Menos corrupção, menos intolerância!

21/05/2019 09:59

Há tempos estamos sofrendo com a corrupção e é um sofrimento que parece não ter fim. É um desalento que vai abrindo feridas profundas em todos e está nos levando ao pior de todos os males: a intolerância.

Durante o processo eleitoral de 2018, a população tinha como consenso a necessidade de um presidente que tivesse como princípio o combate à corrupção. Deveria ser uma pessoa com pulso firme, com capacidade de romper com a velha política do toma lá, dá cá. Desejavam um político que administrasse o Brasil como se administra uma empresa, fazendo com que os serviços públicos e obras andassem e os funcionários públicos trabalhassem em prol das pessoas.

Era um desejo simples, justo e necessário! O problema é que os agentes que operam o sistema político brasileiro “não se dão conta” dos malefícios causados pela corrupção. Mas a sociedade sabe pontuar os diferentes males que a corrupção traz:

Há aqueles que dizem que a corrupção leva o dinheiro de serviços como a saúde e tira a chance de muitas pessoas viverem.

Tem aqueles que percebem a corrupção como uma doença contagiosa, que contamina as pessoas honestas. Acreditam que, quando se “chega lá” e vê os colegas desonestos se dando bem, é fácil entrar na mesma lógica.

As pessoas com mais experiência contam que a corrupção mantém a ineficiência do serviço público e potencializa a burocracia. Cria a figura do intermediário, daquele que é o “despachante”, que faz a indústria do suborno começar a funcionar para que o cidadão tenha acesso àquilo que é seu de direito.

E uma parcela fala da corrupção com profundo desprezo, lembrando da impunidade. Das práticas corruptas que acabam fazendo parte do nosso dia a dia, nos entristecendo, nos obrigando a dizer para os nossos filhos: “infelizmente é assim que funciona”.

Diante dessas lógicas perversas, os efeitos da corrupção ampliam cotidianamente a decepção que é potencializada e externada pelas redes sociais. A impaciência da população é um sintoma, que mostra que não se aguenta mais ver as mesmas práticas, os mesmos conchavos e as negociatas de sempre.

E essa intolerância que nasce das sucessivas frustrações da população, alimenta a descrença com os partidos, com os políticos e com as instituições. E a desmoralização das instituições afeta a crença na democracia.

E aí está o pano de fundo para os debates que estão sendo visto nas redes sociais. A grande maioria tem um desejo comum: querem um país melhor, sem corrupção e não acreditam que o país esteja caminhando para esse propósito.

Além disso, a forma como as soluções são apresentadas geram muitos temores: como se abrir mão da aposentadoria fosse um caminho bom para o país não quebrar e investir em educação fosse um caminho ruim, pois há necessidade de contingenciamento.

Temos a tempestade perfeita para o bate-boca, para a desqualificação do outro, para que a intolerância se mostre na sua forma mais plena.

Montesquieu diz que dois seres uma lei, dois seres um diálogo. E a intolerância se torna a rainha quando dois seres não dialogam, se atacam. Quando dois seres não trocam ideias, se desqualificam. A intolerância procura um culpado, ataca o mensageiro e não permite que se chegue a uma leitura e muito menos aos pontos fortes e fracos da mensagem.

Temos que resgatar a tolerância. É salutar concordar, discordar ou mostrar pontos frágeis da mensagem, mas sempre com respeito ao mensageiro.

O “jeitinho” nosso de cada dia

14/05/2019 10:28

Já fiz vários artigos falando da “doença social” que faz parte da cultura política brasileira, o tal de “jeitinho brasileiro”.

Quando me refiro a uma “doença social” estou falando de algo que está enraizado no funcionamento da sociedade. Estou fazendo uma analogia entre o corpo humano e o corpo social, pensando que estamos ligados neste corpo por várias conexões: sejam familiares, sejam educacionais, de trabalho ou até mesmo pelas relações políticas. O jeitinho brasileiro também é considerado como uma forma de “navegação social”, que circula pela corrente sanguínea desse corpo social, ou seja, está presente nos lugares mais improváveis das relações sociais, no dia a dia das pessoas.

O "jeitinho", inicialmente sinônimo de "criatividade", adaptou-se para a capacidade de resolver problemas ou tarefas utilizando subterfúgios, burlando regras, utilizando-se de redes de relacionamentos e se constituindo como uma forma de "levar vantagem". E assim a doença social vai crescendo. Uma pessoa fica feliz quando se dá bem em cima de outra pessoa.

Do ponto de vista prático, é preciso que se entenda que, em uma democracia republicana, o "eu me dei bem" pode ser resultante de uma ação inversa "alguém se deu mal".

