Vamos descomplicar?

15/08/2019 11:51

Com a correria do dia a dia temos a sensação de que tudo está cada vez mais complicado. Se de um lado temos menos tempo e paciência, do outro temos mais compromissos, responsabilidades e regras para cumprir.

O trânsito é um dos locais onde mais se ouve a frase: “está ficando cada vez mais complicado”. Tem aumentado o número de veículos e diminuído as vagas de estacionamento. Tem ampliado o número de pessoas utilizando outros tipos de transporte (como bicicletas, patinetes...) e reduzido o espaço nas calçadas.

E conforme as relações vão se estabelecendo o Estado vai fazendo leis para disciplinar ou regrar a convivência entre as pessoas. E não podemos esquecer que temos muitos campos de relacionamento que são regrados pelo Estado, em especial, as relações comerciais e o empreendedorismo.

Imagine o Estado fazendo novas regras e leis para atender às mudanças da sociedade, sem anular as leis ou normas anteriores? Essa prática tem acontecido e ampliado o número de leis em desuso ou até mesmo conflitantes.

Putz! Um monte de leis juntas e não revistas cria o que as pessoas conhecem como burocratização e recebe o apelido popular de “burromania”. É uma prática que leva o Estado a ter muitas divisões, processos e regramentos que exprimem uma lentidão aos departamentos. E há regras que chegam a ser desnecessárias, atrapalhando a vida do cidadão e, em especial, dos empreendedores.

Agora a novidade é a visão ou a revisão do Estado brasileiro sobre este tema. Há um amadurecimento dos gestores públicos sobre a necessidade de revisitar a burocracia, simplificando e descomplicando os entraves do setor público.

A iniciativa do governo do Estado do Rio Grande do Sul tem o objetivo de facilitar a vida de quem quer empreender, gerar empregos e desenvolvimento, além de apresentar serviços mais ágeis à população, promovendo ações que buscam minimizar a burocracia da máquina pública.

Mas esta caminhada não é fácil, pois além de rever leis há a necessidade de se rever a cultura, mudar as práticas introjetadas que foram forjadas por uma época analógica: com escassez de informação, filas, papeladas, carimbos, assinaturas e muita morosidade (sem falar na má vontade).

O trabalho iniciou no final de 2018, com a criação do Conselho Estadual de Desburocratização e Empreendedorismo, coordenado pela Secretaria de Governança e Gestão Estratégica (SGGE). O Conselho é formado por sete secretarias do Executivo e sete representantes da sociedade civil, incluindo o Sebrae, sendo que sou uma das representantes da sociedade civil.

Em 100 dias de trabalho do Conselho, foi criado o projeto Descomplica, revogando 300 leis em desuso e indicando 21.000 normas para avaliação legal. Também houve o aceite de mais de uma centena de municípios a Redesim (que é um sistema integrado que irá permitir a abertura, fechamento, alteração e legalização de empresas em todas as Juntas Comerciais do Brasil). Consulte a www.redesim.gov.br e conheça uma das principais ferramentas que está sendo pensada para descomplicar a vida dos empreendedores.

Temos que ter em mente que essa jornada é de todos nós. De um lado está se caminhando para revisar as leis, construir um acesso digital e diminuir a burocracia. Do outro lado, o Estado precisa de uma visão empática dos dilemas da sociedade e desenvolveu um canal de comunicação www.descomplica.rs.gov.br para ouvir as dificuldades e as sugestões da população.

Participe, conte a sua experiência, diga como é e como deveria ser!

A importância do tal “ócio criativo”

06/08/2019 08:57

Cada vez mais temos menos tempo e mais coisas para fazer. Uma correria sem fim e até soa estranho quando alguém defende o ócio. O conceito diz que ócio é um tempo de descanso, cessação do trabalho, folga, repouso, quietação, vagar. Na prática, o conceito está nos dizendo que temos que ter uma mudança de rotina, fazer algo diferente.

Nesse debate reside a grande reflexão em torno do ócio criativo, que é uma resposta, uma saída ou até uma forma de fuga da rotina e, principalmente, uma capacidade de relacionamento com a tecnologia.

Estudos realizados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que o gaúcho passa em média 3 horas na internet, em especial, navegando nas redes sociais. Se calcularmos esse tempo, em uma semana estamos falando de 21 horas e em um mês representa uma média de 84 horas de envolvimento com a internet e com as redes sociais.

