Se nunca fui entrevistado, como acreditar em pesquisas?

13/11/2018 10:06

Cada vez é mais comum ouvirmos dúvidas sobre as pesquisas de opinião, “se nunca fui entrevistado, como confiar nos resultados apresentados em uma pesquisa?” Este debate envolve vários fatores, focarei nos três principais são: a) profissionais habilitados; b) técnica adequada; c) instabilidade do comportamento humano.

Quando se fala em pesquisa, se fala em ciência e não pode haver ciência sem cientista. As pesquisas que envolvem a declaração de pessoas, como as pesquisas de satisfação, comportamento de consumo e até as pesquisas eleitorais são pesquisas atinentes à realidade social e o profissional capacitado para este tipo de estudo é o sociólogo. O sociólogo desenvolve e utiliza um conjunto variado de técnicas e métodos de pesquisas para o estudo dos comportamentos em grupo e, cabe a este profissional, definir as variáveis que podem ser importantes em cada estudo, conforme a realidade social em questão.

Como as pesquisas precisam “entrevistar apenas alguns” e, ao mesmo tempo, representar o todo, é necessário utilizar uma amostra que espelhe a realidade social analisada. Para tanto, o sociólogo precisa da parceria do estatístico, que é o profissional que cuida dos números e atua no cálculo da amostra, verificando as teses apontadas pelo sociólogo e, também, se responsabilizando pelas análises estatísticas. Um exemplo desta parceria são as pesquisas eleitorais registradas no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que, por força da lei eleitoral, cada pesquisa exige um registro deve constar o nome do estatístico responsável.

O sociólogo e o estatístico fazem a previsão de todos os cuidados que a pesquisa precisa ter e do perfil de quem deve ser pesquisado. Em uma pesquisa com a população, deve-se garantir a representação de gênero, se definir o número de entrevistados de determinada idade, renda, bairro e situação de trabalho. Se há 10% de desempregados, a pesquisa deve ter 10% de desempregados.

No exemplo de uma pesquisa com empresários, a amostra deve indicar quantos de cada porte (pequeno, médio e grande), quantos de cada segmento da economia (comércio, serviços, indústria, agro) e quantos empresários com negócios recém-abertos, quantos com menos de cinco anos de empresa e quantos com mais de cinco anos e, assim por diante.

Se a pesquisa atendeu aos dois requisitos acima: teve os profissionais habilitados e utilizou a metodologia adequada a discussão sobre as variações deve levar em consideração o fator humano, a variação comportamental da sociedade.

O debate mais clássico está associado às pesquisas eleitorais, tendo em vista que a expectativa é de que a pesquisa se confirme na urna. A grande pergunta é: porque há tantos casos em que a pesquisa publicada diverge do resultado da urna?

Na maioria dos casos se tem acesso apenas a intenção de voto dos eleitores e, em uma pesquisa, há sempre vários indicadores que explicam uma tendência. Um exemplo é a cristalização dos votos, fruto de uma questão aplicada aos eleitores, onde o entrevistado declara qual a certeza da intenção, se ela é definitiva ou não. Quanto mais tenso é um cenário em disputa, maior a possibilidade de alteração da intenção de voto.

Há muito o que avançar no debate das pesquisas, tanto no que diz respeito à exigência dos profissionais habilitados, quanto à revisão crítica dos métodos adotados e, em especial, na análise dos fatores que influenciam as mudanças comportamentais.

Uma sociedade indignada, uma eleição ímpar

06/11/2018 08:14

O ano começou com a sociedade demonstrando os maiores índices de indignação social e descrença registrados desde a redemocratização do país, sendo que 2/3 da sociedade se revelava antissistema, desconfiando das instituições.

O sentimento de frustração dividia espaço com o desejo de mudança, com a esperança, um sentimento dicotômico que o eleitor já vive há muito tempo.

Nas pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, a maioria dos eleitores externava a sua esperança em torno de candidatos a presidente, na expectativa de que apresentassem propostas de combate a corrupção, de ativação da economia, de combate ao crime e ampliação do sentimento de segurança e de atenção à saúde e a educação.

A eleição foi ímpar em todos os sentidos: um candidato preso que ungiu o seu sucessor, um candidato esfaqueado que não tinha tempo de TV e passou a ocupar todo o noticiário, candidatos envolvidos em esquema de corrupção e inúmeros candidatos que não motivavam os eleitores.

