Coordenadores autoritários X professores sonhadores Coordenadores desiludidos X professores curriculares

29/03/2017 10:30

A busca pelo conhecimento é algo interminável. Quanto mais se aprende mais se sabe que há muito mais a aprender. Em muitos estudos que coordeno me vem à cabeça a obra de Ítalo Calvino, sobre as Cidades Invisíveis e os diferentes elos de ligação para compreender a diversidade do vivível.

Como cientista social e política já coordenei muitos estudos instigantes, em vários segmentos sociais. Mas há um que motiva a reflexão, resultante de estudos qualitativos com professores de ensino superior no RS, que compartilho com o propósito de motivar o debate na área da educação e da necessidade da crença, de ideais e do contraditório.

O que mudou na formação dos profissionais?
O questionamento buscava compreender se as críticas à atuação de diferentes profissionais do mercado estavam associadas a uma mudança comportamental da sociedade ou se há mudanças no bojo das universidades que contribuíram na formação de profissionais com menor engajamento na sua área de atuação. Há muitas variáveis neste debate, desde políticas, tecnológicas e até sociais. Mas a principal reflexão dos educadores com experiência na docência embasa o seguinte ensaio:

Há mais de duas décadas atrás o processo de formação profissional das universidades vivia a dicotomia entre gestores/ diretores/ coordenadores com uma “percepção de direita”, que advinham de nomeações da época da ditadura ou apenas acreditavam em regramento, disciplina e metas. Do outro lado, a maioria dos professores com “percepção à esquerda” acreditavam que os profissionais poderiam ser “agentes transformadores do social”, acreditavam “em um mundo melhor”. Tinham tesão pelo que faziam, estavam motivados a motivar os seus alunos. Repassavam conhecimento com crença, com sonhos, com propósito. Neste bojo, os profissionais que se formavam eram oriundos de gestores que cobravam disciplina e professores que estimulavam os alunos a sonhar.

O tempo passou e os diretores, coordenadores com “tendência à direita” foram se aposentando, saindo de cena. Os professores com “tendência à esquerda” se tornaram diretores, coordenadores, gestores. Durante essas duas décadas estes novos gestores tiveram sucessivas decepções com a política do país, como se sua crença fosse abalada ao longo do tempo e a capacidade de sonhar se esvaindo junto com cada denúncia de corrupção ou malversação de recursos. Muitos se desiludiram ao ponto de defender o voto branco e nulo. A desilusão abalou o tesão e a crença no sonho. Estes gestores passaram a atuar sem a prerrogativa da meta, da disciplina e sem a premissa do sonho. Se tornaram burocratas desanimados.
Os novos professores que ocuparam as cátedras, se formaram em um cenário de distanciamento político e sem engajamento no coletivo, no associativismo e no debate político. Quando aprovados recebem metas individuais de produção acadêmica, onde a pontuação a ser cumprida cria um foco no currículo pessoal, “tudo em nome da pontuação nos órgãos controladores”.
E assim a educação superior passa a se movimentar, com gestores sem metas, sem disciplina e sem sonhos. E, também, com muitos professores sem meta, sem disciplina, focados em suas conquistas individuais.
O resultado disso? Alunos que objetivam fazer o trabalho e a prova para se livrar da cadeira e do professor e que depois nem lembram o que estudaram e sua aplicabilidade. Alunos que não aderem a projetos sociais e envolvimento com ações da comunidade. E os profissionais que emergem, se preocupam muito com seus direitos, com seus benefícios e muito pouco com suas responsabilidades, sem preocupar-se em ser “agente transformador do social”.


Como em toda a regra, há exceções. Temos muitos coordenadores, professores, alunos e profissionais que merecem todo o crédito por sua atuação, pelo seu trabalho de “beija-flor”. Mas o importante é que resgatemos o propósito, a meta, o sonho e a capacidade de mudar o mundo coletivamente.

Uma doença social e um caminho de integração: “A gente quer, a gente faz”

21/03/2017 18:00

Uma das premissas que tenho trabalhado de forma acintosa está associada aos riscos que advém da ampliação do individualismo, em um cenário onde a liberdade está se desprendendo da responsabilidade e os direitos não estão associados necessariamente aos deveres. Estamos entrando no reino dos pronomes pessoais na primeira pessoa do singular: “eu quero”, “eu posso, “eu não faço”, “eu não curto” e assim por diante.

Os indicadores sociais de confiança nas instituições ou de expectativa com o futuro continuam a decrescer. As pessoas confiam cada vez menos nas instituições e, por consequência, passam a desconfiar umas das outras. A falta de confiança, a falta de crença fragiliza os parcos valores da sociedade e ativa um permissivo ciclo vicioso.
Quanto maior for o escândalo de corrupção, menor será a crença da população nas instituições.

Quanto maior for a descrença da população nas instituições, menor será o sentimento de solidariedade.
Quanto menor for o sentimento de solidariedade, maior será o individualismo e a fragilidade das instituições sociais primárias, como a família, a escola, a igreja... A corrupção é o câncer da sociedade e esta doença social está associada ao "jeitinho brasileiro" que cria uma nebulosidade entre o que é certo e o que é errado.
 
Como tratar esta doença social?

