Ser idoso no Brasil

18/06/2019 08:24

No Brasil, quando chegamos aos 60 anos somos considerados idosos e temos um estatuto próprio, o Estatuto do Idoso. Futuramente, esse recorte etário que conceitua idoso provavelmente será revisto, tendo em vista que o projeto da reforma da previdência prevê que a idade mínima para aposentadoria das mulheres seja de 62 anos e para os homens de 65 anos.

O IPO – Instituto Pesquisas de Opinião questionou os gaúchos sobre o recorte etário que fundamenta o conceito de idosos, aplicando a seguinte pergunta: “Em sua opinião, tendo em vista a sua experiência com amigos e familiares, uma pessoa com 60 anos deve ser considerada idosa?”

- 59,4% consideram que idoso deve ser considerado a partir de 60 anos;

- 38,2% dos gaúchos avaliam que a idade deve ser revista;

- 2,4% não souberam avaliar.

A população idosa vem aumentando no país, fruto da ampliação da expectativa de vida e da crescente diminuição da taxa de natalidade. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 1940 a expectativa de vida era de 45,5 anos. Na virada do milênio a expectativa de vida era de 69,8 anos e hoje temos uma expectativa de vida de 76 anos (no RS de 77,8 anos). Lembrando que essa expectativa de vida varia de região para região, tendo em vista a melhoria das condições de vida da população.

O país vem desenhando um contexto com menos jovens e mais velhos. No censo de 2000 a população idosa representava 10,5% dos gaúchos. No censo de 2010 correspondia a 13,8% e nesse ano os idosos são 18,19% da população. Para termos uma ideia, somos 11.377.239 gaúchos e desses, 2.069.520 são idosos.  E o IBGE estima que a população acima de 60 anos seja de 24% em 2030.

E se o idoso ocupa um maior percentual de representação na sociedade, também terá uma maior capacidade de eleger candidatos que estejam associados à sua pauta. Em 2019 os idosos representam 23,6% do eleitorado. Segundo o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) o RS tem 8.274.390 eleitores, e desses 1.953.091 são eleitores idosos. Para termos uma ideia desta força, o RS é representado por 31 deputados federais no Congresso com uma média de votos de 107 mil. Significa dizer, que os idosos poderiam eleger vários deputados federais, na hipótese de votarem de forma classista (em quem defende o segmento e as pautas dos aposentados).

Em sua grande maioria, os idosos de hoje foram os filhos, os pais e os trabalhadores de pouco tempo atrás. Nasceram no milênio passado, na década de 60, quando a televisão ainda não fazia parte dos lares gaúchos. Nada era fácil naquela época, muito menos o acesso à educação e a saúde.

E por mais que evoluímos, a vida do idoso não é nada fácil. Mais de 65% dos brasileiros idosos vivem com um salário mínimo. São 20,3 milhões de aposentados no Brasil e segundo o IBGE, ¼ destes aposentados voltam ao mercado de trabalho. E quase a metade desses idosos são os principais responsáveis pelo sustento da casa.

Mais de 70% dos idosos utilizam o SUS (Sistema Único de Saúde) e como utilizam de dois a cinco medicamentos por mês, gastam 10% da renda na farmácia (mesmo contando com medicamentos da rede pública e da farmácia popular). 

Como o mundo está mudando, os idosos também estão mudando e se conectando ao mundo digital. Pesquisa realizada pelo IPO no RS indica que 87,5% dos gaúchos estão conectados às redes sociais. Quando pensamos na população idosa, são mais de 62% conectados as redes sociais, utilizando a internet como fonte de entretenimento, relacionamento e informação.

Cinco fenômenos negativos das redes sociais

12/06/2019 10:02

A internet tornou-se parte integrante de nossas vidas, nos auxilia na comunicação instantânea, no processo de informação, de comercialização, no relacionamento com outras pessoas e até no entretenimento diário. Estamos vivenciando as transformações propiciadas pela tecnologia, usufruindo de seus benefícios, sem ter a clara noção dos malefícios que podem causar à sociedade a longo prazo.

Cotidianamente somos orientados a ter cuidados com crimes cibernéticos, com a Deep web, a Dark Web ou com as notícias falsas propaladas pelas Fake News. Assistimos aterrorizados às notícias de suicídios incitados por redes sociais e de crimes de pedofilia digital, que exploram imagens de crianças e adolescentes.

Conforme vamos conhecendo e sofrendo com os crimes cometidos no mundo digital, os poderes judiciário e legislativo desenvolvem leis para coibir esses abusos. E assim vamos indo, em uma relação de constante aprendizado com a internet.

