A política precisa de uma revisão de conceitos

10/09/2019 10:16

Há várias teses para defender a ideia de que o “povo não sabe votar”. Há análises que indicam que o povo é irresponsável, que é conservador e preconceituoso, que fica apático diante do que acontece, que é vulnerável aos grupos de pressão ou que é dominado pelas paixões ou pela “tirania da maioria.”

De outro lado, é corrente a premissa que os partidos não prestam. A ideia predominante é de que os partidos são constituídos por políticos que atuam em causa própria, que defendem os interesses de seus apoiadores e, quando trabalham em grupo, estão tramando algo, fazendo um conluio ou se corrompendo.

Diante desse contexto, escuto sempre a mesma pergunta: o povo gosta de votar em candidato personalista ou os candidatos personalistas é que sabem convencer o povo?

A resposta a essa pergunta é composta de vários fatores conjunturais e estruturais e remonta à cultura política brasileira. Por princípio, esse debate está contido em um ciclo vicioso: o sistema político brasileiro (sistema partidário, eleitoral...) propicia práticas personalistas e os eleitores respondem com voto personalista, tentando “achar” um tipo ideal que represente os seus anseios. E o ciclo se mantém, o sistema político continua a alimentar as práticas personalistas, os eleitores continuam a responder com o voto personalista e ficamos naquela frase de senso comum: “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha”.

Para repensarmos essa realidade precisamos revisitar conceitos, que vão da importância dos partidos até a necessidade da participação política. Para que esse país mude realmente, o político precisa do eleitor e o eleitor precisa do político.

Os partidos são um esteio importante de sustentação da democracia. Cabe aos partidos o debate e a reflexão sobre os rumos do país. Temos que ter a consciência de que os partidos têm (ou deveriam ter) a capacidade de representar e de governar.

E é correto e salutar que os partidos representem diferentes ideologias e convicções políticas existentes na sociedade, reunindo cidadãos adeptos à sua corrente de pensamento. Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) o eleitor, antes de se filiar a um partido político, deveria tomar conhecimento do estatuto partidário, que é a norma interna que rege sua organização e funcionamento, com o objetivo de verificar sua afinidade com o projeto político.

Na prática, a maioria da população deveria estar filiada a partidos políticos, contribuindo com ideias e com base ética (deliberando o que é certo e o que é errado). Com a ampliação da participação política haveria freios ativos nas bases partidárias, com capacidade de fiscalização e cobrança das promessas realizadas.

Mas para tanto, os partidos precisam se revisitar. Refazer seus programas partidários e ter claro o propósito: para onde querem guiar a população? Qual a melhor estratégia econômica para o crescimento do país? Como diminuir a violência? O que pensam sobre a gestão da saúde? Quais os mecanismos reais que possuem contra a corrupção?

Mas a população não quer só ouvir palavras bonitas. Antes de qualquer coisa, para pensar em participar, a população quer ver novas práticas, novas atitudes e novos comportamentos. Isso significa que os partidos teriam que rever suas ações internas e sua relação com os mandatários de cargos eletivos, retomando o princípio básico: quem se elege é o candidato, que deve representar o pensamento do partido e das bases sociais que representa.

Como o consumidor tenta se proteger na internet?

03/09/2019 10:03

A internet está se constituindo em um mundo alternativo, um mundo paralelo à realidade. Não é à toa que é cada vez mais crescente a entrada de pessoas acima dos 60 anos no mundo digital. O mundo digital é cheio de ferramentas que aproximam as pessoas e alteram a nossa forma de se relacionar com o mundo. A internet mudou até a imagem épica da fofoca, que era retratada pelo cochicho ao “pé de ouvido” e hoje ocorre pelos diálogos privativos no whats.

É cada vez mais frequente utilizarmos aplicativos para pedir comida, transporte ou agendar hospedagem. Também é crescente os motores de busca de comparação de preços, sites em que o consumidor entra para buscar a melhor opção ou oferta. Praticamente a metade dos gaúchos já realizou compras pela internet. Quando se pensa em uma curiosidade ou dúvida cotidiana, mais de 2/3 dos gaúchos usam a internet como ferramenta e a maioria “pergunta para o Google”.

Mais de 80% dos gaúchos estão conectados às redes sociais e utilizam as mesmas para entretenimento e informação. É uma forma de passar o tempo, de saber o que está acontecendo ou de falar com alguém conhecido. Agora, se esse mundo digital é um mundo paralelo ao real, nele também há pessoas boas e ruins. E a população está aprendendo a se defender ou tentando se proteger das armadilhas, sacanagens, golpes ou crimes do mundo virtual.

