Se há diferentes percepções, há diferentes verdades

21/03/2019 16:15

Você já parou para pensar como é o trabalho de um instituto de pesquisa, como no caso do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião? Sabe aquele momento da vida em que você se pergunta: será que sou só eu que penso assim? Será que sou só eu que acredito nisso? Será que sou só eu que tenho esta mania? Será que sou só eu que não gosto desta comida?

O mesmo ocorre com instituições, empresas, sindicatos, governos e partidos. Muitas perguntas são feitas, muitas hipóteses são elaboradas e que precisam ser confirmadas ou refutadas. A população está satisfeita com o seu prefeito? Por que o consumidor prefere uma marca e não outra? Os eleitores podem se manifestar contrários à reforma da previdência?

O trabalho de um instituto de pesquisas é compreender o que as pessoas pensam e o porquê de pensarem assim. Mas o pensamento não é único e isso faz com que a sociedade seja composta por diferentes tipos de ideias, de comportamentos, de hábitos e de percepções sobre a realidade. A realidade é uma, mas a visão da mesma é variada.

As diferenças comportamentais estão associadas às disparidades sociais, geográficas, econômicas, culturais, religiosas e, principalmente, ao nível de informação e conhecimento sobre temas cotidianos.

Vamos a um exercício simples. Imagine um entrevistador batendo à sua porta e fazendo a seguinte pergunta sobre o tema da descriminalização do aborto: Em sua opinião, a mulher que faz o aborto deveria ser criminalizada? E por qual motivo você tem esta opinião?

O resultado da pesquisa nos mostra que a maior parte dos gaúchos consideram que a mulher que pratica o aborto deve ser punida e criminalizada, mas os argumentos que balizam essa avaliação, sustentam-se em diferentes lógicas.

É como se cada um olhasse a realidade a partir de sua lupa, de sua janela. E é isso mesmo, cada um faz um juízo de valor a partir de sua sabedoria, que pode ter sido adquirida através das “regras da vida”, de uma prática de conduta ou pelo saber sistematizado e fundamentado.

Vamos encontrar aqueles que são contra a descriminalização e estão alicerçados pelo princípio cristão. Acreditam que a vida começa na concepção e que a mulher não tem o direito de “tirar uma vida”.

Há os legalistas, que afirmam que “a lei é igual para todos e precisa ser respeitada” e, nesse contexto, a punição seria necessária para manter a ordem e o respeito. Tem aqueles que defendem que a criminalização do aborto é uma forma de educação sexual, incentivando as mulheres a utilizarem métodos contraceptivos.

E há aqueles que não sabem explicar o motivo pelo qual defendem uma ideia. E este grupo se subdivide em subsegmentos: os que não querem explicar, os que não sabem explicar e também há os que nem entenderam a pergunta.

E nesta análise nem estamos avaliando os que são contrários à criminalização do aborto e, que em sua maioria, afirmam que o direito individual da mulher deve ser respeitado.

Esse exemplo nos mostra que a realidade é composta por diferentes percepções e que estas estão embasadas de “verdades”, de crenças ou de visões de mundo. Cada entrevistado acredita no que diz e só irá alterar a sua percepção se receber informações que façam sentido e dialoguem com o seu sistema de crença.

Não é à toa que há uma corrente da sociologia que apregoa que “a verdade não existe”. A verdade está contida em um conceito e como há muitos conceitos, há muitas verdades e como diz o dito popular “cada cabeça, uma sentença”.

Como o consumidor passivo ficou ativo?

12/03/2019 09:35

No século passado o escritor George Orwell afirmou que “a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa.” Esse era um contexto em que o indivíduo era passivo, sentava na frente da televisão, escutava o rádio ou lia o jornal e a única reação era o diálogo com a sua rede de relação pessoal, ou seja, seus familiares, amigos e vizinhos.

As pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que a utilização das redes sociais está massificada, quase 90% dos gaúchos utilizam a internet. E as pessoas têm diferentes opções de canais digitais para se informarem, para se comunicarem com a sua rede de contatos ou até mesmo para se entreterem.

A relação com estes canais de comunicação é direta, somos estimulados a dizer “o que estamos pensando” e, em muitos casos, a emoção está à frente da razão. Isso faz como que muitas postagens demonstrem sentimentos negativos, em especial, associados à insatisfação, à indignação, a críticas, à reprovação, à rejeição ou até mesmo a ameaças. É um espaço onde cada consumidor tem e manifesta “a sua verdade”, o seu entendimento, o seu pondo de vista.