Mas vamos imaginar um dia normal. O dia tem apenas 24 horas e durante esse período temos que dormir, fazer higiene, temos que nos locomover no trânsito, temos que trabalhar ou estudar, temos responsabilidades e problemas com as pessoas que vivemos e temos o tempo gasto nas redes sociais.

Ufa, temos a sensação de que o tempo passa voando e que não temos tempo para nada. E não temos mesmo! Voltando ao conceito simplista de ócio criativo, a ideia é administrarmos o tempo. Termos um tempo para nós, ter um tempo em família, ter um tempo com as pessoas que gostamos. Significa desligar o smartfone de todos adultos e o tablet das crianças, escutar uma música, tomar um chimarrão, dividir o preparo do jantar ou ter uma relação afetiva.

Pense em um momento de contemplação do céu, onde explicamos para as crianças o que aprendemos sobre as estrelas ou sobre a lua. O momento em que cuidamos de flores ou o momento em que paramos para ler ou debater sobre um livro. E mais do que isso, o momento em que trocamos ideias sobre o presente e sonhamos com o futuro. E o momento que discutimos a relação ou que criamos um hábito de ouvir o outro.

O que estou dizendo é que temos que gerenciar o tempo, e gerenciar o tempo significa diminuir a influência dos smartfones e das redes sociais em nossas vidas e na relação com a nossa família. Significa ter uma disciplina sobre o tempo, ter um planejamento do tempo, e ter o ócio criativo como parte de uma estratégia para que a tecnologia não domine nossa vida, nossos valores e nossos sonhos.

Em um debate mais avançado, o ócio criativo significa trabalhar com aprendizado constante e buscando momentos de bem-estar e de lazer. Em algumas atividades profissionais dá para fazer a integração destas três ações, em outras não! Quanto mais intelectualizado o trabalho, maior a capacidade de haver o ócio criativo de forma integrada e esta capacidade diminui quando o trabalho é mais braçal.  

Mas como a tecnologia vem adentrando em nossas vidas, em todas as atividades temos que ter a seguinte lógica: o tempo da atividade/trabalho, o tempo do penso/da busca pelo conhecimento e o tempo da diversão, do lazer.

A grande reflexão que devemos fazer, de forma permanente, diz respeito ao nosso posicionamento em relação à tecnologia: vamos ficar passivos ao que a tecnologia nos oferece, sendo objetos desse processo, ou vamos nos posicionar como sujeitos e planejar o papel que a tecnologia vai ter em nossas vidas e o tempo que vamos gastar com o ócio criativo, vivendo com as pessoas que amamos?

Nem na hora da compra somos iguais

30/07/2019 09:34

Quem atende o consumidor diariamente sabe que existem vários perfis e que cada consumidor expressa um tipo de característica: há o consumidor que sabe o que quer e o que não sabe, tem o brincalhão e tem o consumidor com cara de brabo, há aquele que não dá muita conversa e também aquele que não para de falar... E tem aquele que quer pechinchar e até o que não pergunta o preço.

Agora, avançando no campo sociológico, quando se pensa no consumidor gaúcho quais são os principais tipos de comportamento, em quantos grupos eles se classificam e qual a importância de cada grupo?

Analisando as principais variáveis que interferem no comportamento da sociedade, o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião elaborou uma tipologia do comportamento do consumidor gaúcho que tem sido sistematicamente testada em uma amostra representativa: distribuídas por gênero, idade e mesorregiões do Estado.

Na pesquisa, o entrevistado se auto classifica com as descrições apresentadas pelo entrevistador, retratando os seus hábitos de consumo. São analisados os hábitos de compra, tanto na loja física quanto na virtual, bem como variáveis socioeconômicas como idade e renda familiar.

De uma forma geral, foram mapeados cinco tipos de comportamentos: o consumidor racional, o anticonsumo, o consciente, o consumidor por impulso e o consumidor de tendência.

O consumidor racional (54,6%) = É o consumidor que planeja a compra, calcula o custo X benefício de sua decisão. Pesquisa preço, avalia as vantagens da compra. Muitos desses consumidores economizam primeiro para comprar depois.

O consumidor anticonsumo (22,4%) = Este grupo se constitui em duas lógicas distintas, mas que mantém a mesma prática: evitam realizar compras. O primeiro grupo é constituído pelo consumidor que não tem tempo ou não gosta de comprar. Só compra o essencial e em situações de necessidade extrema. Na maioria dos casos, esse consumidor tem o apoio de um familiar. O segundo grupo é formado pelos consumidores que defendem a substituição de produtos industrializados por produtos caseiros e a realização de escambos de produtos entre as pessoas.

