O problema dos partidos não está no nome, está na falta de essência!

30/08/2017 14:00

Mesmo diante de uma imensa crise de representatividade os partidos políticos adotam uma estratégia de “reposicionamento de marca” para tentar melhorar a reputação negativa. Esta estratégia parte do pressuposto de que as siglas partidárias devem ser suprimidas, excluindo o “P” de partido e transformando o nome do partido em um “slogan”, uma palavra que traga algum sentido para o eleitor, como se fosse uma palavra de ordem.

O PFL foi o percussor desta lógica em 2007, se tornando Democratas. Uma década depois, o DEM debate a possibilidade de alterar seu nome para Centro Democrático.

No debate para a exclusão do “P” de partido estão as seguintes propostas:

PTN  = que já virou “Podemos”.
PTdoB = Avante.
PSDC = Democracia Cristã.
PSL = Livres.
PMDB = discute voltar a ser “MDB”.
PP = propõe tirar o “P” de partido e deixar apenas o “P” de progressista.
PEN = Patriotas.

Os partidos deveriam ser os principais protagonistas do jogo democrático.  Por princípio, são o instrumento de informação e de familiaridade com as ideologias que deveriam balizar os programas de governo. E a ideologia de cada partido deveria estar alinhada com a premissa de cada um de seus candidatos.

Na democracia, que é o governo de muitos, os partidos deveriam manter ideologias coerentes ao longo do tempo e, paralelamente, deveriam ser confiáveis e honestos no cumprimento de suas promessas de campanha. Os partidos deveriam fazer a diferença entre si e todos deveriam visar o bem comum.

O problema não está no “P” de partido, mas no “P” de prática. Os partidos não fazem o que deveriam. E quanto maior for a inconsistência e fragilidade dos partidos políticos, maiores serão as relações entre os eleitores e as lideranças políticas visando interesses próprios, culminando na manutenção do clientelismo e na ampliação do personalismo político.

Os partidos precisam se preocupar menos com o nome e mais com a sua essência, com a reconstrução de suas ideias. Se os partidos querem se preocupar com um “P”, que se preocupem com o “P” de propósito!

Mais humanidade, mais propósito!

23/08/2017 12:00

Tenho me dividido entre a gestão de pesquisas de opinião e de mercado e a realização de palestras para diferentes públicos, relatando “o que pensa e o que espera a sociedade”.

Em cada pesquisa realizada verifico indicadores mais críticos, mais instáveis, mais negativos. Seja pesquisas que mostram consumidores empoderados, mais exigentes, críticos e insatisfeitos. Seja pesquisas de opinião que refletem cidadãos mais descrentes, apáticos e sem esperanças.

A cada palestra que profiro destaco a necessidade da busca pelo “propósito”, de resgatar os valores, de se ter crença. É necessário estabelecer novas práticas, que tenham sentido, que tragam identidade na relação humana (seja ela uma relação de mercado ou política).

As relações precisam ser menos mecânicas e mais orgânicas. O princípio é simples: “tanto o produto, marca ou a plataforma política precisa estar imbuída de “verdade”, fazer ou servir ao que se propôs.  E, tanto o produto quanto a ação política precisa ter “simplicidade” ou seja, fazer sentido, ter utilidade para quem consome ou acredita. As pessoas estão cansadas de comprar ou escolher “gato por lebre”.

Este debate remete a obra de REIMAN (2013)* que apregoa que “a humanidade deve estar presente nos negócios” e reitero, a humanindade se faz necessária em todas as relações sociais e é vital na política.

Para se ter propósito é necessário “tomar uma posição”, acreditar em algo. Este propósito precisa virar uma prática que seja boa para os dois lados, deve ser um “ganha-ganha”. No mundo dos negócios deve resultar em satisfação para o consumidor e lucratividade para as empresas. Na política deve trazer a ampliação do bem comum e líderes inspiradores.

Para que o propósito seja mantido é necessário uma liderança que tenha valores definidos e os mantenha, com capacidade de reavaliação e atualização do propósito conforme avança a sociede e que consiga unir os colaboradores ou a sociedade em torno deste propósito.

“O propósito dos negócios não é simplesmente o de gerar valor, mas sim o de atribuir maior valor à vida das pessoas. Quando isso acontece, nossas empresas vão lucrar no curto prazo, na próxima década, e o mundo lucrará no longo prazo, no próximo século.”

*REIMAN, Jaime. Propósito: Porque ele engaja colaboradores, constrói marcas fortes e empresas poderosas. São Paulo, Editora HSM, 2013.

O Distritão como um sistema eleitoral a serviço do personalismo

15/08/2017 20:00

Em um momento em que o descrédito aos partidos políticos passa de 90% e os eleitores almejam por novas lideranças, o Congresso Nacional, visando as eleições de 2018, propõe mudar as “regras do jogo” e apresenta casuisticamente a proposta do sistema eleitoral do Distritão. Mais uma vez os Deputados e Senadores legislam em causa própria e ampliam a fragilidade dos partidos políticos.