O jeitinho, como doença social, começa dentro de casa, quando um irmão passa a perna no outro e é tido como mais esperto. O jeitinho brasileiro está presente na omissão dos pais, que não fazem nada quando isso acontece.

O jeitinho brasileiro está presente nas escolas, quando o aluno cola na prova e ainda conta isso para os colegas, como se fosse um grande feito. O jeitinho brasileiro está presente quando o professor vê o aluno colar e não faz nada, com o argumento de que não quer se incomodar.

Nas relações de trabalho o jeitinho pode estar presente de várias formas. Quando um funcionário bate o ponto para o outro ou quando um gerente ignora as práticas desleais entre colegas de trabalho, com o argumento de que essas práticas estimulam a competição.

O jeitinho está presente quando se vende o sinal de internet para o vizinho ou quando uma revenda de automóveis coloca seus carros expostos nos canteiros de uma avenida.

O jeitinho está presente quando se pede para um amigo funcionário público passar seu nome na frente, para conseguir uma vaga na creche. E o jeitinho também está presente quando o funcionário público leva produtos para vender em seu local de trabalho.

Analisando esses exemplos poderíamos dizer que se tratam de comportamentos individuais que mostram falta de ética ou de caráter de quem o pratica. O problema é que essas ações são realizadas de forma sistêmica, por muitas pessoas e vão se tornando “normais”.

E, como um faz, o outro se sente no direito de fazer e assim o jeitinho vai tomando conta do corpo da sociedade.

O jeitinho brasileiro aproxima o favor da corrupção, servindo como "ponte de acesso" entre conceitos tão distintos. O jeitinho é uma forma de corrupção! Na prática, o jeitinho é a porta de entrada para a corrupção, que começa com a perspectiva de tirar vantagem pessoal, de se beneficiar com algo, a conhecida lei de Gérson que diz que "o importante é levar vantagem em tudo". 

A mudança deste cenário requer etapas integradas: a) A consciência desta realidade; b) O debate sobre esta realidade, refletindo e deliberando o que é certo e o que é errado; c) A educação, que deve começar dentro de casa; d) A prática, onde se abre mão de vantagens pessoais, trabalhando em prol do bem comum. 

Como a sociedade percebe o Estado

07/05/2019 07:36

O Estado existe com a finalidade de garantir o bem comum da sociedade. Por princípio, a população deveria se sentir protegida, se sentir cuidada. Mas na prática, tem se acentuado a percepção negativa da população em relação ao Estado e às instituições que o compõe.

E quando falo em Estado, não estou me referido apenas ao Estado do RS, estou falando de Estado como unidade política, em seu sentido amplo: uma comunidade de cidadãos organizada por órgãos e serviços, que criam normas e regras para que se possa viver em desenvolvimento, ordem e paz. Podemos pensar em todas as instituições do Governo Federal, Estadual e do Município em que vivemos.

Nesse contexto, quando um entrevistado externa a sua percepção sobre o Estado, ele está avaliando de forma genérica e sua análise pode estar baseada nas “entregas” ou na “reputação” do Estado, tais como:

a)    experiências negativas na utilização de um serviço;

b)   inexistência de serviços em um bairro ou cidade;

c)    relacionamento com obras inacabadas;

d)   influência de amigos e familiares;

e)   comentários e críticas de servidores públicos;

f)     influência do noticiário;

g)    publicações e debates nas redes sociais.

E na percepção da maioria da população, o Estado é um ente que traz mais problemas do que soluções. Mais atrapalha do que ajuda! E essa percepção está associada à leitura de que há quatro males que atingem as instituições no país:

1º) Corrupção - O mal mais notório e que tem ganho muito destaque nos noticiários da última meia década. A percepção é de que o problema da corrupção é endêmico e está enraizado nas instituições e na sociedade.

2º) Burocratização- Este é um mal que afeta muito a sociedade e estimula o descrédito com os governantes e servidores públicos. Em muitos casos a pessoa “peregrina” para resolver um problema no Estado. A visão negativa da burocracia está associada à morosidade, à falta de informação ou informação segmentada, que exige que o cidadão vá a diferentes repartições e tenha que correr atrás de diferentes documentos, muitas vezes refém da interpretação do servidor que lhe atendeu.

A burocracia é associada à corrupção quando o senso comum apregoa que o Estado “cria dificuldade, para vender facilidade”. A população questiona se a corrupção motiva a ineficiência dos serviços públicos ou a ineficiência é fruto da corrupção? Não há resposta para esta questão!

