O desejo do eleitor às vésperas da eleição

27/09/2016 15:00

O “tempo da política” é analisado pelos cientistas sociais e políticos do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião como o período de cristalização da intenção de voto, onde o eleitor avalia o processo e tende a decidir o seu voto.

Tradicionalmente, o “tempo da política” está associado aos quinze últimos dias de campanha. Com a mudança da legislação eleitoral, que privou o contato entre representantes e representados, houve diminuição deste tempo, para menos de uma semana. Ou seja, o processo eleitoral de avaliação efetiva da candidaturas e cristalização do voto deve ocorrer nesta última semana.

Soma-se este novo modelo de legislação eleitoral ao aumento do descrédito do eleitor que tende a negar a política, têm-se uma situação de congelamento de cenários eleitorais e aumento de eleitores indecisos, brancos e nulos.

O eleitor se tornou mais crítico, mas não necessariamente mais consciente politicamente. Significa dizer que o eleitor crítico reclama mais, avalia os governos de forma mais negativa, confia menos e quer distância do processo eleitoral. Um terço dos eleitores de cada cidade acompanha o processo à distância, procurando subterfúgios para protelar sua decisão.
O processo de decisão eleitoral levará em consideração o desempenho da última gestão, os atributos dos candidatos e, em especial, as propostas. O eleitor procura minimizar o risco de sua decisão, utilizando alguns parâmetros subjetivos para avaliar o candidato que ele considera “menos ruim”:

- Honestidade: Com a ampliação das denúncias de corrupção, essa característica amplia-se e será monitorada observando a ficha limpa do passado dos candidatos, incluindo sua capacidade de cumprir o prometido.

- Pulso firme: A reativação da cultura política personalista tem sido uma estratégia de sobrevivência dos eleitores, que acreditam que optando pela pessoa do candidato deverão primar pelo político com capacidade de mando, de gerenciamento, que “saiba administrar” e zele pelo bem público e pela execução dos serviços, “faça o que precisa ser feito”.

- Plano de governo factível: Os eleitores almejam candidatos que tenham foco e primem pelas demandas essenciais em relação aos serviços públicos. A prerrogativa é para fazer funcionar os serviços públicos que não funcionam. O eleitor não quer a promessa de um novo posto de saúde, enquanto os postos de saúde existentes não funcionem.

- Moralidade pública: Esta característica nasce pós operação Lava Jato. Os eleitores exauridos com as promessas não cumpridas e com os escândalos de corrupção, rompem com o conceito da ética e se tornam adeptos do conceito da moral. Como a premissa é pela ampliação do personalismo político, o rompimento com o conceito da ética resulta na negação das instituições. O eleitor acredita na pessoa do candidato e pressupõe que a aproximação com o mesmo pode gerar a retomada do “fio-de-bigode”.
    
Diante desta conjuntura, o candidato ideal é aquele que tem ficha limpa, mostra atitude para resolver o que precisa ser resolvido, tem solução para os problemas cotidianos e projeto para a cidade, com capacidade de se posicionar como um líder.

A ideologia não será rainha na decisão de voto em Porto Alegre

22/09/2016 12:00

Analisar a cultura política do eleitor é primordial para entender a tendência de um processo eleitoral. O comportamento do eleitor expressa suas crenças, percepções e avalições: fatores que motivam suas decisões. A ciência política clássica, com autores como ALMOND e VERBA, ensina que há três tipos de orientação política:

1) orientação cognitiva = quando o indivíduo tem conhecimento do sistema político e a crença nele, nos seus papéis e nos seus titulares, seus inputs e outputs;

2) orientação afetiva = que se traduz por um comportamento guiado pelos sentimentos sobre o sistema político, seus papéis, pessoas e desempenho;  

3) orientação avaliativa = quando há combinação de padrões de valor, bem como de critérios de valor (julgamento) com informações e sentimentos (opinião).

A grande questão é: como estes tipos de orientação política estão presentes no sistema de crenças dos eleitores, livre de qualquer determinismo culturalista?Ao analisar o desempenho de partidos políticos na capital, a partir deséries eleitorais,tem-se a premissa de que sempre predominou uma polarização política entre partidos considerados de esquerda e partidos considerados de centro ou centro direita.
Diante deste contexto o IPO utilizou um dos indicadores utilizados pela ciência política para medir ideologia,realizando a seguinte pergunta aos porto-alegrenses:
Na política, as pessoas falam muito de esquerda e de direita. Eu gostaria de saber se, em termos de ideologia, o(a) Sr(a). se enquadra mais à direita ou mais à esquerda (ou não tem ideologia)? Em uma escala de 1 a 10, sendo que mais próximo de 1 é mais à esquerda, e mais próximo de 10 é mais à direita, com qual nota o(a) Sr(a). se classifica em termos de ideologia?

Esquerda (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8)  (9) (10) Direita    

O resultado da questão acima indica o seguinte comportamento:
- 41,0% dos eleitores se classificaram sem ideologia, não manifestando crença em ideias, mas em pessoas. Neste grupo está um grande contingente de eleitores descrentes com o processo eleitoral.
- 10,6% não souberam responderà questão, por desconhecerem o que é ideologia. Trata-se de eleitores que negam a política e tendem a anular ou votar em branco.
-48,4% se classificaram com ideologia, distribuídos da seguinte forma:
    
a) 27,4% esquerda;
b) 14,0% centro esquerda;
c) 37,2% centro;
d) 7,5% centro direita;
e) 14,0% direita.