O Distritão prevê a eleição dos candidatos mais votados em cada Estado, seguindo a mesma lógica do sistema majoritário (eleição para Governador e Presidente). Neste caso, só são contabilizados os votos dos candidatos eleitos. Por exemplo, os 31 Deputados Federais mais votados do RS ganhariam a eleição, não importando o partido e nem os votos nos demais candidatos, que são desconsiderados pelo sistema Distritão.

No Distritão, os partidos políticos tenderiam a limitar o número de candidatos, para privilegiar os nomes tradicionais, com maior votação. Por essência, o Distritão amplia o personalismo político ao privilegiar os “candidatos natos”, aqueles que já possuem mandato, que tem “nome popular” e rede de relações ativadas por suas estruturas parlamentares. O que fomenta este projeto é a ampliação das chances de reeleição e da manutenção do foro privilegiado.

No sistema proporcional os mandatos são distribuídos de forma proporcional aos votos recebidos por cada partido ou coligação, todos os votos são contabilizados. Esta lógica baseia-se na premissa democrática de que “quem se elege é a plataforma política do partido”, como se fosse um time que compartilha de ideias. Neste contexto, os candidatos com grande votação ampliam o número de cadeiras do partido, levando consigo candidatos com menor votação, incluindo a projeção de novos nomes e/ ou de candidatos jovens.

A fragilidade dos partidos políticos amplia a permissividade do sistema político e, por consequência, enfraquece a democracia representativa. Por princípio constitucional, o fortalecimento dos partidos políticos deveria representar ideais e estabelecer propósitos à sociedade. A sociedade deveria se identificar com estes propósitos, aderir, participar e se engajar tendo em vista que “todo poder emana do povo que o exerce por meio de seus representantes eleitos”.

Os Deputados deveriam estar preocupados em diminuir o personalismo político, com a qualificação do sistema proporcional visando estabelecer cláusula de barreira para acesso ao fundo partidário das legendas que não obtém uma votação mínima, a proibição de coligações na eleição proporcional (para Deputados e Vereadores) e a reforma do horário eleitoral gratuito.

É importante lembrar que a democracia representativa é baseada na legitimidade. A legitimidade pode ser discutida do ponto de vista legal e moral. Os representantes do povo não devem abusar de prerrogativas casuísticas, pois mantem-se no poder apenas pela legitimidade legal, não tendo legitimidade moral para propor mudanças que representam interesses pessoais.

O smartphone amplia o individualismo – parte 2

09/08/2017 10:00

Além de analisar os benefícios e os malefícios do smartphone é necessário refletir sobre a sua capacidade viciante: indivíduo versus smartphone. A pergunta que precisa ser feita é: as pessoas estão dominando o smartphone ou smartphone está dominando as pessoas?

Este debate contempla o fenômeno da distração digital que se classifica pela onipresença das multitelas em nosso cotidiano, com a crescente tendência de hiperconectividade em várias redes sociais. Neste contexto o indivíduo intercala suas funções entre um e-mail, uma espiada na timeline ou, até mesmo, em uma ou muitas postagens. Nas pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, a maior parte dos entrevistados que utilizam redes sociais (60%), as acessam todos os dias.

Ficar oscilando de uma tela para outra ou entre a realidade e a tela do celular interfere na capacidade de memorização de longo prazo, pois o indivíduo recebe muitas informações instantâneas e fragmentadas. Há dificuldade de absorção destas informações, destas vivências.
As multitelas (smartphone, tablete, notebook...) se tornaram parte da rotina das famílias, onde cada indivíduo está “hipnotizado” diante de seu aparelho e neste “transe” não percebe novos sintomas comportamentais: como variação no sono, a falta de atenção, o aumento da obesidade, a ampliação do stress e da depressão. Estes e outros dilemas ganham espaço dentro das casas, dentro das escolas, no trabalho e no cotidiano, em geral. Os comportamentos estão sendo alterados e a reflexão sobre os exemplos cotidianos é pertinente:

Há uma década atrás, mães “brigavam” com seus filhos pequenos para que os mesmos deixassem um pouco os amigos e entrassem para dentro de casa, hoje mães precisam estimular os filhos para sair da multitela, para fazerem amigos reais.

Reunião familiar ou encontro de amigos se constituía em um momento de relato das atividades, sonhos, conquistas ou derrotas que hoje são expostas nas timelines, fazendo com que a reuniões familiares sejam momentos de registros do evento para alimentar novas postagens.

A tecnologia tem nos propiciado um vasto acesso à informação e contato social, como nunca visto. Mas se faz necessária consciência, regramento e disciplina para que a máquina esteja a serviço do homem e não ao contrário!

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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