A expectativa dos gaúchos com 2019

15/01/2019 11:18

Para entendermos a expectativa de uma sociedade precisamos compreender a influência dos padrões estabelecidos, as práticas cotidianas e, principalmente, os juízos de valores externados através da opinião pública, inclusive a tendência do que é postado e compartilhado nas redes sociais.

O contexto em que vivemos se comporta como um poderoso influenciador de nossa percepção de mundo e, por consequência, de nossas ações e capacidade de persistir ou empreender em um objetivo. Quanto maior a crença, maior a possibilidade de sonhar, de ter um propósito e de correr atrás dele.

Por princípio, se temos bons exemplos, motivações, orientações o caminho se torna mais fácil e temos mais chance de progredir. Entretanto, quando o caminho é cheio de percalços, frustrações e dificuldades, maior é a possibilidade de indignação e de desistência.

Quando se estuda a opinião pública se observa que as escolhas e o comportamento de um indivíduo podem ser influenciadas pelo condicionamento cultural a certas situações, a palavras, a sons/músicas, a imagens ou até outros estímulos. Quanto mais informação ou educação formal, maior a capacidade de um indivíduo analisar um contexto de forma mais ampla. Porém, a capacidade de empatia e a visão dialética está mais associada aos valores, compaixão, espiritualidade e religiosidade.

Tendo em vista os novos líderes eleitos (Presidente, Governador e deputados) o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião verificou a expectativa dos gaúchos com a possibilidade destes novos representantes melhorarem a realidade dos gaúchos.

Quase metade dos gaúchos (48,9%) não espera melhorias em seu cotidiano. A outra metade se divide, entre os que tem expectativa de melhoria (24,9%) e os que são pessimistas e acreditam que a vida irá piorar (21,4%). Sendo que 4,8% não tem opinião formada sobre o novo cenário.

A pesquisa indicou que quanto mais jovem, maior é a crença, a expectativa com dias melhores. Ao contrário, quanto maior a idade, maior é a desesperança.

Os que acreditam em melhoria, depositam esperança na renovação política que ocorreu no Estado e no País. Os que avaliam que não irá haver mudança, acreditam que não há interesse dos políticos para resolver os principais dilemas da sociedade e citam os interesses pessoais dos políticos e a corrupção como o principal motivador das práticas vigentes. Os pessimistas, tem uma visão unânime em torno da corrupção, como empecilho para melhoria de vida da população.

Os entrevistados relatam que corrupção se manifesta através do exercício de uma prática não-legitimada em termos morais, políticos e até religioso, “não é certo, mas quem tem o poder faz”. A corrupção está presente em todos os âmbitos da sociedade e, na maioria dos casos, está disfarçada de “jeitinho”, é alimentada pela ideia de tirar vantagem de algo ou de burlar uma burocracia.

Os entrevistados são participativos em pesquisas que avaliam a realidade em que vivem. Muitos entrevistados fazem análises complexas e apontam o que irá acontecer no cenário político brasileiro, citam as artimanhas dos políticos tradicionais e a tendência dos eleitos se tornarem reféns dos conluios políticos ou serem absorvidos pelo sistema político brasileiro, incluindo a judicialização da política.

E assim entramos o ano, com expectativa relativa e com o desejo que os líderes sejam líderes e os vícios da cultura política sejam suprimidos pelas virtudes da democracia, que deve visar o bem comum.

Quanto maior a desconfiança, menor a crença

08/01/2019 10:16

Uma pesquisa realizada pelo Latinobarómetro em 28 países da América Latina, em 2018, indicou que os brasileiros são os mais insatisfeitos com a democracia, apenas 13% consideram-se muito satisfeitos ou satisfeitos com a democracia brasileira. A desconfiança com a democracia está associada à desconfiança dos seus representantes, neste quesito o Brasil ocupa o penúltimo lugar, em 2018 somente 11% da população confiava no Congresso Nacional.

E esta percepção negativa é resultante de três fatores: corrupção, clientelismo político (que favorece o grupo ligado ao político) e a ineficiência dos serviços públicos (situação cada vez mais agravada na saúde, na segurança, na educação e infraestrutura).

O Brasil também fica nos últimos lugares quando o tema é confiança entre as pessoas: apenas 7% responderam positivamente à pergunta “É possível confiar na maioria das pessoas?”. A desconfiança entre as pessoas está associada e, é ampliada, pela desconfiança da população com os líderes políticos. Quanto maior é o descaso dos políticos com a sociedade, menor é o sentimento de coletividade, de comunidade. E o individualismo é potencializado quando as pessoas precisam “se virar sozinhas” para conseguir direitos que são ignorados ou negados pelo Estado.

No início de cada mandato, se renovam as esperanças e se reposicionam as expectativas. Neste momento a opinião pública tende a dar um “salvo conduto” aos eleitos, desejando que o próximo governo seja melhor que o seu antecessor. Pesquisa realizada pelo Datafolha em dezembro de 2018 indicou que 65% dos brasileiros têm uma expectativa positiva com o futuro governo de Bolsonaro. Sendo que entre os eleitores de Bolsonaro a expectativa é de 88%.

Segundo o Datafolha, esta é a menor expectativa com um presidente eleito deste a reabertura política: Collor 71%; FHC 70%; Lula 76%; Dilma 73%. Quando o quesito é a comparação, 76% avaliam que Bolsonaro será melhor do que Temer; 73% acreditam que Bolsonaro será melhor do que Dilma, para 58% Bolsonaro será melhor do que Lula e 56% acreditam que Bolsonaro será melhor do que FHC.

