O antídoto para corrupção está no seu antônimo

27/02/2017 18:00

Ao estudar a prática do “favor, jeitinho e corrupção” verifica-se que no comportamento cotidiano da sociedade brasileira há uma linha cultural muito tênue entre essas três lógicas. O “jeitinho brasileiro” aproxima o favor da corrupção, servindo como “ponte de acesso deturpadora” entre conceitos tão distintos.

O debate não pode perder de vista o papel do aparelho ideológico e repressivo do Estado, sendo que o “jeitinho” advém da distância entre a lei e a realidade: o axioma prevê que quanto maior for a distância ou desconhecimento da população em relação a uma lei e suas aplicações, maior será a tendência do jeitinho brasileiro.

Na prática o jeitinho é a porta de entrada para corrupção, que começa com a perspectiva de tirar vantagem pessoal, de se beneficiar com algo, a conhecida lei de Gérson que diz que “o importante é levar vantagem em tudo”.  

Neste momento conjectural esta rápida reflexão nos leva direto para o atual escândalo da Lava Jato, que se caracteriza como o maior escândalo de corrupção da história do Brasil. Mas este problema vai muito além da Lava Jato e tem suas bases na história e, principalmente, na cultura política da sociedade e está intrínseca no cotidiano da população.

Em 1954 Lacerda disse “somos um povo honrado governado por ladrões”. Já se passou mais de meio século e a frase se mantém atual na percepção da opinião pública, tanto que nas pesquisas de opinião realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião a maioria dos entrevistados se consideram honestos e a mesma maioria considera os políticos desonestos, como se os políticos fossem uma casta apartada da sociedade.

Mas a constatação mais importante é de que a descrença passa a tomar conta da população, sendo que 97% dos gaúchos não confiam em seus representantes e mais de 75% não confiam nos três poderes constituídos. A descrença se torna uma doença social que fragiliza os elos entre representantes e representados e tem várias implicações sociais.

Partindo da premissa de que “precisa piorar para melhorar” temos que rever os conceitos culturais sobre jeitinho e corrupção. Se a corrução é o mal da sociedade e da política devemos começar a reflexão e o debate pelo antônimo de corrupção. O antônimo de corrupção se caracteriza pela a integridade, a probidade, a retidão, a seriedade, a honradez, a honestidade, a honra, a dignidade, a proteção e o decoro. Além disso, o antônimo de corrupção prevê manutenção, a prevenção, a cautela e o cuidado.

A partir do antônimo da corrupção temos os princípios que devem nos reger em sociedade, o que deveríamos SER e os princípios que os políticos deveriam TER para nos representar. Se a sociedade comungar destes princípios no seu cotidiano a mesma poderá definir os propósitos, comungar valores e eleger políticos que comunguem destes mesmos princípios. Lembrando que a democracia é o princípio da maioria e que a minoria deve ser respeitada, mas não se sobrepor.

Afinal, a existência do Estado se fundamenta pelo “bem comum”, pelo interesse público em detrimento do interesse pessoal. Temos que voltar ao ponto inicial dos valores da vida em sociedade e da finalidade do Estado.

A diferença entre público-alvo e personas

22/02/2017 14:00

Nos cursos de graduação, aprendemos que a definição do público-alvo é vital para a elaboração de um projeto de pesquisa e para a projeção de um planejamento estratégico ou de um plano de marketing. Sem a definição do  público-alvo não se chega a lugar nenhum, não se tem assertividade.
 
Do ponto de vista sociológico, o público-alvo é composto por um segmento, com características comuns. Estas características podem estar atreladas a variáveis comuns como: gênero, faixa etária, renda familiar, composição familiar, religião, local de moradia entre outras.

Na perspectiva sociológica, utiliza-se o princípio macro da análise e se parte do contexto social do grupo para compreender o comportamento do público-alvo em questão, mais ou menos na lógica “digas com quem andas que te direi quem és”. Nesta lógica, as decisões individuais são compreendidas dentro do contexto dos diversos grupos sociais, enfatizando a importância dos determinantes socioeconômicos, culturais e da estrutura de classe na formação das clivagens sociais.  

