que propicia uma nova rotina e que pode resultar em novos hábitos. Isso não significa que o egoísmo, o oportunismo e o jeitinho brasileiro acabarão. Mas indica que a pandemia pode motivar a diminuição desses sentimentos perversos ampliados em uma sociedade que estava exacerbando seu individualismo.

Então, mesmo com todas as suas obscuridades, a pandemia pode trazer uma luz em um momento de tantas incertezas!

 

A incerteza da opinião em época de pandemia

05/05/2020 09:43

Parei para analisar os resultados de pesquisas de opinião realizada pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em várias cidades do RS na última semana. São pesquisas que avaliam o comportamento e a percepção da população gaúcha sobre o momento em que vivemos e as medidas restritivas impostas pelos governantes.

É difícil para as pessoas responderem pesquisas de opinião que tratam sobre a Codiv-19. E esse dilema está associado à dicotomia entre o que aparece na televisão e a realidade em que se vive, o cotidiano de cada cidade.

A maioria da população afirma que está preocupada e bem informada sobre o Coronavírus. Na prática, afirmam que “não aguentam mais” receber mensagens sobre a Covid-19 pelo WhatsApp ou assistir às notícias pelos meios de comunicação, em especial, pelos telejornais. É como se assistissem a uma novela onde o vilão não para de fazer maldade.

E esse sentimento ocorre porque há muita incerteza e dúvidas. De um lado, se vê as estatísticas das mortes, as notícias sobre enterros em massa, hospitais entrando em colapso e os tristes depoimentos de quem perdeu um familiar. De outro lado, se sai à rua com a sensação de que não há perigo eminente. Tem-se a percepção de que a vida irá voltar ao normal e, inclusive, há quem acredite que o isolamento foi um exagero.

Quando o tema avaliado questiona o isolamento social, há mais dúvidas. Metade dos gaúchos é favorável ao isolamento e a outra metade é contra. Mas essa avaliação não está associada apenas a uma posição, a uma opinião. Ela é resultado de uma necessidade básica de sobrevivência, que tem como base a ideia de que a economia é mais importante do que a defesa de “uma ciência que parece não entender a realidade das pessoas”.

Os que concordam com o isolamento, são aqueles que tem renda fixa, maior grau de escolaridade e condições de executar as suas tarefas remotamente. A grande maioria, que se mostra contra o isolamento social, vive o dilema de manter seu empreendimento, de lutar pelo seu negócio, de garantir o seu emprego ou até mesmo de tentar sobreviver como trabalhador autônomo ou informal. São pessoas que nãos sabem como irão pagar as contas que chegam ou como irão alimentar sua família. Muitas pessoas que têm essa opinião estão nas filas do auxílio emergencial, sendo que alguns continuam invisíveis ao sistema de proteção social (não tendo nem CPF).

Quem é contra o isolamento pela necessidade de subsistência básica afirma que “se o vírus não matar, a fome irá matar”. A maior parte dessas pessoas tendem a apoiar as indicações do Presidente Bolsonaro, pedindo a retomada das atividades econômicas. É como se o Presidente entendesse a angústia dessas pessoas e as representasse. Quem está focado na necessidade econômica não acredita que haverá mortes e muitos indicam um culpado, seja um país ou até mesmo o sensacionalismo dos meios de comunicação.

As pessoas são movidas por expectativas ou dores. E nesse momento, muitos gaúchos se preocupam com a realidade econômica e a sua dor está associada à diminuição das perdas econômicas ou à necessidade de provir a alimentação de sua família.

A realidade dá o passo para a opinião e se alinha, naturalmente, a posições políticas que tratam a pandemia como uma crise qualquer. Essa instabilidade política na condução da pandemia pode transformar a dor daqueles que sofrem com as perdas ou as dificuldades econômicas em um luto pela morte de seus amigos e familiares.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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