Os estudos realizados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que o consumidor tem desenvolvido alguns cuidados:

1º) Atenção às Fake News = As pessoas querem estar por dentro do que está acontecendo, mas temem ser enganadas. Mais da metade dos gaúchos se preocupam com as notícias falsas na internet e, para se proteger, verificam a fonte, a origem da notícia. Para tanto, buscam informação nos meios tradicionais que estão no meio digital. Significa dizer que as pessoas consultam o site ou as redes sociais dos jornais, das rádios ou os portais dos canais de televisão. Na prática, a internet faz o relacionamento e os meios de comunicação tradicionais como jornal, rádio e televisão conferem credibilidade aos temas.

2º) Consultar os comentários = A maior parte dos consumidores que buscam um produto ou serviço na internet se dedicam a ler os comentários, as experiências negativas e as respostas ou soluções oferecidas pelas empresas. Se houver dúvida, os consumidores procuram mais informações em sites brasileiros de reclamação, como o Reclame Aqui.

3º) Priorizar compra em lojas que tenham sede física = Consumidores que tiveram problemas com clonagem de cartão de crédito, lançamento de compras indevidas, fraudes na internet, falta de entrega de um produto ou produto com problema acreditam que é mais seguro comprar nas lojas virtuais que também tenham lojas físicas. Na percepção desses, seria mais seguro comprar de uma marca que tem loja na cidade ou em uma cidade próxima, onde se teria alguém para ouvir ou ajudar a resolver o problema.

Na prática, estamos todos aprendendo a se relacionar e a viver em um mundo que está cada vez mais digital. E durante essa caminhada teremos que ter uma prática de buscar informações, trocar experiências e acompanhar os movimentos e alterações da tecnologia.  Temos que primar por sistemas de antivírus, nunca entrar em um link desconhecido e não acreditar em ações ou ofertas milagrosas. E não podemos esquecer das grandes lições dos nossos ancestrais, “até chá demais faz mal”.

Individualismo, intolerância e redes sociais

27/08/2019 07:36

No último artigo apresentei uma reflexão entre a negação da política e a intolerância, demonstrando que “uma coisa leva à outra”. Parte da população migrou do estágio de ceticismo ao nível da negação da política. E essa negação atinge os políticos, perpassa a confiança nas instituições e se manifesta contra o politicamente correto.

A negação se estabelece com base no sofrimento, nas dores de uma grande parcela da sociedade. Eminentemente, essa negação está associada à ineficiência ou omissão do Estado (em todos os níveis da federação) e à super-representação dos direitos das minorias em detrimento ao direito da maioria. Nas últimas décadas, as deliberações legislativas, o ordenamento jurídico e as políticas públicas procuraram se basear no princípio constitucional para atender as dívidas históricas com as minorias.

Ocorre que o atendimento do direito das minorias de forma desequilibrada pode fragilizar o sentimento de proteção social. A premissa diz que o direito da minoria não pode se sobrepor ao direito da maioria, sob pena de se pôr em risco o conceito de maioria. Mas esse contexto tem outras variáveis que fomentam a “tempestade perfeita”. Vamos colocar nesse debate mais dois elementos: as redes sociais e a ampliação do individualismo.

Imagine quem se sente abandonado pelo Estado, tanto pela ineficiência dos serviços quanto pela percepção de estar apartado de direitos específicos. Pense em um indivíduo empoderado pelas redes sociais, acreditando que pode dizer o que bem entende em sua timeline. Nesse contexto a “tempestade perfeita” em termos de intolerância teve sua origem na cultura política brasileira, se intensificou diante da prática política dos gestores públicos e está sendo fomentada pelas condições conjunturais e estruturais da realidade tecnológica que vivemos.

Volto a repetir, uma coisa leva à outra! São vários fenômenos ocorrendo simultaneamente e influenciando o comportamento da sociedade. E o pior é que essa intolerância, que mostra sua face mais crítica nos debates políticos, está se constituindo em outras relações sociais, se manifestando em diferentes campos da realidade: dentro das escolas, nas relações de trabalho, no trânsito e dentro das famílias.