A velha discussão, “se você não sabe qual o seu target, como vai chegar até ele?”

Neste raciocínio, as pesquisas mercadológicas ou de opinião focam em determinado público-alvo, pois partem da premissa de que os grupos sociais compartilham comportamentos similares de consumo, de preferências e de hábitos, um pouco dentro do debate da mobilidade social “não sou o que gostaria de ser, sou o que posso ser”.

Mas e as personas? Qual a diferença entre público-alvo e personas?

As novas tecnologias que propiciaram a relação em massa, em tempo real, empoderaram os consumidores que passaram a compartilhar premissas, sonhos, desenhos e aspirações com diferentes grupos sociais e segmentos. O público-alvo passou a ter muitas faces, muitos pensamentos e muitos comportamentos. A busca pela assertividade, em especial na gestão de marketing nas mídias sociais, exige um descritivo mais detalhado deste público-alvo, como se ele precisasse ser exemplificado. Assim, surgem as personas, a antropologia adentrando no espaço social, um olhar micro sobre o público-alvo.

Quando se investiga as personas, dentro do público-alvo, descrevem-se os seus hábitos de forma encadeada, contextualiza-se o seu cotidiano, as suas preferências, o seu estilo ou momento de vida. Nas pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, as personas não são pessoas fictícias. São pessoas reais, que foram extraídas de dentro de um público-alvo, e que passam a ser acompanhadas, observadas. A avaliação sobre um produto ou serviço passa a ser analisada sob a perspectiva da persona, que nada mais é do que um dos muitos individuais que compõem um segmento, um público-alvo.

O público-alvo representa as características de um segmento, enquanto a persona representa um dos vários estilos de vida que compõem este segmento. Para chegarmos nas personas precisamos do público-alvo.

E é na integração entre sociologia e antropologia, entre macro e micro, que se fazem as ciências sociais, utilizadas como metodologia pelos cientistas do IPO no processo de investigação e indicação de estratégias.

3 passos da jornada de compra no varejo

15/02/2017 16:00
Algumas perguntas sempre estão no topo dos questionamentos dos empresários que procuram o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião:
- O que está acontecendo com os consumidores? 
- Está havendo uma mudança nos hábitos de compra?
- Eles continuam comprando? Mas onde?
No último ano, o orçamento apertado “coagiu” os consumidores a reduzirem suas despesas, realizando um “ajuste fiscal doméstico”. O impacto maior foi nos consumidores da classe C, em especial, na “nova classe C” (que em anos anteriores impulsionou o consumo no país).
As famílias estão sendo “obrigadas” a planejar e repensar os gastos e a jornada de compra tem propiciado o descobrimento de produtos que, no frenesi do consumo em período de deflação, ficavam em segundo plano.
Os consumidores são os últimos a sentirem os efeitos das alterações econômicas e, quando afetados, mudam o seu comportamento e interferem fortemente no ciclo econômico. Para entender as mudanças do comportamento de consumo, é necessário entender a tendência da economia e o papel da inflação.
A inflação limita o poder de compra, ao contrário do período de deflação, quando há o aumento do poder de compra. Neste primeiro trimestre de 2017, a redução da inflação está sendo motivada pelo aumento do desemprego e pela redução do consumo, resultante do desaquecimento da economia. O cenário recessivo que possibilitou a modesta queda da inflação é um indicador positivo que pode estimular as empresas a produzirem e os consumidores a comprarem. 
Mas neste momento, como está sendo a jornada de compra no varejo de um consumidor de classe C? 
O principal elemento norteador da nova jornada de compra da classe C está associada à busca de informação, que ocorre entre consumidores de forma presencial ou digital. Esta troca de informação movimenta as redes sociais e os grupos de Whatsapp com vídeos de dicas domésticas, de alimentação e informações sobre promoções. 
a) Definição da necessidade (desejar o produto) = O primeiro passo da jornada é o desejo em relação ao produto. A motivação de compra precisa estar relacionada à necessidade, à utilidade do produto. Esta necessidade é motivada: a) pela experimentação do produto; b) pela indicação de outro consumidor ou c) por campanhas publicitárias off-line. Em época de recessão, a fidelização de uma marca leva em consideração outras variáveis, como o preço, ativando a segunda etapa da jornada de compra.
b) Realizando pesquisa de preço = Assim como um produto pode ir para lista de compra, também pode ser tirado dela. A jornada de compra de um consumidor de classe C tem levado em consideração o valor X benefício de cada um dos produtos. Quando o valor de um produto “se eleva”, os consumidores procuram um produto substituto; na falta, procuram uma solução substituta. Os exemplos mais clássicos para este raciocínio encontram-se nos produtos de limpeza. Se o consumidor considera que o valor do limpa-vidro usual está “pesando” na lista de compras e não encontra um substituto à altura, com um valor mais acessível, pode partir para uma solução caseira indicada nas redes de Whatsapp, como a utilização do amaciante de roupa para limpar vidros. Será uma tentativa, onde um resultado satisfatório altera um item da lista de compras.
c) Efetivando a compra = A necessidade de um produto motiva a compra, mas a razão, em período de recessão, questiona os custos e benefícios do local de compra. O consumidor precisa ter a sensação de que “o ponto de venda tem preços competitivos”, uma vez que a nova classe C está fugindo de “locais careiros”. A jornada de compra é motivada pela necessidade de um produto, mais a racionalização do preço (custo e benefício deste produto). Entretanto, o consumidor tem pela frente a missão de efetivar a jornada de compra e, nesta trajetória, outras variáveis são definidoras da venda, tais como: ações mercadológicas, condições de pagamento e, em especial, o atendimento. 
Enquanto a inflação não se tornar deflação, os consumidores, em especial da classe C, buscarão formas de driblar a redução da capacidade de compra, procurando produtos alternativos ou dicas de soluções caseiras. O consumidor está se reinventando e obrigará o mercado a rever conceitos e produtos.

