O bullying no mundo digital

10/12/2019 11:23

O bullying é um termo novo para conceituar algo muito antigo: a intimidação sistemática. O bullying já está tipificado na lei nº 13.185 e significa um ato de violência física ou psicológica que pode ocorrer sem motivação e é praticado por uma ou mais pessoas.

Muitas vezes o bullying começa como uma brincadeira, algo engraçado, mas que acaba intimidando, desrespeitando, magoando, trazendo angústias para quem é alvo da “zoação”. E, como o bullying é sistemático, pode destruir a autoestima de quem o sofre e incentivar a solidão.

O bullying causa um desequilíbrio social de poder entre as partes envolvidas (seja na família, na escola ou no trabalho), fazendo com que haja uma seleção natural entre grupos: os que se divertem e os que são a base da diversão.

A análise parece insultuosa, pois o que há de mal em fazer brincadeira com um colega ou parente? Temos que entender que, em um grupo, para haver uma brincadeira todos precisam brincar, e que não há brincadeira onde apenas alguns dão risadas sistemáticas e outros são o alvo.

Nas relações que se estabelecem no mundo real, 29% dos estudantes brasileiros declaram que sofrem bullying pelo menos uma vez por mês, segundo a recente divulgação do relatório PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2018 feito para a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Estamos falando que três em cada dez alunos brasileiros reclamam de bullying e estão mais propícios a se isolar, ter depressão, sequelas psicológicas, abandonar a escola ou até mesmo usar substâncias entorpecentes como forma de abrandar ou fugir do sofrimento.

O bullying se torna mais severo com o avanço da tecnologia e a ampliação das redes sociais. Temos que ter em mente que, antes da disseminação das redes socias, um jovem que sofria discriminação em função do peso, da altura, da cor da pele, do tipo de cabelo, do poder aquisitivo, religião ou por uma limitação física ou intelectual, conseguia um momento de tranquilidade quando não estava no ambiente hostilizador. Com as redes sociais, o bullying acompanha os jovens estudantes onde quer que eles estejam.

Os grupos de WhatsApp e as redes sociais são impiedosos e a intimidação sistemática pode se manter até quando o jovem está no aconchego de sua casa. Os grupos postam fotos, vídeos ou áudios gravados de forma oculta e que mostram situações cotidianas da intimidade de uma pessoa que é alvo da “chacota coletiva”.

Para termos empatia com uma situação precisamos de um exemplo. Imagine um adolescente que tenha uma perna mais curta do que a outra e que por isso tenha um caminhar “que possa ser considerado como engraçado”. Esse adolescente poderá ser filmado e fotografado em várias situações: descendo uma escada, fazendo educação física, escrevendo no quadro branco e assim por diante.  

E essas imagens e fotos podem rodar pelos grupos de Whats e até mesmo viralizar nas redes sociais e tudo em tom de brincadeira. Também poderá ser apelidado de “perneta” ou ser excluído das festas e encontros da turma, pois afinal de contas, é um “perneta”.

Temos o desafio de compreender que o bullying está presente em nossa cultura e termos a sensibilidade de detectá-lo, criando uma atmosfera de conscientização. O principal ingrediente dessa “receita” é o respeito e o tempero é a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro e não fazer para o outro o que não quer para si.

A aparência ganha força no mundo digital

03/12/2019 16:08

O debate sobre a aparência e a essência é clássico. E, como todo clássico, muitas vezes é esquecido. Ainda mais no contexto de crescimento do culto à imagem. Historicamente, a aparência se coloca como rainha das atenções ou dos holofotes. E quanto menor são os valores e crenças de uma sociedade, maior a supremacia da aparência em detrimento à essência.

A aparência é a forma como as coisas nos são apresentadas, aquilo que se mostra aos nossos olhos, às nossas percepções ou entendimentos a partir de uma leitura ou juízo de valor. A aparência pode externar sentimentos positivos e gerar autoestima. Na prática valorizamos a beleza física, idolatramos um rosto bonito, observamos um corpo escultural, somos atraídos por quem tem uma boa retórica ou é “bom de lábia”, somos impactados por um sorriso perfeito e acreditamos na riqueza como solução dos nossos problemas.

O contrário também é verdadeiro, a aparência pode trazer consigo sentimentos negativos ou falsidades. Somos sensibilizados por uma história triste, ficamos impactados em uma ver uma pessoa com dificuldade física, nos revoltamos quando ouvimos sobre um crime e, em muitos casos, olhamos apenas um lado da história. Temos que ter consciência de que a internet potencializa o mundo da aparência: no mundo virtual, nem tudo o que parece ser, necessariamente o é!

