Como entender o voto em Lula

31/01/2018 15:50

É recorrente chegar, a um instituto de pesquisas como o IPO, questionamentos sobre os motivos pelos quais os eleitores intencionam votar em Lula, mesmo diante de processos e de uma condenação.

Para entender este fenômeno, excluindo os eleitores com relação orgânica ou histórica com o PT, é importante observar duas vertentes de análise:

a) cultura política vigente no país;

b) o papel dos programas sociais de Lula.

Em termos de cultura política temos como cerne todos os vícios do clientelismo, do personalismo e do patrimonialismo. Esta cultura política foi reforçada pela premissa da corrupção endêmica (ativada pela operação Lava Jato) e ampliou a desconfiança, o ceticismo e a descrença da população em relação aos políticos e a política. O eleitor que antes dizia que não gostava de política, hoje não quer nem ouvir falar sobre a mesma.

Atualmente a maior parte dos brasileiros não confia nos partidos políticos. Não confia em nenhum partido! Os eleitores não confiam na maior parte das instituições de representação política, como as Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional.

Ora, se o voto personalista se constituiu como a égide da decisão eleitoral e a percepção que vigora é a de que todos os políticos são corruptos, como o eleitor faz para diferenciar? A decisão do eleitor, que se mantém distante da política e vota em Lula, parte do pressuposto que todos os políticos se preocupam com seus interesses próprios e a diferença está naquele que além de buscar os seus interesses pessoais, também se preocupa com a população: a antiga premissa Ademarista do rouba, mas faz.

Diante desta lógica cultural que equanimiza a maior parte dos eleitores de Lula, solidificam-se dois fenômenos que se fundem entre si e justificam o voto no petista:

a) a percepção de dignidade humana = é preciso ter em mente que boa parte do eleitorado de Lula recebeu algum benefício oriundo de políticas públicas, através de programas sociais. Nas entrevistas qualitativas o eleitor de Lula sempre conta uma história de vida que tem como base a mobilidade social. Esta mobilidade traz consigo o atributo da dignidade que aparece em vários tipos de relatos:

- Imagine um trabalhador braçal semianalfabeto que vê seu filho ingressar na Universidade pelo ProUni.

- Um trabalhador que atua há anos como auxiliar de serviços gerais e faz um curso do PRONATEC: sente-se um profissional e passa a ter uma identidade como trabalhador.

- Um morador de periferia que mora de favor na casa de parentes ou em sub habitação e consegue a sua moradia no programa Minha Casa, Minha Vida.

b) Quem ganha dignidade retribui com gratidão = Os eleitores que receberam benefícios sociais tiveram melhorias na sua qualidade de vida e, por consequência, na sua autoestima, sentiram-se respeitados ou tiveram o reconhecimento público de seus pares, se sentiram valorizados. Esta dignidade motiva um sentimento de gratidão e, este sentimento, se materializa na intenção de voto em Lula.

Para uma grande parcela da população é difícil de entender porque uma outra grande parcela do eleitorado continua destinando seu voto em Lula. O que parece não fazer sentido, está imbuído de sentido e de sentimento. 

A geração Y e o mercado de trabalho

26/01/2018 14:10

Um dos debates atuais, do mundo do trabalho, está associado as crescentes disrupturas comportamentais ocasionadas pela geração Y e tantas outras que serão estimuladas pela geração Z, que logo estará no mercado de trabalho.

A geração Y se desenvolveu em uma época de grandes avanços tecnológicos, ampliação das oportunidades na área da educação e com estabilidade econômica. Cresceu brincando de Barbie e jogando videogame. Possui acesso aos mais variados bens materiais e de consumo duráveis e usufruem de um mix variado de alimentação, diferentemente da origem e desenvolvimento de seus antepassados. Para esta geração o mundo está aí e é para ser vivido.

Neste contexto o desafio é compreender o comportamento destes jovens que foram e continuam sendo estimulados por diferentes atividades, tendem a ser ansiosos e possuem certa dificuldade em exercer carreiras subalternas no início de sua trajetória, necessitando de constantes feedbacks.

No ambiente de trabalho o profissional da geração Y é pragmático no que se refere ao exemplo dado pela chefia: não pode haver contradição entre o que o chefe fala e o que o chefe faz.

As expectativas com o trabalho estão associadas à flexibilidade de horário e qualidade de vida. Este profissional não quer ficar preso ao trabalho ou trabalhar aos sábados pela manhã. Não tem vocação para ser workaholic.

O trabalho ideal é aquele que favoreça o desenvolvimento pessoal com o profissional. O desejo deste profissional é conciliar as metas do trabalho com as suas metas pessoais.

A relação com o tempo é a principal fonte de ansiedade desta geração. Estes jovens não gostam de rotina, de ficar fazendo a mesma coisa por horas, precisam de uma pausa ou respiro a cada duas horas. Esta geração não almeja se estabelecer em um único emprego. Se em dois anos a empresa não apresentou um plano de carreira para este profissional, a tendência natural será de novos voos.

 Esta geração tem uma relação mais íntima com a internet do que com os livros. Quando precisam de atualização ou de algum conhecimento específico procuram sites que englobem o maior conjunto de informações sobre o tema em questão.

Para esta geração a cidadania é um tema superficial. Não são motivados a mobilização ou a participação política. A principal adesão desta geração se limita ao compartilhamento nas redes sociais, mas apenas de temas ou ações que tenham credibilidade ou sensibilizem uma pauta específica.

Quanto maior for o conhecimento sobre o comportamento e a tendência de cada geração, maior será a capacidade de relacionamento, de embate ou até mesmo de resiliência. Não podemos esquecer que as mudanças de comportamento estão associadas as mudanças do meio, da conjuntura, do mundo. Sociologicamente, somos reflexos do meio.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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