Temos que salvar a política

15/10/2019 10:35

Como pesquisadora, que estuda o comportamento da sociedade, tenho visto se ampliar a descrença em relação à política e a perspectiva de negação da política (que está associada ao aumento do individualismo e da intolerância, motivado pela influência da tecnologia).

Fiz diferentes artigos explicando o quanto a política é fundamental para guiar nossa vida em sociedade. A política define as leis (o que podemos ou não fazer) e define a gestão dos serviços públicos (como será o atendimento da saúde, qual será a forma utilizada para combater a violência, se a educação será a prioridade e até o que será ensinado nas escolas).

A política define o tamanho do Estado e influência nos rumos da economia. E também é a política que diz a quantidade de impostos e tributos que devemos pagar e o que será feito com esse dinheiro.

A política pode diminuir a tendência do individualismo e ampliar o sentimento de comunidade. Com a política somos parte, somos inclusos, ela traz o sentimento de pertencimento. A política é a arte do diálogo, da negociação, da capacidade de transformar tese e antítese em uma síntese. De fazer com que o conjunto A e o conjunto B formem uma intersecção. A política fomenta o estabelecimento de regras, a harmonia do convívio social e transforma moral em ética. A política é responsável pelo contrato social entre as pessoas, entre as instituições e entre os governos.

A política nos faz evoluir como seres sociais. A política nos faz ver que um precisa do outro, que o direito de um acaba quando começa o do outro. A política nos ensina que somos diferentes e podemos pensar de forma diferente, mas temos que lidar com a diferença de forma respeitosa e fazer isso com tolerância e empatia. Com a política podemos transformar sonhos em realidade.

Mas para que a política seja tudo o que ela se propõe, temos que ter consciência de que o jeitinho brasileiro está impregnado em nossa cultura e que temos que fazer a nossa parte. Que não adianta reclamar dos políticos e continuar praticando o jeitinho ou ficar omisso diante de pessoas que praticam o jeitinho.

Temos a missão de salvar a política. Para salvar a política temos que ajudar a resgatar e recontextualizar a política. E para fazer isso temos que rever o nosso comportamento e o nosso envolvimento com a política.

- Ter consciência do que é o jeitinho brasileiro (que é quando se tenta resolver um problema ou uma tarefa utilizando um subterfúgio, burlando regras, ou utilizar redes de contato para tirar vantagem);

- Ter interesse por política, buscar informações sobre o que está acontecendo;

- Acompanhar o desempenho dos candidatos que votou, mandando mensagens quando alguma ação não está em acordo com o que foi prometido;

- Trocar ideias, debater. Significa que temos que ver as diferentes perspectivas sobre o tema, verificando os interesses que estão em jogo;

- Ter um ativismo político ou engajamento digital, se envolvendo com os movimentos da sociedade civil organizada como: renovabr.org, agoramovimento.com ou movimentoacredito.org;

- Engajamento ou participação política (envolvimento em entidades representativas, sindicatos, associações ou partidos);

- Cuidar para ter empatia, tolerância, solidariedade para ampliar o sentimento de pertencimento e comunidade.

Se cada um de nós fizer um “pouquinho” em prol do bem comum estaremos salvando a política e o resultado dessa ação irá repercutir e influenciar o comportamento e as práticas dos partidos e dos políticos.

O consumidor de hoje não é o de ontem e não será o de amanhã!

08/10/2019 10:05

Estamos vivendo uma revolução tecnológica digital. Podemos até não nos darmos conta, o tempo vai passando e vamos acompanhando as mudanças como se as mesmas fossem naturais. As vezes até comentamos “que parece que tudo muda muito rápido” e continuamos a nossa jornada, nos adaptando ao que é possível, vivendo novos aprendizados e tentando rever conceitos e, até mesmo, nossas crenças.

A revolução digital afeta o nosso comportamento individual e com outras pessoas, a nossa relação dentro de casa, com a nossa família. O nosso comportamento na escola, no trabalho e, principalmente a nossa forma de consumir e de ver o mundo. E como toda a revolução, altera as estruturas de referência e, por consequência, impacta e fragiliza os valores sociais.

E essa mudança de comportamento é motivada pela entrada da tecnologia no seio da sociedade. E tem a sua expressão objetivada através do celular que está em nossas mãos e que nos conecta com o mundo. Essa conexão nos transmite informações (verdadeiras e/ou falsas), no trânsito nos dá opções de rota, passa um resumo da novela, pergunta como nos sentimos em uma loja que visitamos, nos mostra a lembrança de um ano atrás e se mantém conosco, durante nossas atividades.