Quanto mais um Sindicato prioriza os serviços, mais se distancia de sua categoria

07/02/2017 15:15

Os Sindicatos classistas, sejam patronais ou de trabalhadores, têm por missão a representação dos interesses imediatos e históricos de sua categoria. Ao longo dos anos, os diferentes Sindicatos têm atuado em duas frentes:

a) representação;
b) prestação de serviços.

A representação sindical = pressupõe que o Sindicato tem a delegação de representar legalmente a categoria, levando em consideração os interesses coletivos da mesma. Neste debate, inclui-se a prerrogativa de propor o percentual de aumento nas negociações de dissídios, como parte do processo. Neste contexto, os sindicatos têm o papel de defender os interesses profissionais, sociais e políticos de sua categoria, em sua área de atuação.

A prestação de serviço = a maior parte dos Sindicatos oferece um leque variado de serviços aos seus associados. Em todos eles, prevalece a assessoria jurídica, seguindo de assistência ou convênios na área da saúde. Os Sindicatos que investem muito em serviços acreditam que “sua missão é dar assistência aos seus associados”. Nestes casos, os Sindicatos passam a ofertar áreas de lazer (montando clubes, sedes campestres), colocam em funcionamento creches, buscam convênios para desconto de produtos e serviços de sua classe, etc.

O grupo diretivo de uma gestão tem a premissa de decidir o foco de sua atuação: representação ou serviços. Quanto mais energia for gasta com ações na área de serviços, menor será o envolvimento na área da representação e vice-versa.

Sindicatos que investem mais em serviços do que em representação conseguem atrair novos associados, mas a médio e longo prazo, irão se distanciar naturalmente de suas bases. Os associados passam a analisar a importância do Sindicato pela lógica de prestação de serviço, passando a comparar o mesmo com outras ofertas disponíveis no mercado, como associações, clubes sociais ou até mesmo, comparando com os benefícios ofertados pela empresa em que atuam.

Quando um Sindicato prioriza a prestação de serviço, desprestigia a sua missão, que é a representação. Perde o seu propósito, fica sem bandeira e, consequentemente, não tem a crença de sua base.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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