O processo eleitoral para presidente virou de ponta a cabeça, fazendo com que os indicadores tradicionais não fizessem mais sentido: tempo de horário eleitoral gratuito na televisão sendo prescindido pelas redes sociais, candidatos com orçamento milionários tendo o mesmo desempenho eleitoral de candidatos sem orçamento e o debate substituído por lives e fakes news.

Este cenário ativou a maior polarização política que este país já viveu em sua jovem democracia, onde a radicalização foi a justificativa para a negligência do debate em torno de propostas. A prioridade não era o plano de governo, mas a capacidade de empatia com os dilemas da população, a verdade e a simplicidade.

A sociedade cansada, indignada e sofrida queria discutir a relação e o grande debate estava associado a moralidade, a ordem, a família e a disciplina. O direito da maioria prevalecendo em detrimento ao direito de minoria.

A população que tanto assistiu quieta aos sucessivos noticiários que exibiam as fragilidades do país em termos de ética e de segurança pública, se fez presente na defesa se um propósito: escolher quem entendia o que estava acontecendo e afirmava que iria arrumar o que estava errado.

A singularidade deste processo eleitoral foi resultante de todo o contexto histórico, conjuntural e estrutural que a política brasileira viveu neste último ciclo. E deve se observar que o fenômeno nacional também se repetiu em vários Estados afetados pelo questionamento ético aos seus governantes.

Caberá a toda a classe política a humildade de reconhecer que os partidos precisam se reinventar, e que o Brasil precisa de uma grande transformação em seu sistema político, incluindo as reformas necessárias e a coragem de acabar com o foro privilegiado.

E não haverá mudança no sistema político enquanto não houver uma grande alteração do posicionamento e das práticas políticas dos representantes eleitos. É a hora de todos os partidos reverem seus programas e a política do toma lá dá cá e trabalhar em prol da nação. Os líderes precisam restabelecer o debate sobre os males causados pelo jeitinho brasileiro e ajudar a guiar uma mudança cultural da sociedade.

E a primeira grande tarefa do presidente eleito Jair Bolsonaro está associada a necessidade de apaziguar, unir o Brasil em torno de um propósito. Para tanto, terá que estimular a união da sociedade, demonstrar serenidade em suas colocações e combater qualquer forma de intolerância e radicalismo.

Como os eleitores perceberam Eduardo Leite

30/10/2018 14:48

O processo eleitoral de 2018 começou com a maioria dos eleitores gaúchos externando uma tendência de mudança, o que indicava a dificuldade de reeleição do atual governador, levando em consideração os seus indicadores de avaliação.

A imagem pessoal de Sartori estava associada a honestidade, mas havia muitas dúvidas sobre as opções de seu governo, em especial, em relação ao parcelamento de salários. A campanha de Sartori reposicionou sua imagem como administrador e reconstruiu com êxito a sua reputação, ao ponto de torná-lo competitivo.

Entretanto, a maioria dos gaúchos almejava por um candidato com coragem, com pulso firme e que tivesse uma visão de gestão eficiente, com capacidade de colocar agilidade a gestão pública, em especial, tivesse uma alternativa de superação da crise econômica e fiscal do Estado. E o grande desejo dos eleitores: que este governador mostrasse empatia com os problemas da sociedade, em especial, em relação a saúde, segurança e a educação. Como dito, era uma eleição da empatia, da verdade e da simplicidade. O eleitor não desejava muito, apenas que o Estado funcionasse!

Neste contexto, o perfil de Eduardo Leite foi se aproximando naturalmente ao perfil desejado pela maioria do eleitorado, em especial, dentre os que já haviam definido que não iriam apoiar a reeleição. O posicionamento discursivo de Eduardo mostrava altivez, sua experiência estava associada a capacidade de administrar com poucos recursos e suas proposições contemplavam de forma humanizada a saúde, a segurança e a educação. Além disso, assumiu o compromisso de colocar os salários em dia, ainda no primeiro ano de seu governo.

Em julho, antes de começar os programas de rádio e televisão, Eduardo Leite detinha uma imagem positiva entre 28,9% dos gaúchos (eleitores que intencionavam votar, tinham o candidato como segunda opção ou apenas simpatizavam com ele). Ao longo do primeiro turno, a sua imagem positiva foi para 59,3% e terminou o segundo turno com 70,9% com uma percepção positiva sobre Eduardo Leite.