A relação simbiótica entre tecnologia e indivíduo vai alterando práticas alimentares, estilos de vida, a forma de consumir e, principalmente, nossas percepções sobre marcas e produtos.

E nesse contexto, o consumidor empoderado vai se constituindo. Mas o que é o consumidor empoderado? É o consumidor que acredita que está no comando da relação de consumo. Antes o consumidor era passivo, assistia uma propaganda, comprava um produto e se o produto não correspondesse a propaganda o consumidor tinha no máximo a possibilidade de reclamar no SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) ou de contar a experiência malsucedida para familiares ou amigos.

Hoje o consumidor é ativo, pois tem redes sociais e a sua timeline. Tem vários canais para reclamar (como o site Reclame Aqui) e se for um microinfluenciador digital poderá reproduzir a experiência negativa para ter ‘ibope’ com os seus seguidores.

O consumidor empoderado, por ser ativo, faz as suas escolhas e tendências a partir da influência de sua ‘bolha de relacionamento” (dos amigos que tem, das páginas que segue) e das informações segmentadas que recebe.

Como o consumidor vem se tornando cada vez mais individualista, se importa menos com o que os outros pensam e deseja que todos lhe entendam, em especial, as marcas que fazem anúncio em seu perfil.

Nesse novo cenário comportamental, as marcas precisam ter empatia, se colocando no lugar do consumidor. Para tanto, as estratégias mercadológicas precisam ser verdadeiras, só destacar as qualidades que realmente existem em um produto. O consumidor empoderado não quer ser enganado e não irá ficar passivo a propaganda enganosa.   

Na expectativa dos consumidores, além da empatia e da verdade, há o desejo pela simplicidade. Como o mundo está cada vez mais frenético, há um desejo pela simplificação das coisas. Essa simplicidade tem como característica a praticidade e até mesmo a durabilidade. Os consumidores não querem produtos que sejam complexos para cuidar ou manusear.

E como a revolução tecnológica digital está em curso, teremos outras mudanças comportamentais com o avanço da internet das coisas, a popularização da impressão 3D e a ampliação da Inteligência artificial.

O eleitor: da expectativa às dores sociais

01/10/2019 07:54

Muitas pessoas não gostam de falar sobre política e não acreditam nos partidos e nos políticos. Está se construindo um imaginário social de que a saída seja pela negação da política. E assim se amplia um fingimento coletivo: o eleitor faz de conta que não precisa da política e os políticos fazem de conta que não precisam dos eleitores.

Enquanto isso, os que se interessam por política estão divididos em dois grupos: os radicais e/ou intolerantes (que acreditam que a sua visão de mundo tem as melhores soluções para um país multicultural) e os que estão atônitos ou apáticos, observando os movimentos e esperando por um propósito, algo que possa manter as conquistas, avançar nas soluções dos problemas e desenvolver novas pautas.

E vamos tocando o dia a dia, sonhando com um país mais justo e solidário, desejando que os serviços públicos atendam às necessidades mínimas da população e que haja diminuição nos índices de desemprego e violência.

Mas, cada vez mais, a lista de expectativas dos eleitores se confunde ou é suprimida por uma lista de “dores sociais”. É mais ou menos assim que eles dizem: “não dá para pensar em melhorar, quando se está sofrendo, quando se tem um problema sério!” De forma geral, essas dores não são físicas. São dores emocionais, sentimentos, indignação e decepção que se acumulam e diminuem a autoestima da população.

Há alguns anos, as pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião mapeavam os sonhos e os desejos dos eleitores, que falavam do bairro que tinham e do bairro que queriam ter. Era comum que o eleitor pedisse mais vagas nas creches, ginásio para escola, calçamento de uma rua, abertura de um novo posto de saúde e assim por diante.

Hoje é cada vez mais comum o eleitor relatar os seus problemas e como eles trazem prejuízos para a sua vida. São as dores sociais que trazem preocupação e medo para a população e que prejudicam ainda mais a população de menor renda. As dores sociais estão associadas à ineficiência dos serviços prestados pelo Estado ou até mesmo pela lentidão ou injustiças cometidas pela justiça.

A saúde pública é um bom exemplo para se entender uma das fontes de motivação das dores sociais. Imagine o número de pessoas que estão no aguardo de um exame especializado, o número de pessoas que aguardam uma cirurgia eletiva ou o número de pessoas que dependem de medicações especiais e, não vamos esquecer, daquelas pessoas que passam dias à espera de um leito, sendo medicados em uma cadeira no corredor de um hospital.

