Vale a pena participar da política?

12/11/2019 07:55

Grande parte da população gaúcha não quer saber de partido político e, muito menos, participar de reuniões ou debates políticos. Os estudos realizados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que a falta de interesse é motivada pela decepção, que pode ser ativada por diferentes gatilhos:

a) pela cultura política vigente = que é resultado do distanciamento histórico da sociedade em relação à política. E o distanciamento mantém a população desinformada e suscetível a avaliar a política pela rede de boatos ou por suas observações;

b) pelas práticas permissivas dos agentes políticos = essas práticas são observadas em negociatas, manutenção de privilégios ou vantagens pessoais para quem faz parte do mesmo grupo político;

c) pela malversação de recursos públicos = que mostra que muitos gestores públicos não tem planejamento de suas ações ou que são displicentes com os recursos. Na prática, não cuidam do dinheiro público ou orientam ou cobram a suas equipes como deveriam;

d) pela demagogia dos eleitos = ninguém gosta de ser engado. Quando um candidato promete e não cumpre ele denigre a sua imagem e quando vários candidatos prometem e não cumprem, denigrem a imagem da política;

e) pela corrupção de alguém que deveria dar o exemplo = o maior de todos os males e que, de certa forma, é a cereja do bolo. O eleitor olha para todo o cenário e pensa que a política é a arte da enganação, uma forma oficial de roubar a população.

Chegamos nesse cenário e não se pode culpar a sociedade por acreditar que a política é algo ruim e que políticos não prestam.

Temos a missão de salvar a política. Para salvar a política temos que ajudar a resgatar e recontextualizar a política. E para fazer isso temos que rever o nosso comportamento e o nosso envolvimento com a política para que os políticos revejam o seu comportamento e as suas práticas.

Desde o processo de democratização do país, não houve o efetivo estímulo à participação política da sociedade. Na prática, é muito mais fácil para os mandatários não terem que prestar contas a uma sociedade organizada, crítica e que tenha informações sobre os bastidores da política.

Essa realidade precisa ser alterada para que a política seja vista de forma positiva e que cumpra o seu papel enquanto fomentadora do diálogo, como ferramenta de negociação de ideais, de propostas e que guie projetos. A política é o baluarte da democracia e deve ser utilizada pelos líderes na busca pelo bem-comum (interesse público).

Vale a pena participar da política, mas para haver participação é necessário ampliar o interesse pela política e ter instituições representativas, locais para participação, espaços de diálogo e de debate.

A participação política pode começar pelo envolvimento com a realidade em que vivemos: com a associação do nosso bairro, a associação de pais e mestres da escola de nossos filhos, o sindicato que cuida de nossa profissão, a associação de classe ou ONG (que defende um tema que é importante para nós).

Também podemos pensar no ativismo digital, utilizando as redes sociais e os sites de informações, para acompanhar a política e interagir com quem destinamos o nosso voto. Se cada um de nós se interessar e se envolver mais com a política vamos descobrir que vale a pena. Com isso estaremos salvando a política e o resultado dessa ação irá repercutir e influenciar no comportamento e nas práticas dos partidos e dos políticos.

O perfil do próximo prefeito

05/11/2019 09:52

Em 2020 tem eleição, e você já parou para pensar nas características que deseja para o próximo prefeito(a) de sua cidade? Por onde passa, o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião tem aplicado essa pergunta, em suas pesquisas quantitativas e qualitativas.

Nesse momento há três características que se destacam e se mostram como basilares para alguém que quer ser prefeito de uma cidade, que são:  capacidade de gestão; a honestidade e a atitude.

Quando o eleitor conhece um candidato (mesmo que seja pela TV ou redes sociais) a primeira coisa que ele quer saber é se o mesmo tem capacidade de ocupar o cargo a que se propõe, se terá condições de administrar a cidade, e essa avaliação ocorre pela reputação ou pela imagem que o candidato transmite.

Para os eleitores, a capacidade de gestão pode ser observada de várias perspectivas: está associada à trajetória política do candidato, ao conhecimento que o mesmo tem da cidade, pela formação e preparação do candidato e até mesmo pela experiência com a gestão de uma empresa ou entidade.