3º) Privilégios - Este é um dos malefícios que permeia o Estado e amplia a descrença da população. Para "os amigos tudo e para os demais os rigores da lei". A população relata seu desalento com os privilégios dos altos salários, do auxílio moradia, da utilização de carro público para fins pessoais, do não cumprimento de horário nas repartições públicas e até da utilização do espaço público para comércios.

4º) Taxação/ tributação - Além de haver corrupção, ineficiência de serviços e privilégios a sociedade é constantemente sobretaxada ou tributada para a cobertura dos rombos destes e de outros malefícios.

Para que a sociedade reveja a sua percepção sobre o Estado, são necessárias ações corretivas como mecanismos efetivos de combate à corrupção e aos privilégios, desburocratização e desoneração tributária.

É necessário descortinar a corrupção e desenvolver um sistema de debate que construa um novo contrato social com a sociedade, onde se pactue o que é certo e o que é errado, incluindo o jeitinho brasileiro (que é base cultural da corrupção e dos privilégios).

Você conheceu alguém hoje?

30/04/2019 10:13

Você já parou para pensar em quantas pessoas você conheceu nos últimos tempos? Com quantas pessoas novas você conversou? E lembra se estabeleceu alguma empatia com essa pessoa? Se comoveu com alguma história? Ou aprendeu uma receita nova ou descobriu um novo fornecedor?

Há pouco tempo, cada dia era um novo dia para conhecer uma nova pessoa, ouvir uma história ou até mesmo fazer uma nova amizade. A rede de relacionamento era construída de forma pessoal, através de contatos, conversas, trocas de experiências, auxílios e por indicação de algum familiar ou amigo.

A conversa podia ocorrer na fila de um ônibus urbano ou durante o trajeto de viagem. Muitas vezes, se pedia uma informação na parada de ônibus e o informante dizia que iria para o mesmo lugar, a conversa se transformava em um longo papo.

Na prática, as filas sempre eram um bom lugar para bater um papo e conhecer uma nova pessoa. As relações estabelecidas na fila do posto de saúde resultavam em conhecimento prévio da qualidade dos médicos, relatando desde atenção dispensada, tipo de medicação indicada e grau de acerto ou de erro. Sem contar na lembrança daquelas receitas caseiras, da época da vovó.

E quantas pessoas se conhecia quando se ia fazer um curso ou ter uma aula em uma turma específica? Era o momento de muitas dicas, de saber como era o professor ou até se valia a pena fazer outra disciplina.

E se você queria que uma viagem longa passasse rápido era só contar com a sorte de ter ao seu lado uma pessoa que gostasse de conversar. As horas passavam e era comum descobrir que se conhecia pessoas em comum. Em alguns casos, a conversa propiciava uma certa “terapia”, compartilhando dilemas, encrencas familiares ou até mesmo aventuras empreendedoras.

E as festas de familiares e amigos eram locais onde se conhecia muita gente, um momento propício para se encontrar a alma gêmea ou grandes amizades. As vezes, sem nos darmos conta, se estabelecia uma grande cumplicidade durante uma conversa, que dava a sensação de que se conhecia a pessoa há muito tempo.

Refaço a pergunta inicial, você aproveita as oportunidades cotidianas para conversar e conhecer pessoas?

Tanto a pergunta quanto os exemplos dados foram selecionadas propositalmente para instigar a reflexão, afinal de contas, quase 90% dos gaúchos utilizam cotidianamente as redes sociais. Significa dizer que as pessoas passam de duas a três horas por dia nas redes. E o pior, perdem a oportunidade de conhecer a pessoa que está ao seu lado.

É cada vez mais comum nos depararmos com as seguintes situações: Pessoas na fila do ônibus ou do supermercado, vidradas no celular; Fazendo uma viagem teclando no celular, com os fones de ouvido e totalmente desconectado de quem está ao lado; Alunos entram na sala de aula e, na primeira oportunidade, estão conectados ao celular.

E tem aquelas pessoas que ficam em uma fila para tirar uma ficha no posto de saúde, se indigna com a demora, posta uma reclamação nas redes sociais e não fala com a pessoa que está ao seu lado.

Os encontros entre amigos registram as cenas mais inusitadas: uma mesa de bar com várias pessoas e cada uma no seu celular. E o churrasco de família, onde a galera está toda no celular e só se olha quando vai tirar uma selfie, para postar em seguida, ou se fala quando quer mostrar uma foto ou um vídeo cômico.

Observar exemplos cotidianos nos ajuda a compreender como a evolução da tecnologia amplia o nosso individualismo e nos afasta do mundo real.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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