E essa nova realidade estabelece um novo comportamento social que se reflete nos mais variados âmbitos, seja no cotidiano de consumo, na política, no processo eleitoral, nas relações educacionais e até mesmo dentro do seio familiar.

Pronto, se pensarmos nas relações de consumo, a frase de George Orwell deve ser recontextualizada. O consumidor, que antes era passivo, está construindo um protagonismo. Ele tem voz nas redes sociais, pode criar ou compartilhar uma fake news em um curto espaço de tempo. Não precisa procurar o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) de uma marca, pois pode fazer sua reclamação em sua própria timeline, desde que a marque e tenha muitas curtidas e compartilhamentos. Um consumidor insatisfeito pode procurar outras pessoas com o mesmo problema e ter seus quinze minutos de fama, se encontrar apoio de um influenciador digital, blogueiro ou até youtuber. Sem contar que em alguns casos um consumidor insatisfeito pode se tornar um fenômeno da internet e seguir uma carreira como fiscal de marcas.

Essa nova realidade comportamental, influenciada pela tecnologia, altera o papel do consumidor, criando um empoderamento a partir do ativismo digital. Atualmente, uma marca não pode pensar em uma campanha publicitária sem calcular as ações e reações do consumidor, que pode assistir à campanha na televisão e se manifestar de forma crítica através do efeito multitela, podendo criar em poucas horas uma hashtag nacional contra a marca, gerando um grande problema para as marcas.

Antes uma marca procurava uma agência, que criava uma propaganda que era veiculada na mídia e a massa passiva era influenciada, para o bem ou para o mal. Essa prática tem sido cada vez menos assertiva. A marca precisa conhecer cada vez melhor o pensamento do consumidor, sua opinião, suas expectativas, seus preconceitos e suas indignações. Isso exige mais propósito por parte delas. Não é um propósito “escrito” em um planejamento ou posicionamento de marca. Estamos falando de essência, de verdade, de relação entre o que é prometido e o que é entregue. Cada vez mais, a massa influencia a marca, a marca se preocupa com a mídia e a mídia tem cuidado com a massa.

A participação das mulheres em números

05/03/2019 08:13

Nesta semana comemoramos o dia internacional da mulher, sendo que esta comemoração é realizada há pouco mais de um século, ± 110 anos. A mesma o surgiu nos países desenvolvidos como um marco da luta feminina por melhores condições de trabalho, igualdade econômica e pelo direito ao voto.

No mercado de trabalho a mulher tem conquistado gradualmente mais espaço, atuado em diferentes funções e ampliado a sua participação em cargos de chefia, mas ainda estando abaixo dos indicadores de participação masculina.

- As mulheres representam 51,7% dos trabalhadores brasileiros segundo o IBGE e mesmo com mais escolaridade, ainda são minoria no topo da hierarquia do setor público e privado, representando pouco mais de 1/3 dos cargos gerenciais.

- As mulheres ganham em média 77,5% do salário de um homem e este fenômeno é comum em todos os tipos de cargos e em diferentes áreas.

- Enquanto a taxa de desemprego entre os homens é de 11,6% entre as mulheres é de 15%, segundo o IPEA.

- E conforme a estatística de gênero do IBGE, as mulheres gastam em média 18 horas semanais com afazeres domésticos e cuidado com crianças enquanto o homem dispensa uma média de 10 horas.

A participação da mulher na política tem sito um processo de construção “lento, gradual e seguro”. Conquistou-se o direito ao voto e hoje há até cotas para candidatas mulheres, atuando como um sistema de inclusão compulsória da mulher na política. A representação da mulher na política tem crescido, mas está muito aquém de sua representação numérica.

- A mulher representa 52,5% da população brasileira e 52% do eleitorado.

- Atualmente ocupa 15% das cadeiras da Câmara dos Deputados (são 77 deputadas entre 513 cadeiras) e 14,8% no Senado (12 senadoras entre as 81 vagas). Na Assembleia Legislativa do RS as mulheres representam 16% (são 9 mulheres que ocupam as 55 cadeiras).

- Dentre os 22 ministros do Governo Bolsonaro há 2 ministras, representando 9,0%. No Governo Eduardo Leite são 6 mulheres, dentre as 22 Secretarias. Tal número representa o maior percentual de espaço político ocupado pelas mulheres, 27,2%.

- No Supremo Tributal Federal as mulheres representam 18,1%, são duas ministras entre os 11 ministros da corte.

