A corrupção é apenas um dos males do Estado

18/04/2017 16:00

Quanto mais se “descortina” a operação Lava Jato maior é o acirramento do descrédito e do ceticismo da população e a percepção de que a corrupção é endêmica.

Na visão dos eleitores, historicamente os políticos disputam pleitos para garantir o poder da “troca de favores”: seja para indicar cargos de confiança, conseguir vagas de trabalho para amigos e familiares ou benefícios pessoais com empresários ou até mesmo a propina.

Esta leitura sobre a “troca de favores” percebe a política como algo pessoal, onde os interesses individuais estão acima do bem comum e está é uma visão da maioria da sociedade. Está presente no depoimento estarrecedor de Emílio Odebrecht, no comportamento de muitos políticos, nas declarações de eleitores em grupos focais e em várias práticas cotidianas pelo país afora.

É sabido que o cerne deste dilema se encontra no conceito de reciprocidade. No princípio da reciprocidade destaca-se a “pessoa” e não o “indivíduo”, onde ocorre uma troca que é personalizada por uma pessoa moral.

E dentro deste princípio existem diferentes tipos de trocas, que são legitimadas como “algo natural”, que faz parte do dia-a-dia. No princípio da reciprocidade é onde ocorre a fusão entre a representação e a mediação, que espera dos políticos a “atividade de despachantes”.

E a reciprocidade que alimenta a troca de favores, que leva ao jeitinho e a corrupção tem em sua base em outro vício permissivo da política brasileira que é o patrimonialismo, que faz com que o bem público seja tratado como algo pessoal e motiva os demais males do Estado que afetam a sociedade.

    Os males que afetam o Estado e prejudicam a sociedade

1º) Corrupção – O mal mais notório neste momento. O problema da corrupção é endêmico e está enraizado nas instituições e na sociedade. É necessário descortinar a corrupção e desenvolver um sistema de debate que construa um regramento assentado em um novo contrato social com a sociedade, onde se pactue o que é certo e o que é errado, incluindo o debate do jeitinho.
2º) Burocratização/ ineficiência dos serviços públicos - Este é um mal que afeta muito a sociedade e estimula o descrédito com os gestores públicos. A população se questiona se a corrupção motiva a ineficiência ou a ineficiência é fruto da corrupção? Não há resposta para esta questão quando se lembra da burocracia e os seus dificultadores. O senso comum acredita que a burocracia significa “estado burro” ou “buromania”, quando é explícito o controle pela “mania” (fruto do interesse pessoal ou descaso) de um funcionário público. E neste campo os relatos do cotidiano permitem que muitos dossiês fossem elaborados.

3º) Privilégios - Este é um dos malefícios que permeiam o Estado e desestimulam a crença da população. É como se para “os amigos tudo e para os demais os rigores da lei”. Quando a população relata seu desalento com os privilégios arrolam desde altos salários até auxílio moradia, mas também a utilização do carro público para fins pessoais, o não cumprimento de horário pelo funcionalismo ou cargos de confiança, a utilização de um espaço público para fins comerciais e assim por diante.

4º) Taxação/ tributação - Este é o mal que fecha o raciocínio do eleitor. Além de haver corrupção, ineficiência de serviços e privilégios a sociedade é constantemente sobretaxada ou tributada para a cobertura dos rombos destes outros malefícios. O debate da tributação transcende os dilemas dos empresários e adentra a sociedade como um todo, com exemplos práticos de uma “bitributação social” em casos como pedágio X IPVA.

    O debate sobre a “janela” que queremos ver com o “descortinamento” da operação Lava Jato deve fomentar uma leitura mais holística sobre os males que afetam o Estado e sobre a conexão entre os mesmos. As reformas são vitais e devem “passar o país a limpo” em um curto tempo histórico, e tal ação não poderá ser feita sem envolver a sociedade, caso contrário, mudam as regras, mas não o comportamento/ cultura.

Entre o consumo supérfluo e a necessidade

11/04/2017 18:00

Dentre as várias lógicas de tipificação do comportamento do consumidor pode se destacar o acirramento da dicotomia entre o consumo hedônico e a decisão utilitária, que está sendo motivada pela diminuição do poder de compra dos brasileiros e estimula novas práticas de decisão de compra.

O consumo hedônico é o que motiva a análise de tendências. É quando o consumidor compra algo por impulso ou é motivado por sua emoção. O consumidor acaba comprando o que é supérfluo, a compra não ocorre pela importância do produto, mas por sua representação. Nesta lógica destaca-se os produtos ou marcas que entram no “gosto”, na “moda”, se tornam “top”, que podem estar associados a aspectos multissensoriais que ocorrem na experiência de consumo.

As pesquisas etnográficas que acompanham a jornada de compra são vitais para descrever os fatores intangíveis que compõe a decisão de compra hedônica.