A honestidade é um grande atributo e é valorizado por diferentes visões de mundo. Está associada à necessidade de probidade com a gestão dos recursos públicos, pela perspectiva de que o prefeito terá que ter transparência com as decisões que toma e pelos recursos que gere. Mas a honestidade também ganha força como atributo decisório pela repulsa e ojeriza à corrupção do país. A honestidade se torna a característica mais importante nas cidades onde há denúncias de corrupção ou onde houve prefeitos cassados. E a honestidade também é vista como a capacidade do candidato de cumprir o prometido, de honrar com as promessas que fará durante a campanha.

Significa dizer que o eleitor olha para a experiência profissional e pessoal de um candidato e imagina que ela foi movida por um comportamento ético. Que ele pagou em dia a quem devia, não usurpou órgãos públicos, não desviou recurso, não explorou pessoas, não enganou, traiu ou mentiu.

A atitude está associada à capacidade de mando, ao pulso firme. Para os eleitores, um candidato a prefeito precisa saber o que deve ser feito e saber quem pode fazer. Ter atitude é fazer as coisas acontecerem, é cobrar de quem precisa ser cobrado e é resolver o que precisa ser resolvido. A atitude também está associada ao enfrentamento dos problemas, a sair da zona de conforto e estar à frente dos debates, e inclusive a explicar quando algo dá errado.

O tipo ideal de prefeito “ganha vida”, aos olhos do eleitor, quando um candidato que tem alguma experiência administrativa e reputação de boa pessoa mostra firmeza no seu propósito. Quando as características de uma pessoa estão a serviço de ideias. Significa dizer que os eleitores esperam um prefeito que tenha capacidade de gestão, seriedade e atitude para tocar um programa de governo, que tenha conteúdo, “que saiba o que precisa ser feito e como fazer dentro dos recursos que tem ou pode buscar”.

Na percepção dos eleitores, as características seriam o meio para que o fim fosse alcançado. Não adianta um candidato ter as características desejadas e não ter conteúdo, não conhecer os problemas e não ter um bom programa de governo.

O candidato ideal conhece os problemas da cidade, sabe das dificuldades que a população passa e trabalha com afinco para construir a melhor proposta de solução, levando em consideração a realidade e as potencialidades do seu município.

Usamos a internet e a internet nos usa

29/10/2019 09:24

Oito de cada dez gaúchos utilizam um smartfone com internet e redes socais. A maioria está conectada e anda com o seu celular nos mais variados lugares.

A relação entre seres humanos e máquinas se torna cada vez mais simbiótica, o celular parece quase uma extensão do nosso corpo e está sempre na palma ou ao alcance da mão. É muito difícil esquecermos o celular, pois ele nos acompanha em todos lugares, está perto de nós durante a noite e é a primeira coisa que damos atenção pela manhã. Isso quando não vai para o banheiro conosco!

Em média, usamos o celular três hora por dia, o que cria a sensação de que temos cada vez menos tempo e essa praticidade nos instiga a perguntar de tudo para o Google. Consultamos, pesquisamos as coisas mais variadas: informações, receitas, músicas, endereços, produtos, marcas e até a vida de outras pessoas.

Tudo fica mais fácil com a internet, ela nos ajuda a encontrar uma localização, a nos aproximar de uma pessoa a encontrar um livro antigo ou até mesmo comprar um produto do outro lado do mundo.

Cada um de nós sabe o quanto usa a internet e qual a importância da mesma em seu cotidiano. O que não sabemos é o quanto somos usados pela internet? A internet nos monitora o tempo todo e usa as nossas informações de muitas formas, fazendo vigilância do comportamento da sociedade, onde cada indivíduo pode ter o seu comportamento analisado.

Se pesquisarmos o preço de um produto na internet passamos a receber várias propagandas do mesmo produto ou da concorrência. E quando saímos de uma loja ou restaurante podemos receber uma pesquisa de avaliação da experiência.

Nossos passos são monitorados e a internet pode saber onde passamos e qual a rota que utilizamos, triangulando nossos trajetos cotidianos, quando permitimos no smartfone o acesso à nossa localização. O sistema consegue saber mais de nós do que nós mesmos, pois organiza informações sobre nosso trajeto, nossos hábitos, comentários e até sobre nossos medos e desejos.

A internet sabe tudo o que perguntamos para o Google, o nosso histórico de buscas. Sabe os arquivos que transferimos, onde tiramos as fotos, os vídeos que baixamos e tudo o que postamos nas redes sociais, incluindo o que apagamos. Na prática estamos deixando pegadas digitais que podem ser monitoradas, analisadas e utilizadas.