Podemos começar a reflexão com as Fake News (notícias falsas) que fazem com que pessoas saiam de casa para buscar um emprego que não existe ou votem em um candidato a partir de uma boa mentira contada pelo WhatsApp.

Também é importante prestarmos atenção nos influenciadores digitais, se eles não vendem “gato por lebre” ou se não são fakes (por criarem a aparência de ter um grande público a partir de um falso engajamento). Há vários exemplos, desde a influenciadora vegana que dava dicas de cardápio sem nenhum ingrediente de origem animal e, em sua rotina alimentar, incluía alimentos de origem animal. E os casos mais sérios, que são as celebridades digitais que ostentam a riqueza e ensinam seus seguidores a fazer fortuna usando a prática de pirâmides, enganando as pessoas.

A aparência na internet é uma porta aberta para fragilizar pessoas emocionalmente carentes. Somam-se os casos de pessoas que são atraídas por fotos postadas em sites de relacionamento e são usurpadas ou roubadas por aquela pessoa que lhe fez juras de amor no mundo virtual.

Entretanto, a aparência não é a senhora apenas no mundo virtual, ela ocupa um grande espaço nas relações cotidianas, no dia a dia. E para que a aparência tenha um papel secundário é importante que saibamos valorizar a essência ou até mesmo ressignificá-la.

A essência é o que está por traz da aparência. Representa a natureza de uma pessoa, os seus princípios, valores e as suas crenças. Tem relação com a sua educação, com a sua cultura ou sua religião. É onde está o caráter e a régua moral que nos faz distinguir o certo do errado. A essência não se mostra de forma objetiva, necessita de tempo e relacionamento, precisa de convivência. A essência é aquilo que realmente somos, é parte da nossa alma.

Muitas pessoas são tão envolvidas pelo mundo da aparência que acabam perdendo a sua essência ou perdendo a capacidade de procurar a essência do outro, de valorizar o que realmente tem valor. As maiores belezas do ser humano estão ligadas aos seus gestos e à sua bondade, à sua capacidade de respeitar, de se solidarizar e de amar.

Você gosta da cidade onde mora?

26/11/2019 09:56

Uma pergunta simples e que faz muitas pessoas pensarem sobre a realidade em que vivem, sobre o seu cotidiano na cidade. As pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião têm verificado a satisfação da população de diferentes cidades do RS, com o município em que moram. Em média, 70% da população está satisfeita com a sua cidade.

Esse indicador varia de cidade para a cidade e sofre influência de diferentes variáveis, relacionadas à realidade do município, tais como: porte (tamanho do município), situação econômica (relacionados ao PIB per capita) e sentimento de comunidade (elos de integração e identidade).

O porte do município é um dos principais influenciadores da satisfação da população. Via de regra, quando menor o município, maior a satisfação com a cidade. Ao contrário, quando maior o município menor a satisfação. O porte interfere também na opinião da população mais jovem que tem o objetivo de se desenvolver em termos educacionais e profissionais.

Mas, como em toda regra, há exceções! A insatisfação aumenta em municípios de pequeno porte sem infraestrutura em termos de saúde, educação, sistema financeiro (bancos), com comércio frágil e que estejam distantes de cidades maiores.

A satisfação é afetada pelas condições econômicas do município. Cidades com PIB (Produto Interno Bruto) baixo tendem a ter uma população com renda per capita baixa. Se o município não tem dinheiro, a população tende a não ter dinheiro. Não é à toa que há um debate nacional para extinguir municípios com menos de 5.000 habitantes e com arrecadação própria inferior a 10% da sua receita total.

Outro fator determinante para motivar a satisfação da população de uma cidade é o sentimento de comunidade, que está associado ao sentimento de pertencimento. O sentimento de comunidade é composto por vários indicadores que estão ligados à identidade de uma população, à sua cultura. Inclui religião, o grau de miscigenação e até mesmo as ações de integração que ocorrem na cidade. Quanto maior a integração em torno de um ou mais propósitos, maior é a cristalização de elementos identitários. Na prática, o sentimento de comunidade está associado àquilo que dá orgulho à população.