O consumidor consciente (9,6%) = Tem uma visão de mundo e acredita em ideais e princípios. Para escolher os seus produtos, além do preço e da marca, leva em consideração o meio ambiente, a saúde humana e animal e as relações de trabalho.

O consumidor impulsivo (7,0%) = É o consumidor tipicamente consumista. Compra tudo o que vê, mesmo quando não pode. Nesse tipo de comportamento se incluem aqueles que são viciados e se sentem felizes quando compram e frustrados após a compra. É o grupo que mais sofre com problemas financeiros.

O consumidor de tendências (6,4%) = É o consumidor que acompanha a moda. Quer estar sempre atualizado, adora novidades. Para este consumidor é vital a importância da marca no processo de decisão.

A pesquisa identificou dois comportamentos com decisão de compra mais utilitária (quando a decisão é motivada pela necessidade, pela demanda ou por fatores tangíveis) que foram classificados como consumidores racionais e conscientes (64,2% dos casos).

Outros dois comportamentos foram enquadrados como decisão de compra hedônica, (que é motivada por tendência, impulso ou emoção), sendo eles o comportamento por impulso e o de tendência (13,4% dos casos).

E é claro que dentro de cada um desses grupos há subgrupos, pois cada consumidor tem suas características comportamentais, econômicas e seu estilo de vida.

Dando um jeitinho no conceito de nepotismo

24/07/2019 11:27

Nos últimos tempos tenho ampliado minha dedicação ao estudo do jeitinho brasileiro e destacado que ele é uma forma de facilitar um caminho, burlar a lei ou até mesmo se utilizar das brechas da lei. Por essência, o jeitinho é uma forma de favorecimento pessoal, em especial, quando alguém ganha uma vantagem por “ter as costas quentes”. 

As pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião demonstram que a prática do jeitinho tem se ampliado, estando presente em ações cotidianas da população: no comportamento das famílias, no trânsito, dentro das escolas e até mesmo nos locais de trabalho.

E o jeitinho se acentua quando analisamos a percepção da população sobre os serviços públicos e os políticos: “para a coisa andar, alguém tem que dar uma forcinha”.   

Para combatermos o jeitinho brasileiro precisamos de consciência do problema e de projetos educacionais multidisciplinares que conectem as famílias e as escolas. Mas, mais do que isso, para alterar a tendência ao jeitinho precisa haver um novo posicionamento das lideranças públicas e, principalmente, dos políticos. Há um dito popular que diz que: “a palavra convence e o exemplo arrasta”. Para construirmos uma cultura antijeitinho, o líder deve guiar suas decisões a partir do interesse público, do bem comum e nunca entrar em debates que estejam associados a interesses pessoais. 

Infelizmente, estamos assistindo à indicação do filho do presidente da república à embaixada dos Estados Unidos juntamente com a negação do conceito de nepotismo. O jeitinho brasileiro está no campo da imoralidade. Mas a prática do nepotismo, além de imoral é ilícita. O nepotismo ocorre quando um agente público usa de sua posição de poder para nomear, contratar ou favorecer um ou mais parentes. O nepotismo é vedado pela Constituição Federal, pois contraria os princípios da impessoalidade, moralidade e igualdade.

O Supremo Tribunal Federal editou a súmula vinculante nº 13 sobre o nepotismo que caracteriza “a nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança ou, ainda, de função gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”.

O problema é que as legislações não dão conta de todas as situações que podem ocorrer. E o jeitinho aplicado pelos políticos pressupõe que o que não está na lei pode ser feito. O cargo de embaixador não se enquadra em um cargo de direção, chefia ou assessoramento, sendo caracterizado como um cargo político. 

Usando esse jeitinho para interpretar a lei, Bolsonaro pode indicar o filho e dizer que não é nepotismo, por se tratar de um cargo político. Mas a indicação moralmente se choca com o conceito de nepotismo e vai exigir que o Supremo avance na descrição legal do conceito de nepotismo. 

Quando fizeram a lei não imaginavam que um presidente quisesse indicar um filho como embaixador do Brasil e que o argumento seria embasado pela essência cultural do jeitinho brasileiro: “meu filho é amigo dos filhos do Trump”. 

Toda e qualquer indicação de parentes é nepotismo, incluindo o nepotismo cruzado, quando um político contrata um parente de outro político e vice-versa. O Brasil precisa romper com práticas clientelistas, personalistas que nutrem o jeitinho brasileiro.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

Outros Blogs

Voltar Topo