Para qualquer doença, sempre há muitos tratamentos possíveis. Como o principal sintoma é a exacerbação do individualismo e da indiferença, temos que primar pela sua antítese que é a solidariedade, a coletividade.

Neste tipo de doença social a primeira tarefa é a reflexão, o debate. A consciência do que somos e do que podemos ou queremos ser. De onde estamos e para onde podemos ir. Para tanto é vital resgatar os elos de participação política e de associativismo. A integração deve começar pelas famílias, que estão cada vez mais distantes. Estas famílias devem se integrar com as escolas e com a sua vizinhança, até construírem associações de bairro que representem a comunidade e assim por diante.

O case de integração da FACISC

A FACISC - Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina tem como slogan “A gente quer, a gente faz” e mostra aplicabilidade desta frase na execução da metodologia do DEL - Desenvolvimento Econômico Local. O DEL tem o propósito de integrar a comunidade e construir a capacidade econômica de um local para melhorar suas condições e a qualidade de vida de todos.
O DEL foi trazido para o Brasil em parceria com o Banco Mundial e objetiva a implementação de estratégias para o desenvolvimento econômico local a fim de nortear o desenvolvimento de uma cidade a longo prazo. Esta metodologia nasceu na cidade de Essen, na Alemanha.

Este é um processo pelo qual o setor público se alia ao setor privado e a as organizações não governamentais, criando câmaras setoriais e trabalhando coletivamente para criar condições melhores ao crescimento econômico e geração de emprego. Um elo básico de solidariedade pelo bem comum.

O sucesso de um projeto de desenvolvimento econômico local depende da ampliação do capital social, como proposto por Robert Putnam, capital social se caracteriza pelo conjunto de recursos sociais possuídos por um grupo, através de redes de trabalho com as quais se constitui uma comunidade cívica, sentimentos de solidariedade e igualdade com os demais membros da comunidade, normas de cooperação, reciprocidade, confiança e atitudes positivas, reveladas através da confiança no outro, no governo e no funcionamento das instituições.
A FACISC tem se dedicado a este projeto que tem capilaridade em 20 cidades de Santa Catarina, 02 no Rio Grande do Sul, e previsão de ampliação para mais 15 cidades interessadas pela metodologia. O DEL está sendo usado para desenvolver a integração e fortalecer a confiança. Faz isso com o fortalecimento da capacidade local das comunidades, melhorando o ambiente para investimentos e aumentando a produtividade dos empreendedores e dos trabalhadores.

Neste contexto, se faz necessário fortalecer os elementos identitários da população, ampliando os elos de solidariedade que tendem a fortalecer o sentimento de comunidade. E o capital social começa na vivência diária: na confiança, companheirismo, na simpatia e no relacionamento social entre os indivíduos e famílias que compõem uma unidade social. A confiança entre as pessoas se amplia na confiança entre os indivíduos e, por consequência, entre negociadores.

O DEL não é só um projeto, é um dos tratamentos possíveis para ampliação dos elos de solidariedade e do sentimento de comunidade. É um projeto de empoderamento da sociedade em prol do bem comum.

Uma mudança silenciosa em curso

15/03/2017 11:57

Vivemos um momento de instabilidade social que motiva uma mudança silenciosa na sociedade. Todos os dias as pessoas realizam normalmente as suas atividades cotidianas: frequentam a escola, vão ao trabalho, fazem compras, realizam atividades de lazer, fazem tratamentos médicos, etc.

Aparentemente, “tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Para muitos, “tudo
permanece sempre na mesma”. Se está igual, como está mudando?

O que parece ser, necessariamente não é. As pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que a mudança silenciosa advém da falta de confiança nas instituições e nas pessoas, que nutre o individualismo e a percepção de que “cada um por si e Deus por todos”. E a falta de confiança, que exacerba o individualismo, enfraquece a solidariedade.

Esta falta de confiança se comporta como uma “voz interior” que cria uma tendência à indiferença a pedidos de socorro, às cenas de abando social ou até mesmo de negligência com delitos ou crimes cometidos em locais públicos. É crescente a perspectiva da negação individual, onde imperam as premissas: “não sei de nada”, “não vi nada”, “não quero me incomodar”.

As famílias orientam seus familiares a “se ver um assalto, tente fazer que não viu”. A perspectiva da negação, da omissão ou até mesmo da conivência advém da falta de confiança, passa a ser nutrida pelo receio e cria um cenário onde a equidade e a justiça se fragilizam. Sem solidariedade, o que está ruim pode ficar pior!

A solidariedade deveria ser fomentada pelo Estado, que tem em sua finalidade o “bem comum”. Ocorre que, atualmente, 2/3 dos gaúchos não confiam nos três poderes (executivo, legislativo e judiciário) e 97% não confiam nos partidos políticos.

Com a fragilidade das instituições representativas, as instituições sociais primárias como a família, a escola, a igreja e as empresas devem ser as propulsoras do resgate da confiança e do fortalecimento dos elos de solidariedade. De toda a sorte, o fortalecimento destas instituições tende a resgatar e fortalecer os valores, as crenças, os elos de solidariedade, a capacidade de revisão das leis e das instituições que temos, assim como o fomentar o debate e o estabelecimento das leis e instituições que devemos ter.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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