Os motivos de orgulho sempre têm relação com a história do município. Municípios que mantém uma narrativa positiva e motivadora de sua história, tendem a potencializar o orgulho de seus munícipes. O orgulho também está associado à geografia do município, à sua beleza natural, às áreas de lazer que disponibiliza e à capacidade de incentivar o turismo. As festas temáticas dos municípios são importantes, ampliam a autoestima de uma cidade, motivam a satisfação com o município e são responsáveis por ampliar a identidade da população. O trabalho, esporte e a educação também potencializam a percepção de que o município ajuda a população a se desenvolver.

Se o orgulho está associado à história, à geografia e à vocação econômica do município, a decepção está associada à prestação dos serviços públicos, que tem relação direta com a capacidade financeira e a eficiência da gestão pública. Quando maior o município, maior a preocupação com saúde e segurança. Quando menor o munícipio, maior a preocupação com saúde e situação das estradas.

Tendo em vista os indicadores de análise, os maiores índices de insatisfação se encontram em cidades da região metropolitana, que se caracterizam como cidades dormitórios, com menor renda per capita e baixo sentimento de comunidade.

A tecnologia facilita ou dificulta os relacionamentos?

19/11/2019 16:58

A pergunta parece banal e a resposta simples, pois cada um responde de acordo com as suas experiências. Aqueles que estão iniciando um relacionamento amoroso pelas redes sociais vão pular e responder que facilita. Quem fala com um parente ou amigo distante não tem dúvida de que a tecnologia facilita.

Agora, no relacionamento cotidiano, a tecnologia traz consigo muitos ruídos, dificultando a comunicação entre as pessoas. E esses ruídos nascem da impaciência, da facilidade de antecipar os diálogos, de tentar resolver os problemas pelas redes sociais, contando para o outro uma indignação, mostrando tristeza ou descontentamento com uma situação.

Não podemos esquecer que os relacionamentos em sociedade se dão pela convivência no mesmo espaço, pelo entendimento e respeito do outro, pela compreensão e solidariedade, pela comunicação direta, em que se utiliza todos os sentidos (um fala e outro escuta, gestos, olho no olho, etc) e que os relacionamentos são baseados no compartilhamento de determinado contexto ou interesse em comum (família, romance, trabalho, sala de aula, amizades...).

E como “cada cabeça é uma sentença”, é normal haver divergências nos relacionamentos. O problema é que estamos debatendo esses atritos nas redes sociais ou em aplicativos de mensagens (como WhatsApp) e tornando os relacionamentos mais difíceis, tensos e minimizando a capacidade de entendimento.

Quando fazemos o debate de uma discordância de forma virtual trazemos, naturalmente, conosco, o tradicional pré-julgamento e juízo de valor. Acrescentamos os novos dilemas sociais, que estão associadas à ampliação do individualismo, impaciência e à intolerância. Significa dizer que, como não estamos frente a frente com o outro, acreditamos que podemos dizer o que bem quisermos e na hora que quisermos (sem saber a situação que o outro está vivendo). Na prática, em um diálogo virtual, temos menos capacidade de empatia e esse fenômeno potencializa a leitura de que estamos certos.

Diante desse cenário o debate virtual fica mais forte e impiedosamente eternizado.  É um debate onde tudo fica registrado (em texto, áudio ou vídeos), permitindo que as partes possam voltar, reler, olhar e fazer novas releituras e interpretações. E essas novas releituras podem ampliar a animosidade, pois trazem consigo o julgamento e a condenação do outro, sem mais direito à defesa. Ou seja, no começo da conversa virtual havia o pré-julgamento estabelecido pela indignação ou ira que motivou o diálogo e, se as respostas não corresponderem às expectativas, a condenação pode ser sumária e resultar em uma conta bloqueada.

E nesse novo contexto a tecnologia vai interferindo na comunicação interpessoal e atrapalhando os relacionamentos, criando antipatias, ressentimentos ou rompimentos e potencializando disputas virtuais que não fazem sentido no mundo real.

Temos que desenvolver a consciência de que não podemos ser envolvidos em uma rotina de despachar tudo por Whats e que, em muitos casos, é mais indicado desenvolver a arte da paciência e esperar pelo encontro pessoal para tratar do ponto de discordância ou do ruído.

A tecnologia é uma grande ferramenta à disposição da sociedade, mas é vital que tenhamos consciência da sua influência no nosso comportamento e, por consequência, dos seus malefícios. Não podemos permitir que a tecnologia diminua a capacidade de diálogo e de entendimento entre as pessoas.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

Outros Blogs

Voltar Topo