Compreender o contexto em que vivemos é o caminho para estabelecermos metas de futuro. E o primeiro passo para se estabelecer o diálogo com alguém que está indignado com a realidade é ouvir, se conectar com a sua dor, olhar o mundo a partir do seu ponto de vista. Estabelecida a conexão pela empatia, o segundo passo é buscar elementos comuns de concordância, aquilo que ambos concordam. Para só depois debater as divergências.

O debate das divergências precisa ocorrer dentro de uma lógica de negociação, onde se avalia o grau de cedência de ambas as partes. Estabelecendo o regramento para o diálogo, se constrói a lista de expectativas. Se retoma a capacidade de sonhar, de ter esperança. Entretanto, não podemos esquecer que a crença precisa estar alinhada com um propósito, com uma bandeira, com a capacidade de projetar objetivos.

Mas para diminuir a tendência do individualismo exacerbado e o crescimento da incoerência, se faz necessário o resgate de valores, do sentimento de comunidade, dos elos de identidade, de ações de integração. A intolerância é uma doença social que precisa de tratamento e o tratamento perpassa a solidariedade e o restabelecimento dos princípios morais e éticos.

Uma coisa sempre influencia a outra

20/08/2019 14:58

Crescemos ouvindo os mais velhos falarem que “uma coisa leva à outra”. E o senso comum sabe que existe a lei da ação e da reação, chamam ela de lei da vida: causa e efeito. Na prática o cultivo da terra ensina essa lição, semeamos, cuidamos e colhemos (e podemos perder tudo pois sempre estamos sujeitos a intempéries climáticas e pragas).

Na sociologia é mais ou menos assim, começamos a estudar um comportamento da sociedade ou uma opinião e aprendemos que ambos podem ter relação com uma experiência anterior ou pela influência do outro.

Quando escrevo sobre esse tema tenho em mente os estudos sobre a ampliação da intolerância. Temos visto a intolerância se mostrar na cena pública e ganhar força nas redes sociais, com destaque para o Twitter. E a intolerância traz como escudo uma narrativa de desqualificação do outro, até mesmo de forma obscena (com muitos palavrões) e a essência da radicalidade e do preconceito, com o argumento de libertação do politicamente correto.

Entender esse comportamento crescente é um desafio dos cientistas sociais do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião. E todo desafio traz consigo uma jornada e essa é uma jornada instigante, mas muito preocupante. Preocupante pois esse comportamento não está assentado apenas em ideologia. Os que são ideológicos defendem uma mescla de conservadorismo nos costumes e liberalismo econômico.

Mas o que move a grande parte das pessoas intolerantes não é uma crença na política governamental, elas são motivadas pela dor, pelo sofrimento! Elas sofreram ou ainda sofrem com a ausência ou ineficiência do Estado. Perderam pessoas que amavam no trânsito, perderam pessoas que amavam para violência, perderam pessoas que amavam para ineficácia dos serviços de saúde. E ficam ressentidas ao ver as notícias sobre os recursos públicos desviados e ter que sair de casa e viver os dilemas do cotidiano, cruzando com obras paradas e não sabendo o dia de amanhã.

São pessoas que até pouco tempo se caracterizavam como céticas em relação à política (tinham dúvidas, frustrações, mas buscavam acreditar). Diante da ampliação da corrupção e do descaso do Estado essas pessoas passaram a negar a política. Com base em experiências ruins e pela influência de sucessivos escândalos chegaram à conclusão de que os políticos não prestam e para se defender adotaram um raciocínio dicotômico: apoiam um salvador acreditando que ele irá combater o mal que está presente em todos que forem contrários às suas ideias.

Esse fenômeno ocorre em vários países, mas no caso do Brasil, boa parte das pessoas intolerantes são representadas por partes do discurso do Presidente. Utilizam as suas frases de efeito como salvo-conduto para reforçar a sua indignação. E o interessante é que cada um se conecta com a narrativa que lhe convém, ou melhor, com o discurso que é reconhecido por sua dor ou por seu sofrimento.

Um exemplo é o grau de aprovação da frase “bandido bom é bandido morto”. Dentre os gaúchos 44,7% concordam, 44,9% discordam e 10,4% não sabem avaliar. Quando uma pessoa sofre com a criminalidade, não quer saber se o conceito de furto é diferente de roubo e não quer ouvir que a polícia não tem viaturas para atender. Essa pessoa quer ser protegida, quer ter paz e sossego para caminhar nas ruas e, principalmente, quer conseguir dormir sem medo à noite. E vai se identificar, vai apoiar discursos contra a origem do mal: o criminoso.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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