A sociedade está se acostumando com a violência

28/06/2017 10:00
As pesquisas de opinião costumavam destacar a saúde pública como a principal prioridade da população do RS. A saúde continua sendo uma prioridade. Entretanto, a segurança pública passou a ter um lugar de destaque, na prioridade e no anseio da população, tendo em vista que o receio é corrente entre as pessoas que possuem uma agenda mais ativa, em especial, entre os que estudam ou trabalham à noite.

Se o “medo” se torna parte do cotidiano, a sociedade desenvolve novos comportamentos para diminuir o risco. Dentre estas mudanças se destacam as seguintes lógicas:

- Diminuição de passeios noturnos = impactando o comportamento de metade dos gaúchos, o que inclui a diminuição de práticas de relacionamento familiar (ir jantar ou visitar amigos à noite) e até mesmo a diminuição de atividades de entretenimento (como frequentar bares, restaurantes e boates).
- Evitar bairros e ruas = é uma prática de outra metade da população. O noticiário é farto em relatos de crimes. As redes sociais expõem assaltos e roubos (sendo que o usuário relata que não irá registrar por falta de crença no aparato repressivo) e, nos grupos de WhatsApp, chegam a circular vídeos de crimes, com relatos e alertas sobre determinado bairro ou zona. Estas informações são assimiladas pela população que cria um “juízo de valor” sobre determinadas áreas. A sensação de insegurança, somada à divulgação de crimes em determinadas áreas, cria uma “condenação sumária” de uma região ou bairro, que passa a ter uma fama negativa (ou há o fortalecimento da fama) e, naturalmente, passa a ser evitado.

Quando uma pessoa sofre algum tipo de violência, passa a ter outros comportamentos sociais (não incluindo neste debate a necessidade de acompanhamento ou apoio psicológico), tais como:
- Mudar o trajeto de deslocamento do trabalho/ escola para casa;
- Mudar o tipo de condução (se a violência foi no ônibus, a vítima procura utilizar outro tipo de condução ou até mesmo tentar trocar o horário do ônibus);
- Tentar andar em grupo, buscar alternativas de descolamento com amigos, vizinhos e parentes;
- Nos casos mais graves, há mudança de endereço ou até mesmo de bairros.
A violência está se enraizando no cotidiano, assolando o noticiário, ampliando as estatísticas e alterando o comportamento da sociedade. Tal fenômeno é preocupante, pois indica que a “célula social” está tentando se alterar para conviver com a insegurança, como se fosse uma nova realidade, como uma situação contingencial. Não podemos esquecer que a existência do Estado se encontra no aparato da força física, na garantia da segurança.

Temos que voltar a essência do Estado de Direito: a sociedade não deveria estar se redesenhando para conviver com a insegurança, o Estado é que deveria estar se remodelando, para combater a violência e garantir a segurança.




Pode faltar crença, mas não falta opinião!

21/06/2017 18:00

No corre-corre do dia a dia a prioridade é “tocar a vida”: trabalhar, estudar, cuidar da saúde, conviver com parentes e amigos, ir atrás de sonhos pessoais, resolver problemas e superar dificuldades. E é nesse cotidiano que a população absorve o conjunto de notícias e informações sobre os acontecimentos políticos e econômicos e forma seu “juízo de valor” sobre o “país em que vive” e “o país que gostaria de viver”.
As pesquisas do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que a população gaúcha percebe quatro dilemas que assolam o Brasil: a corrupção, a burocracia/ ineficiência dos serviços, os privilégios e a alta carga tributária.

Na perspectiva da sociedade a corrupção é tão permissiva que ativa os outros dilemas de forma permanente, criando um círculo vicioso, na seguinte lógica: “gestores corruptos, desenvolvem leis casuísticas para ampliar a burocracia, possibilitando a efetivação de privilégios e a manutenção da fonte de renda”.
Analisando alguns resultados de pesquisa de opinião realizadas no Brasil pelo Datafolha*, verifica-se a tendência do comportamento no país:

- Os brasileiros estão divididos sobre o futuro do país e da corrupção após a conclusão da operação Lava Jato: 45% acreditam que a corrupção diminuirá, 44% acreditam que a corrupção está enraizada e continuará após a operação Lava Jato, para 7% a corrupção aumentará e 4% não tem posição a respeito do tema. Os mais jovens se mostram mais céticos e acreditam que a corrupção se manterá.

- A população tem acesso sobre os debates da Lava Jato e 84% dos brasileiros declaram que tem conhecimento sobre a lista da Odebrecht. Quando a pesquisa avança e questiona-se sobre o nível de informação, apenas 25% afirmam que estão “bem informados” sobre o tema. A grande parcela que se declara “pouco informada”, mostra sua reticência sobre o tema.

- A população acredita que os políticos são beneficiários diretos dos esquemas de corrupção (60%) e 85% da população deseja eleições diretas. A grande maioria (77%) afirma que os representantes do povo que estão sob investigação, deveriam ser afastados de seus mandatos.

O Datafolha questionou os brasileiros sobre o cotidiano de debates, no círculo de relacionamento, relativo a atual conjuntura política: 74% afirmam que não debatem o assunto com os amigos e parentes. A população tem opinião e emite a sua posição, mas a desconfiança aliada à cultura de parca participação política desmobiliza os debates sobre o tema.

*Para ter acesso a pesquisa Datafolha consultar: http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/indice-1.shtml

Refletindo sobre o poder do hábito

14/06/2017 10:00

A nossa mente cria hábitos de forma mecânica estando estes associados com as rotinas. Quando o cérebro faz uma ação de forma mecânica, poupa esforços para atividades mais complexas. Não planejamos se calçamos primeiro o pé direito ou esquerdo ou ainda, não temos definido se, ao preparar o café da manhã, primeiro aqueceremos a água ou abriremos a geladeira. Fazemos essas atividades sem prestar muita atenção em nossas ações, pois o cérebro reconhece “o que precisa ser feito” e aciona a “ordem” que está associada a um hábito, a uma rotina.