Este resultado indica que o pleito de Porto Alegre será decidido pelos 51,6% que votam na pessoa do candidato, a partir de percepções associada aos atributos dos candidatos e da avaliação de suas propostas.

Do aviso prévio a eleição garantida

15/09/2016 10:00

Meus dias como cientista social e política e diretora de um Instituto de pesquisa sempre são singulares, mas nesta eleição estão sendo muito mais instigantes pela revelação de novos paradigmas sociais e políticos.

Estes novos paradigmas influenciam na decisão do voto dos eleitores e na forma como os políticos organizam suas campanhas. De um lado houve a “negação da política” e a ampliação de um eleitor pragmático e crítico. De outro lado, ocorreu a diminuição das estruturas de campanha e os políticos ficaram mais temerários com a avaliação das urnas.

Esta nova conjuntura, que está em transição, configura uma eleição com mais sensibilidade social, com candidatos que precisam estar “conectados” com os eleitores e onde a verdade deve estar acima dos discursos políticos rebuscados de promessas vãs.

E neste novo cenário, o cotidiano de análise de pesquisas do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião para os candidatos em várias cidades do RS, tem monitorado quatro tipos de situação:

- Candidatos que já receberam aviso prévio do eleitor = constituídopor candidatos que vão àreeleição e que, na situação, não fizeram uma boa gestão ou por candidatos deoposição que não desfrutam de uma boa imagem em termos de capacidade ou honestidade (candidatos que o senso comum já condenou como ficha suja). Neste campo também entram os candidatos que já estão fora do radar de decisão do eleitor pela ausência de propostas factíveis.

- Candidatos que estão sendo advertidos pelos eleitores = neste grupo estão os candidatos que estariam no bojo de decisão do eleitor, mas por utilizarem uma campanha de ataques e desconstituição do adversário saem da lista de possibilidades, “vão para trás da fila”. Em torno de 75% dos eleitores não aceitam candidatos que “falam mal” de seus oponentes. O eleitor não quer saber de ataques, mas de soluções.

- Candidatos que estão crescendo nas pesquisas = composto por candidatos que desfrutam de uma imagem positiva, que construíram uma campanha com propostas, que demonstram o “conhecimento do” e “solução para” o problema do eleitor. Estão fazendo uma campanha com sensibilidade social, baseada na realidade e tendem a ter sucesso eleitoral;

- Candidatos que já estão com a eleição garantida = neste grupo estão os candidatos que serão eleitos com ampla margem de votos, resultante de uma gestão séria baseada no acompanhamento permanente dos indicadores que constituem o tripé: política, serviços e comunicação.Ou ainda, há os candidatos de oposição, que adotaram uma linha de proximidade com o eleitor ou até mesmo uma linha messiânica.

A decisão do voto do eleitor é resultante do leque de candidaturas e do contexto de cada cidade. Não é à toa que a frase que mais se ouve nas pesquisas de opinião é “esse é o menos pior”. E o “menos pior” atualmente é aquele que entende o dilema do eleitor e tem propostas exequíveis, aquele que consegue fazer “mais com menos”.

A influência do horário eleitoral, dos debates e das propostas

07/09/2016 08:15

O “tempo da política” chegou com as campanhas eleitorais e os eleitores passam a debater e avaliar as candidaturas. É o momento em que os cientistas do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião monitoram o comportamento e a tendência eleitoral, em especial, em uma eleição marcada pela “negação da política”.

A “negação da política” atinge o modus operandi das campanhas, destituindo a credibilidade de muitas práticas tradicionais dos especialistas em campanhas. Isto não significa dizer que os eleitores vão decidir o voto em função da plataforma on-line, o voto não será decidido pelas redes sociais!

As pesquisas indicam que, em média, o horário eleitoral gratuito tende a ser importante fator de decisão para autodeclarados 20% dos eleitores. Os debates interessam para 30% dos eleitores. Já as propostas, estas sim, interessam para 40% da população. Os eleitores que estão satisfeitos com a gestão de seu Prefeito, tendem a dar um voto para a continuidade e os que não estão satisfeitos irão avaliar as demais ofertas do mercado eleitoral. E na existência de melhores alternativas na oposição, a punição da negação do voto para a situação será inevitável.

Mas como os eleitores farão esta avaliação? Quais serão os mecanismos de comunicação utilizados?
Os testes indicam que os eleitores que gostam de política tendem a acompanhar o horário eleitoral, os debates e as propostas. Ao contrário, os que não gostam de política, tendem a se manter distantes do “barulho” feito pelos candidatos, cerca de 60% dos eleitores.

Com o acirramento da descrença e com a “negação da política” o processo de decisão do voto retoma as origensda sociabilidade, da rede de relação social. E as redes sociais facilitam a sociabilidade das relações sociais. Do ponto de vista prático,quem se informa irá informar quem não se informa. Quem gosta de política irá motivar quem não gosta. Quem tem interesse irá estimular quem não tem e assim por diante. Ou seja, a eleição retomará o “boca-a-boca” e troca de ideias entre as pessoas.

Como a população precisa escolher um candidato, mesmo não acreditando nos políticos, buscará o candidato que tenha propostas que sejam factíveis e exequíveis. O debate propositivo interessa muito ao eleitor e os ataques políticos desprovidos de um benefício social servirão como uma bússola para o eleitor saber em quem não deve votar! Em média, 70% dos eleitores esperam que os candidatos não gastem tempo com ataques políticos, por um simples motivo: devem mostrar que entendem os anseios da população e possuem solução para minimizar mazelas históricas.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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