Contudo, é muito importante termos a consciência e observarmos os fenômenos comportamentais que podem ser causados pela internet. Como somos “objetos” dessa transformação e estamos criando nossos filhos como “cobaias” desse mundo tecnológico, é vital analisarmos os seguintes fenômenos causados pela relação contínua com as redes sociais:

1º) Individualismo = as redes sociais possibilitam que cada pessoa seja o ator principal de sua história, um mundo paralelo se cria, onde é necessário alimentar a timeline e relatar os momentos cotidianos (colocar a foto da refeição, do passeio ou até mesmo de uma briga). As redes sociais estimulam o indivíduo a dizer “o que está pensando ou sentindo”. Amplia-se a preocupação individual e diminui-se a preocupação com o social.

2º) Impaciência = se cada um é um e cada um tem pressa, acredita que o mundo está a seu serviço. O individualismo potencializa a falta de paciência, pois diminui a empatia (capacidade de se colocar no lugar do outro). Tudo precisa ser muito rápido: se espera que a resposta a uma mensagem seja instantânea, que a foto seja curtida e comentada, que se dê atenção rápida a quem pede atenção (em alguns casos, são muitos pedidos de atenção).

3º) Ansiedade = Se cada indivíduo se sente único em sua relação com o smartphone e suas redes sociais, a expectativa também é potencializada. A impaciência é seguida de ansiedade. Os tempos do mundo virtual são diferentes dos tempos do mundo real, qualquer espera parece infinita e muitas pessoas sofrem quando não são respondidas no tempo que desejam. É cada vez mais comum crianças e adolescentes desejarem ser youtubers ou influenciadores digitais, abrindo canais e esperando audiência. E os sentimentos que oscilam entre a expectativa e a frustração são motivadores da ansiedade.

4º) Distração digital = se caracteriza pela dificuldade de concentração, ocasionada pela multitarefa, que cria uma atenção parcial contínua, de uma mente que pula de uma coisa para outra. É difícil a atenção simultânea ao estudo e ao WhatsApp ou trabalho e as postagens do Facebook. Esse é um tema em debate e estudo na psicologia.

5º) Nomofobia = é quando a internet começa a causar dependência e se tornar um vício. A nomofobia é o medo de não ter acesso ao celular, e se caracteriza pela angústia de não acessar a internet e as redes sociais, tornando a pessoa impaciente ou desesperada por ficar sem comunicação. Para estas pessoas o mundo virtual se torna mais importante do que o mundo real.

O lugar da política é em todo o lugar

04/06/2019 07:05

Parte do meu cotidiano como cientista política está relacionado com o estudo do funcionamento da política e, em especial, sobre o comportamento político eleitoral da população.

Não é de hoje que a maior parte da população não gosta de política, não se interessa e não tem o hábito de conversar sobre política. A grande maioria não se envolve com partido político e não participa de nenhum tipo de entidade representativa (como associações, sindicatos, conselhos...).

As redes sociais potencializaram a participação e o engajamento político virtual de parte da sociedade e o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião tem monitorado o interesse por temas políticos. Atualmente, ¼ dos gaúchos costumam acompanhar postagens sobre política e ¼ procuram o tema quando há um debate que interessa, em especial, quando há polêmicas. A outra metade dos gaúchos afirma que não utiliza as redes sociais para se informar sobre política ou nunca se informou sobre o tema.

Na prática, a população tem sido, sistematicamente, ensinada a não gostar de política através das sucessivas experiências negativas com a política partidária. Como a sociologia e a ciência política não estão presentes no currículo das escolas desde as séries iniciais, o conhecimento sobre política ocorre através da experimentação: a população vive a experiência com a política partidária do país e, através dessa, tira suas conclusões.

E o que a política partidária tem ensinado à população.

- Que promessas feitas não precisam ser necessariamente cumpridas;

- Que uma coligação pode fazer inimigos políticos se tornarem amigos;

- Que o toma lá, dá cá faz parte das negociações políticas;

- Que a corrupção envolve políticos de todos os partidos;

- Que as leis são feitas pelos políticos para beneficiar os políticos;

- Que a política faz a vida piorar.

Para tentar se defender, a população que não confia nos partidos, tenta acreditar na pessoa de um político, onde deposita as esperanças até que haja uma nova decepção.

A cultura política instituída no país nos ensina que o “bom” é se manter longe da política, como se política fosse algo ruim. O que aprendemos com exemplos ruins contraria o princípio da democracia representativa que pressupõe participação da população, onde todo poder emana do povo.