Mas a pergunta é como se forma o hábito?
Segundo *DUHIGG (2012) o hábito se forma em etapas:

1) Precisa da “deixa, do motivo”: é um gatilho ou estímulo que, após executar uma atividade por várias vezes, manda o cérebro entrar em modo automático. Para haver a deixa ou o motivo é necessário haver a consciência sobre o hábito prático e sobre o novo hábito que se quer praticar.
2) A rotina: que pode ser algo físico, mental ou emocional – é o comportamento que caracteriza o hábito, advindo da prática e motivado pela execução da “deixa”.
3) A recompensa: algo simples que diz para o cérebro se vale a pena memorizar um padrão de comportamento para ser usado no futuro, no geral algo prazeroso ou de reconhecimento público.

Para a formação de um hábito há um processo cíclico, onde são acionados gatilhos de desejo, rotina e recompensa. Um exemplo é o hábito de ficar muito tempo na internet, quando o gatilho é acionado (normalmente motivado pela ansiedade), o indivíduo instantaneamente busca o relaxamento mental que o entretenimento (rede de relacionamento) proporciona. Em pesquisas qualitativas verifica-se que neste caso, a recompensa está associada a ideia de que há uma ocupação (a “pessoa passa o tempo”), há efetivação de relacionamento, (de que “há interação com outras pessoas”) e informação (“se adquire informação sobre o que está acontecendo”).
É possível introduzir novos hábitos em uma rotina. Porém, é necessário mantê-los por tempo suficiente para que eles se tornem automáticos. Para uma nova rotina ser introjetada precisa da consciência, do motivo e da persistência de algumas semanas de prática. A partir da persistência, o cérebro vai querer repetir os hábitos novos, tal qual repetia os antigos.

Não é só uma questão de força de vontade, mas de programação cerebral, de consciência e persistência. Para tanto é necessário insistir o suficiente para transformar qualquer coisa em um hábito.  Segundo o autor, ao trocar um doce por uma fruta, a madrugada pela manhã ou a cama pela academia, por exemplo, chegará uma hora em que a opção antiga nem será considerada. O cérebro prefere seguir um “roteiro fixo” do que “pensar”.

Porém, não basta apenas mudar os hábitos, é preciso manter a mudança até os “neurônios” se acostumarem com ela, ou caso contrário, o único costume que se pratica é de traçar metas e nunca as cumprir.

*DUHIGG, Charles. O poder do hábito: Por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

A população não vai as ruas por apatia

06/06/2017 18:00

Em um dia corriqueiro, as pessoas se dirigem para as suas casas e, em média, 8 de cada 10 famílias assistem televisão, em especial, os telejornais. Sem contar o papel das multitelas, permitindo as pessoas acompanharem o noticiário pela televisão e interagem com as informações disponibilizadas pelas redes sociais.

E estas pessoas ficam perplexas ao assistir ao noticiário, com o relato de intermináveis denúncias de corrupção, de desvio de recursos públicos e que vem acrescido das informações sobre o aumento do desemprego (que alcançou o número de 14 milhões de trabalhadores no Brasil) ou das informações detalhadas sobre violência, homicídios, chacinas.

A cada dia os relatos de corrupção vão derrubando diferentes “representantes” do povo e criando a sensação de que não é uma questão de ideologia, de partido, não é uma questão de “lado” é um problema do sistema político.

As pesquisas realizadas pelo IPO indicam que 70% dos gaúchos são favoráveis as manifestações contra a situação do país, mas apenas 5% demonstra interesse em se mobilizar, a responder um convite de mobilização.

A apatia do eleitor passa o seguinte recado: “sou contra, mas não conte comigo” e isso tem associação a diferentes fatores que interagem entre si, entre eles se destacam:

a) a falta de confiança nas instituições (menos de 1/3 confia nos três poderes e apenas 3% da sociedade gaúcha confia nos partidos políticos) que gera uma desconfiança com o sistema político e aflora a percepção de que todos os ocupantes de cargos públicos se beneficiam de alguma forma: seja desfrutando privilégios, seja se corrompendo.

b) a falta de crença em um líder consolida a percepção de que não há líderes, não há o que defender e não há a quem defender. Nunca a expressão popular “pôr a mão no fogo” (que é associada a “confiar cegamente em alguém) foi tão unanimemente utilizada em seu sentido negativo: “ninguém põe a mão no fogo pelos políticos”. Ora, se não há crença, como pode haver representação? Se a população não acredita nos políticos e nos partidos como os mesmos podem representar o interesse da sociedade? Não podemos perder de vista que a legitimidade é um elemento sine qua non da representação e não pode ser apenas de direito, precisa ser de fato!

c) o receio com a segurança ou com a utilização indevida da mobilização. A maioria das pessoas não se arrisca a participar de mobilizações ou manifestações pelo medo dos vândalos que se juntam às manifestações, receio de black bloc ou até mesmo pelo medo de assaltos ou homicídios. Nesta lógica, também se juntam os argumentos associados ao receio de responder a uma manifestação e dar crédito a um movimento ou político que esteja atrás de autopromoção ou de interesses pessoais de cunho eleitoral.

Outra expressão popular é unânime para demonstrar o sentimento da população: “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Aos políticos e partidos fica o tema de casa: revejam seus princípios, revejam as cartilhas partidárias e, principalmente, revejam o sistema político brasileiro.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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