Sabe-se que esses números chegam a milhares! Milhares de pessoas que tem nome, tem rosto, tem família, tem sonhos e, principalmente, tem pressa, pois lutam por sua vida.

Quem tem demandas não atendidas na área da saúde não tem expectativas de melhorias ou qualificações. Essas pessoas relatam seus problemas, suas preocupações e medos e esperam que o que era para funcionar, funcione! Que um hospital não tenha equipamentos quebrados, falta de medicamentos, leitos ou de médicos. Poderíamos fazer exercícios similares em áreas como saneamento básico, mobilidade urbana ou segurança pública.

É vital que os gestores públicos tenham clareza de que as dores sociais estão ganhando um espaço na cultura política da sociedade, alimentam a indignação e transformam descrença em negação. E que o tratamento traz consigo a necessidade de fazer “aquilo que precisa ser feito” em cada uma das áreas que compõem os serviços públicos.

E se os políticos usassem apenas os serviços públicos?

25/09/2019 11:29

Minha coluna está completando uma trilogia sobre a visão conflitante que os políticos possuem dos eleitores e vice-versa. Os representantes do povo relatam suas conquistas, as melhorias que realizam nos serviços públicos ou se vangloriam sobre os recursos que investiram no sistema público, em áreas como saúde, educação, infraestrutura ou segurança.

Há políticos que têm consciência que fazem muito pouco, tendo em vista a demanda social. Há aqueles que defendem que não “fazem mais” em função dos vícios e dos interesses enraizados no sistema público (tendência de manutenção do status quo, disputas políticas, burocracia, corporações, etc). E há aqueles políticos que avaliam que a população não reconhece o que é feito.

E o eleitor que vive o dia a dia e utiliza os serviços públicos não consegue entender por que, na gestão pública, o simples fica difícil e o fácil fica complexo. Na percepção de muitos eleitores, a estrutura pública parece ter um fim sem si mesma. Quem domina a regra, quem conhece a lei ou quem tem o devido “contato” pode exigir os seus direitos.

Na sabedoria popular, tudo seria diferente se o gestor do serviço público utilizasse o serviço público. Não faz sentido para a população que o funcionário e, muito menos, o político, coloquem seus filhos em escolas particulares ou tenham planos de saúde. O princípio é simples e lógico: quem cuida do público tem que usar o que cuida!

O grande desejo da população é que houvesse uma legislação que obrigasse os gestores públicos (concursados ou eletivos) a utilizar apenas os serviços públicos.

Para os eleitores, a educação seria outra se os filhos dos vereadores, do prefeito, dos promotores, dos diretores de escola, entre outros, utilizassem a escola pública. Haveria maior comprometimento e envolvimento dos gestores públicos na gestão e na fiscalização. Imagine o filho de um político ou servidor público chegando em casa e contando que veio mais cedo da aula porque não havia professor de matemática?

Imagine se os políticos e os servidores públicos tivessem que usar apenas o sistema público de saúde, o SUS? E isso valeria para todos os níveis da federação, não importa se é prefeito, governador ou presidente, teria que usar o SUS. O sistema judiciário também, não importa se é promotor, juiz ou desembargador. O mesmo valeria para o legislativo, tanto os vereadores, deputados como os senadores teriam que usar o SUS.

No sentimento popular, não haveriam UPAs inacabadas se os gestores públicos precisassem delas. Não haveria equipamentos quebrados se os gestores públicos tivessem que utilizar exames do SUS. E, principalmente, seria menor a chance de conivência com má administração de recursos ou corrupção. Os gestores públicos seriam naturalmente estimulados a fiscalizar, a zelar por aquilo que eles mesmos irão precisar.

Se os políticos e servidores públicos utilizassem o que administram, teriam mais empatia com a população e mais cuidado com o planejamento dos recursos, diminuindo as verbas que são destinadas aos contracheques dos gestores públicos, que usam o dinheiro público para pagar serviços privados (como auxílio creche, saúde, moradia e até auxílio funeral).

Se, por princípio, todos são iguais perante a lei, os gestores públicos (sejam concursados ou eleitos) teriam que fazer o controle de qualidade daquilo que administram, e a melhor forma seria utilizando os serviços que planejam e cuidam.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

Outros Blogs

Voltar Topo