A decisão de compra utilitária é motivada pela necessidade, pela demanda, por uma ação racional, os fatores de decisão são tangíveis. Neste tipo de consumo há um planejamento e há avaliação dos atributos, do custo versus benefício, trata-se de uma decisão que oscila entre as funções básicas e cotidianas do indivíduo e os benefícios materiais.

A mudança do cenário econômico impacta na decisão de compra

Há dois anos atrás, o planejamento do consumidor respondia a tendência de ampliação do consumo e aderia as ofertas de políticas públicas que ampliavam a aquisição de imóveis e bens de consumo duráveis (Minha Casa Minha Vida, Minha Casa Melhor, Redução de IPI, etc). Os consumidores adentram no cenário de recessão revendo suas práticas cotidianas de consumo, tendo em vista que 1/3 dos consumidores gaúchos declaram que estão mais endividados do que o normal, não tendo como honrar todos os compromissos.

E qual o tipo de consumo se destaca neste momento?

Os consumidores que tendem a praticar o consumo hedônico com mais facilidade, são aqueles que possuem maior percentual de endividamento. Essa relação natural diminui a capacidade de compra do consumidor hedônico e afeta as vendas de produtos supérfluo ou de marcas que estão associadas a modismos, fomentando uma tendência pró decisão de compra utilitária, onde a “pechincha” passa a ser uma prática cada vez mais corriqueira.

Para reverter a tendência contingencial de decisão utilitária as estratégias para motivação do consumo hedônico devem ter uma visão holística do gestor de varejo. Esta visão deve prever desde uma revisão no seu cadastro de devedores até o planejamento de estratégias promocionais e mercadológicas que se adequem a nova realidade econômica dos consumidores.

Os dilemas do jornalismo

05/04/2017 12:10

Na semana que se comemora o dia do jornalista compartilho insights de uma pesquisa realizada pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião sobre as mudanças na área da comunicação.

Entramos no novo milênio com um processo gradual e inevitável de mudanças comportamentais que vão desde as relações familiares, perpassando às relações de consumo, de intenção de voto e, também, adentrando na forma como os telespectadores, os ouvintes e os leitores se relacionam com os meios de comunicação. Trata-se da “dicotomia natural” entre mídia tradicional (off-line) e a mídia digital (on-line). E nesse bojo de mudanças está o investigador dos fatos, dos acontecimentos: o jornalista.

Um dos fenômenos deste novo milênio está alicerçado na instantaneidade. Os “nativos digitais” nascidos neste século e milênio acreditam que a informação “brota” naturalmente e que basta clicar no “Dr. Google”. Tanto é que um jovem, na casa dos 16 anos, é capaz de pedir para interromper a resposta de um questionário para consultar o Google e ver qual a resposta mais adequada ao questionamento feito pelo entrevistador.

E é neste contexto de instantaneidade e de “pós-verdade” que o jornalista precisa manter o seu princípio ético de investigação, de consulta a várias fontes na busca pelo contraditório.  Esse contexto de instantaneidade cria um novo adversário à categoria: o tempo!

Sempre foi comum os jornalistas serem criticados nas pesquisas de opinião por sua parcialidade. Hoje são criticados pela falta de rapidez, por sua morosidade. Afinal, um indivíduo que se defronta com um fato inusitado e com um Smartphone na mão se torna um “repórter em potencial” criando um contexto onde “todos querem dar a notícia em primeira mão”. E os “Fake News” ganham cada vez mais espaço deixando a ciência do jornalismo disputando espaço com o tempo.

Diante desde cenário algumas reflexões importantes são realizadas pelo mercado da comunicação em relação aos dilemas do jornalismo, sendo elas:

a)    a mídia digital tem o papel de dizer o quando e onde. Mas logo depois cabe ao jornalista dizer o como e o por quê?
b)    a ciência do jornalismo terá que debater novas formas de consulta às fontes de informação e na busca do contraditório, utilizando as várias tecnologias disponíveis.
c)     há necessidade de ampliar o cruzamento de informações utilizando pesquisas em dados secundários com o propósito de diminuir os “espaços de tempo” entre o que era feito no off e o que o on exige, ampliando a visão sobre um tema em debate.
d)    ampliar o poder de síntese, mostrando as várias facetas do debate de uma forma sistêmica e prática, dialogando com o novo processo de absorção da informação (mais aliado a imagem).

Estamos vivendo um momento de transformação, é o momento dos jornalistas “de olhar para dentro” e revisitar o que a ciência do jornalismo ensina e o que ela pode contribuir para que a sociedade saiba mais de si mesma a fim de conseguir utilizar esta informação nas suas avaliações e decisões cotidianas. A mudança do paradigma tecnológico, muda o paradigma social e, por consequência, altera o paradigma do jornalismo.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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