Atualmente nossas pegadas digitais já estão sendo usadas pelo marketing digital e, principalmente, pelo marketing de geolocalização, alavancada pela tecnologia de GPS (Sistema de Posicionamento Global).

Como o sistema sabe onde estamos e do que gostamos irá nos enviar propagandas, matérias publicitárias ou nos envolver em novas experiências virtuais que nos propiciam uma sensação de bem-estar (como fazer uma simulação sobre o melhor ângulo para assistir a um show ou partida de futebol ou ter acesso à informações do estoque de uma loja física perto da nossa casa, sem precisar falar com o vendedor).

Os sites de busca usam as nossas informações para personalizar o nosso comportamento e possibilitam que as marcas nos localizem e nos impactem com suas estratégias de mercado. E as redes sociais fazem a mesma coisa, nos monitoram e nos transformam em um consumidor que acredita que está empoderado, que é dono de sua timeline, mas que na prática é um consumidor passivo que é monitorado e influenciado de uma nova forma. A internet é uma grande ferramenta e temos o grande desafio de entendê-la e monitorar sua evolução.

Se salvamos a política, salvamos a ética

22/10/2019 09:44

Meu artigo da semana passada alertou sobre importância de “salvarmos a política”. Sei que, para muitos, essa reflexão parece entranha, antipática ou desinteressante. A política é um tema que 2/3 da sociedade não se interessa e quase a metade da população acredita que, quem se envolve com a política não presta.

É compreensível e conveniente negarmos a política e continuarmos nossas vidas! Afinal de contas, a sensação é de que a política não tem nada a ver com a maioria das pessoas. Nas pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião escuto muito a frase: “por que vou me envolver se não ganho nada com a política?”.

A baixa aceitação e a falta de credibilidade dos políticos estão associadas à ideia de que os mesmos defendem os seus interesses pessoais e não os da sociedade. De certa forma esse dilema tem origem em nossa cultura política, que privilegia o jeitinho brasileiro e se agrava pela falta de vocação de quem deveria “viver para a política” e “acaba vivendo da política”.

E quando se realiza essa reflexão retoma-se a origem do problema: como vamos ter políticos que vivam para a política se não somos ensinados a conhecer, gostar e se envolver com a mesma?

Ao contrário, nossa prática cotidiana nos ensina a utilizar o jeitinho brasileiro. A burlar as regras, usar os limites ou as falhas da lei e, principalmente, utilizar as redes de relacionamento para estreitar caminhos ou levar vantagem.

E os indicadores mostram que, paralelamente, amplia-se o número de pessoas que condenam a política e que usam o jeitinho para se dar bem em cima de outra pessoa.

E para combater o jeitinho brasileiro é necessário que haja consciência desse problema: seja por quem pratica, mas também por aqueles que se tornam coniventes ou se omitem diante das práticas incorretas. Para não nos incomodarmos, fazemos de conta de que o errado é certo e chega um momento que não temos mais certeza do que é certo ou errado.

E não podemos esquecer que o jeitinho brasileiro aproxima o favor da corrupção, servindo como “ponte de acesso” entre conceitos tão distintos. Com isso nos confunde ao deturpar o princípio ético. Constrói a ideia de que o esperto leva vantagem e que quem cumpre a regra é um babaca.

Se salvamos a política, combatemos o jeitinho. Pois, para salvarmos a política, precisamos resgatar a ética. Significa que temos que fazer o que é certo e temos uma constituição e todo um ordenamento jurídico que nos diz o que podemos fazer e o que não podemos. Nesse sentido, ética é cumprir a regra, a norma, respeitar a legislação, ter consciência de que o meu direito termina quando começa o do outro. Se estou em uma escola, devo cumprir as regras da escola. E as regras da escola, não devem estar em desacordo com a constituição.

E o mais bacana nessa história é que, se uma regra ou lei não é boa para a sociedade, cabe à política redesenhar o princípio, repactuar a regra, estabelecer novas leis. A ética visa o bem-estar do indivíduo, a política visa o bem-estar da coletividade e o direito mantém a harmonia.

É fundamental que cada um de nós se envolva mais com a política, sendo que o primeiro passo é ter interesse, curiosidade sobre o assunto. Com isso, vamos conhecer e ter mais informações sobre os nossos direitos e essa clareza nos ajudará a combater o jeitinho e os oportunistas que usurpam da política e se alimentam do desconhecimento e do desinteresse da população.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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