- 11,7% dos municípios do país são comandados por mulheres (são 5.570 municípios e apenas 649 são administrados por mulheres) e apenas um entre os 27 Estados do país é comandado por mulher, 3,7% dos casos.

A cidade de Pelotas se destaca neste contexto, é governada por uma mulher e tem 19% de representação feminina na Câmara dos Vereadores.

Como tenho alertado, a participação da mulher na política precisa ser orgânica. Precisa ocorrer de forma natural, começando pelo maior envolvimento das mulheres em ONGs, diretórios acadêmicos, associações de bairro até chegar aos partidos políticos. As cotas são um instrumento de participação institucional que precisa ser superado por uma participação espontânea que ocorre com educação e cultura política.

Temos que rever nosso processo de educação política desde o ensino fundamental e superar a visão negativa que a sociedade tem da política. Temos que quebrar o estigma de que a política não presta!

Antes de tudo, o debate sobre a importância da política precisa entrar para dentro das nossas casas, para dentro da escola e para o nosso local de trabalho. A política decide o que podemos ou não fazer, o que é certo ou errado e a mulher precisa ter isso muito claro!

Estamos percebendo as mudanças de comportamento?

26/02/2019 10:36

O dito popular diz que os dias estão tão acelerados que às vezes nem “vemos o tempo passar”. Atualmente, o mesmo princípio pode ser aplicado as mudanças de opinião e as novas tendências comportamentais.

Vivemos um momento em que a opinião pública e o comportamento humano estão em constante transformação. Você já parou para pensar quanto a sociedade mudou em termos de comportamento e opinião desde que entramos neste novo milênio? E se você analisar os últimos dez anos, verá que as mudanças são ainda mais perceptíveis.

Historicamente a sociedade sempre passou por mudanças e transformações. O que está em debate é velocidade destas transformações em um cenário impulsionado pela tecnologia, em especial, por um equipamento que está em nossas mãos desde que acordamos, o senhor de nossas vidas: o smartphone.

No RS, 9 em cada 10 gaúchos têm o seu aparelho celular, estão conectados à internet e participam de redes sociais. Os que utilizam as redes sociais, o fazem todos os dias. Um hábito que começa desde o acordar, quando toca o despertador (aliás, o próprio celular), com a atualização no feed de notícias e vai se repetindo no correr do dia até a hora de deitar-se.

O smartphone é muito mais do que um instrumento de comunicação, se tornou parte inerente ao indivíduo, integrando-o com familiares distantes, com os amigos, com os acontecimentos e dando-lhe a capacidade de gravar e registrar os fatos cotidianos ou ganhar tempo, pedindo um produto ou serviço por aplicativo. Literalmente, é uma ferramenta que concede ao indivíduo a ‘voz do empoderamento’, valorizando cada vez mais o próprio indivíduo.

E é a valorização do indivíduo que motiva as grandes mudanças comportamentais, o que chamamos de ampliação do individualismo. O smartphone propicia um espaço exclusivo para cada pessoa, onde cada um pode exprimir seus desejos, seus sentimentos e feitos. Pode postar o que comeu na janta, um cantinho de sua casa ou marcar o local em que está.

E este mundo paralelo, que chamamos de mundo virtual, nos influencia diretamente, mexendo com nossas emoções e afetando nossa inteligência emocional. A relação estabelecida nas redes sociais interfere em nossas escolhas e nos georreferencia o tempo todo: nos localiza em qualquer lugar e a qualquer momento, nos lembra onde estivemos e com base nestas informações nos indica novos lugares para visitar e as compras que devemos fazer.

E neste mundo há os youtubers, os influenciadores digitais e as figuras públicas que ensinam constantemente novos rituais (como hashtags, OOTD, TBT) e as empresas provedoras de redes sociais (como Facebook, Instagram) que se mantém em constante atualização, oferecendo novas ferramentas para ampliar o relacionamento entre as pessoas e o culto ao individualismo.

A ampliação do individualismo pode ser considerada uma doença social em curso. Quanto mais utilizamos o mundo virtual, menor é a nossa relação com o mundo real, com a pessoa que está ao nosso lado e vamos nos mantendo em uma bolha.

Quanto mais ficamos na rede social menor será a nossa a chance de conversar com uma pessoa em um ônibus ou até mesmo de conhecer um amigo ou um amor. E este dilema se torna mais severo no âmbito das residências, onde as famílias compartilham cada vez menos sentimentos, acontecimento, ensinamentos e experiências, pois estão ocupadas com o seu celular.

Temos que desacelerar como indivíduos para nos compreendermos como sociedade!

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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