Além dos testes de imagem, o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião verificou que os atributos de Eduardo Leite estavam mais próximos aos atributos desejados para o próximo governador. Neste tipo de teste os eleitores atribuem uma nota de zero a dez a cada atributo, pensando nas características de um governador ideal. Depois o eleitor avalia as características dos candidatos, atribuindo uma nota de zero a dez a cada característica. A análise deste tipo de teste permite a compreensão do candidato que tem atributos mais próximos ao perfil ideal.

Na percepção dos eleitores, Eduardo Leite é honesto, tem experiência e competência. Consideraram que Eduardo fez uma boa política e tem capacidade de cumprir o que promete ou comunicar a sociedade sobre seus dilemas e dificuldades. Os eleitores consideram que Eduardo Leite conhece os problemas do Estado e é próximo das pessoas, sendo considerado pelo eleitor como “gente como a gente”.

O resultado eleitoral indica que Eduardo Leite obteve pouco mais da metade dos votos no RS, mas seus indicadores de imagem demonstram que o governador eleito saiu da campanha eleitoral com o apreço de mais de dois terços dos gaúchos. Significa dizer que a população deposita grandes expectativas no futuro governador e que o mesmo terá que desenvolver um sistema permanente de diálogo com a sociedade a fim de manter ativa a crença no bem-comum.

Por que estamos vendo tanta intolerância?

23/10/2018 17:25

A eleição de 2018 entra para história do Brasil como um momento político de radicalidade: de ataques fortes entre candidatos e de ampliação da intolerância entre os eleitores. Um cenário onde o debate dá vez a opinião formada, onde a plataforma política fica relegada a segundo plano, dando lugar a ataques pessoais, onde cada lado avalia que tem razão.

A grande pergunta é por que chegamos neste grau de intolerância? E esta intolerância é momentânea?

Uma vertente teórica da sociologia trabalha com a premissa de que o brasileiro é “cordial” por natureza e na prática a população sempre foi muito resiliente as sucessivas dificuldades e turbulências políticas. Mas não podemos esquecer que a sociedade sofre com cada ação política permissiva que resulta da política brasileira. A retrospectiva dos telejornais dos últimos anos nos dariam a seguinte síntese:

1º) Ampliação gradativa das denúncias de corrupção e prisão de grandes políticos e empresários;

2º) Ampliação da insegurança pública, colocando o Brasil entre os países mais violentes do mundo;

3º) Ampliação da ineficiência de serviços públicos (como saúde, educação, infraestrutura, saneamento, etc);

4º) Ampliação das dificuldades econômicas da população (diminuição do poder de compra, ampliação do desemprego, etc).

Neste contexto, o primeiro fator de motivação à intolerância está associado a descrença, a indignação social. Em certo sentido, há um grande sentimento de revolta e o ser humano tende a “descontar em quem está mais próximo”, é mais fácil atacar o mensageiro, desqualificar quem defende o lado contrário. Todos querem um país melhor, mas nossa educação dicotômica sempre quer achar um culpado: certo X errado, justo X injusto, bem X mal.

É importante termos em mente que esta indignação social é ampliada pela atual conjuntura em quem vivemos. Um cenário onde a tecnologia ocupa cada vez mais tempo em nossas vidas, o nosso cotidiano está cada vez mais corrido e estamos cada vez mais ocupados. O resultado disso é menos paciência e mais individualismo. Estamos cada vez mais egoístas e nos envolvemos e nos preocupamos cada vez menos com o outro.

Então, temos a base social que fomenta a intolerância: indignação social + menor paciência + ampliação do individualismo.

Esta intolerância tende a se manter se não houver um movimento, uma consciência política sobre a realidade que temos e a realidade que deveríamos ter!

Primeiro, o Estado e os políticos devem atuar em prol do interesse público. Temos que resgatar o bem-comum que o sistema político e os políticos vêm deturpando ao longo da história (toda vez que trabalham pelos interesses das corporações ou pelos seus próprios interesses).

Segundo, a sociedade deve rever a sua cultura e o seu comportamento em relação ao jeitinho brasileiro, passando por quatro estágios: Consciência: desta realidade, saber que cada um tem um papel neste processo. O debate: sobre esta realidade. A educação: pensar na educação informal (que ocorre dentro de casa e na rede de relações) até a educação formal (de sala de aula). A prática: onde se “abre mão” de vantagens pessoais em detrimento de valores e se pratica o que foi acordado, se trabalha em prol do bem comum.

Esta mudança comportamental tende a ampliar a confiança no outro, no governo e no funcionamento das instituições e estimular a participação, o empoderamento da população, diminuindo a intolerância.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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