A política é o que nos une em sociedade, o que pode inspirar o sentimento de comunidade, de solidariedade. A política é a arte do diálogo, da negociação, do estabelecimento de regras, da pactuação. A política fez nascer o contrato social entre as pessoas, a política é a base do direito e das leis que nos regem.

A política está presente nas relações entre os casais, quando estes decidem se terão uma relação mais conservadora ou aberta.

A política está em nossas casas, quando decidimos como iremos criar os nossos filhos, se será uma relação menos ou mais democrática.

A política está dentro das escolas, na lição do professor que determina se seus alunos irão ou não participar da aula.

A política está presente nas relações de trabalho, quando os gestores da empresa decidem as regras internas de convívio ou se irão dar benefícios além do que a lei exige.

A política está presente em nossas relações, nos micro espaços de poder do nosso dia a dia, em todo o lugar que temos a capacidade de decidir ou fazer algo pelo outro. A política está presente nas nossas escolhas e na maneira como vemos o mundo. A política este presente no mundo que idealizamos.

Volmiro deu a vida à BR 116 SUL

28/05/2019 16:35

Volmiro Silva da Rosa, 48 anos, era casado e pai de duas filhas. Semanalmente, seu trabalho era receber os passageiros com um cumprimento na porta do ônibus do Expresso Embaixador, para logo depois lhes indicar a poltrona. Antes do ônibus partir, com a timidez que lhe era peculiar, Volmiro dizia o destino da viagem, que o uso do cinto de segurança era obrigatório, que havia água no frigobar e desejava uma boa viagem a todos.

Todos os dias, durante 17 anos, Volmiro colocava sua vida à prova na BR 116 SUL e guiava a vida de quase uma centena de pessoas que se destinavam de Pelotas a Porto Alegre ou vice e versa.

A viagem com Volmiro era sempre serena. Era um motorista prudente, mostrava que dominava a arte de dirigir e quando estava no comando do ônibus, os passageiros podiam dormir, trabalhar, conversar ou até mesmo contemplar a paisagem com muita tranquilidade. Os mais apressados podiam até se estressar com ele, mas ele tinha sempre o mesmo ritmo e a resposta de que era importante chegar com segurança.

 Muitos e muitos artigos escrevi dentro do ônibus do Expresso Embaixador, sabendo que Volmiro estava nos conduzindo pela BR 116 Sul, uma estrada sem duplicação e por onde passa toda a frota de veículos que se destina à região Sul do Estado.

Minhas conversas com ele sempre se limitaram ao obrigado, quando me cumprimentava ou quando desejava uma boa viagem a todos. Hoje penso que deveria ter dito que era um ótimo motorista e que eu confiava minha vida a ele em cada viagem.

Nesse último dia 23/05/19, Volmiro perdeu a vida em um acidente envolvendo um carro e um caminhão no KM 433 da BR 116 e os depoimentos dão conta de que Volmiro foi um herói, sua habilidade na condução do ônibus guardou a vida de muitos passageiros.

Volmiro é um exemplo que representa simbolicamente tantas e tantas outras vidas que se foram em uma rodovia em que as obras de duplicação ficaram por longo tempo paradas e estão sendo retomadas a passos lentos. No mesmo acidente, Eduarda Bechel, de 26 anos, também perdeu a vida e deixou uma filha de 4 anos. Mas há uma centena de outros nomes, que deixaram histórias, que deixaram amores e que deixaram muita saudade.

Podemos refletir sobre a imprudência dos motoristas ou sobre a falta de fiscalização, mas antes temos que debater sobre os riscos de uma BR sem duplicação. Uma estrada com pista única por onde passam milhares de veículos.

E para fazer este debate teremos que pensar nos problemas históricos que assolam a política brasileira, como a perda de muitos recursos para a corrupção ou pela malversação das obras.

Mas mais do que isso, teremos que debater a falta de visão dos governantes deste país e a incapacidade de estabelecer uma política de estado, com um planejamento sistêmico: se cresce a população, se cresce a frota de veículos, se cresce a produção é necessária a ampliação da malha rodoviária, é vital a duplicação das rodovias.

Não é à toa que o movimento tem sido ao contrário, a sociedade civil organizada é quem tem pressionado os governantes e representantes do povo a perceberem o óbvio: que é necessário investir nas estradas, que é por onde passam milhares de vidas e a riqueza deste país.

Um case de referência da sociedade organizada e que merece todo o respeito e apoio é o movimento “BR 116 Sul: Duplicação Urgente”, que foi criado para dar visibilidade ao tema e que sofre cada vez que um Volmiro dá sua vida à falta de duplicação.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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