Quando questionados sobre a prioridade para o Brasil, a população afirma que deveria ser a saúde, com 40%, educação com 18% e segurança com 16%. Quando se questiona a expectativa com a área que Bolsonaro “vai se sair melhor”, os brasileiros acreditam que será a segurança, o combate a violência. Ao contrário, a expectativa é que as áreas que o presidente “vai se sair pior” são a educação (14%) e saúde (13%).

Estes números que sistematizam a percepção da opinião pública são importantes para compreensão do momento em que vivemos e reflexão sobre o papel de cada um de nós neste processo.

1) Bolsonaro tem a menor expectativa de um presidente eleito, pois assume em um momento de baixa satisfação da população com a democracia, com seus líderes e consigo mesmo (não confiamos uns nos outros).

2) O brasileiro tem uma lista de prioridades (como saúde e educação) que são conscientemente relegadas a segundo plano, na aposta de que o presidente eleito combata duramente a corrupção, acabe com privilégios e minimize a violência.

O desejo da sociedade é para que haja uma ação no cerne do problema, na fonte histórica que alimenta o câncer da política brasileira. Afinal de contas, se a corrupção, se os privilégios e se os conluios não forem repelidos não acabaremos com o eterno dilema da falta de recursos.

Um 2019 com mais verdade, simplicidade e empatia

01/01/2019 17:13

Desde de pequena ouço a expressão: “ano novo, vida nova”. Cresci, e como profissional passei a ouvir as avaliações, julgamentos, percepções, desejos e expectativas das pessoas. Entra ano e sai ano e tenho visto que a vida pode até ser nova, mas o comportamento tem sido cada vez mais velho.

Durante o ano de 2018 aprendi que a sociedade está muito cansada, chateada e indignada com tudo o que tem acontecido no país. Preocupada com a situação da saúde e da segurança pública. E principalmente, saturada da imoralidade política, com a tão citada “corrupção no Brasil” (com 29.600 menções do termo no Google, em dezembro 2018).

O desejo da sociedade é simples e não se restringe apenas a uma mudança no comportamento dos políticos. A sociedade almeja por uma mudança no seio da própria sociedade. Estou falando da vertente da corrupção, do jeitinho brasileiro. Essa prática social que está implícita no cotidiano e nos leva a desrespeitar o outro, que nos leva tirar vantagem do outro e que nos leva a usurpação e é a base da corrupção.

Pessoas de diferentes regiões, classe sociais e idade relatam a sua percepção sobre a política, sua avaliação sobre os rumos da sociedade e sobre o comportamento de sua rede de relacionamento (família, amigos e vizinhos). Em comum, a contextualização sobre os problemas, as decepções, o desejo de mudança e a esperança com dias melhores, com mais respeito ao outro. Na maior parte dos depoimentos se destaca a premissa de que precisamos equilibrar os direitos com os deveres.

De uma forma geral, as pessoas desejam que três palavras se tornem rainhas em 2019 e guiem os políticos e a sociedade como um todo: a verdade, a simplicidade e a empatia.

Verdade: na percepção da maioria, boa parte de nossas mazelas sociais estão relacionadas a mentira. Toda a mentira faz mal, seja a mentira dos maus políticos, dos que abusam do poder, das pessoas que enganam outras pessoas, das pessoas que traem e até das Fake News.

Simplicidade: a simplicidade desejada chega a ser complexa, pois inclui várias perspectivas e está associada a verdade. Em primeiro lugar, a população reclama dos órgãos públicos usando o velho dito: “criam dificuldade para vender facilidade”. Quando a sociedade pensa no Estado, pensa em burocracia, em dificuldades e neste contexto emerge o desejo por simplicidade, no sentido de simplificação.

Mas a simplicidade também está associada ao debate da qualidade de vida, ao desejo de uma vida mais leve, sem preconceito, sem perseguição, sem hipocrisia, sem ostentação e sem supremacia de uma pessoa sobre a outra.

Como a simplicidade não é simples, ela também é relacionada a linguagem, a forma de comunicação e a socialização do conhecimento. A informação que é levada a sociedade precisa ser clara, objetiva e com propósito, “se o poço é tão fundo que ninguém consegue beber, o poço não serve como poço”.

Empatia: o mais importante de todos os desejos e que está associado a verdade e a simplicidade. A empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro e por este princípio básico a empatia seria a grande vacina no jeitinho brasileiro. Isso exige um exercício de cidadania, o meu direito acaba quando começa o do outro. Motiva a reflexão, e se fosse comigo, iria gostar?

Desejo um ano novo com muita reflexão e que a verdade, a simplicidade e a empatia façam parte da vida nova, neste novo ano. Feliz 2019!

O Natal nosso de cada ano

24/12/2018 09:46

A palavra Natal está associada etimologicamente ao sentido de nascer, originalmente associada ao nascimento do Deus Sol. Contemporaneamente, no mundo ocidental, o principal significado para Natal está relacionado a narrativa Cristã, que contextualiza o nascimento de Jesus Cristo como salvador.

Na representação simbólica cotidiana da população, o Natal está cada vez mais associado aos enfeites natalinos, as luzes de natal e a imagem do Papai Noel. E esta representação se potencializa ano a ano por ser explorada pelos ambientes comerciais e pela publicidade.

Pesquisas qualitativas realizadas pelo IPO - Instituto Pesquisas de Opinião, indicam que quando as pessoas são estimuladas a pensar ou falar sobre o Natal as principais associações simbólicas estão ligadas a saga dos presentes e ao momento em família.

De um lado o final de ano é visto pela sociedade como um momento de muita correria, de ampliação do stress. Quando as lojas começam a enfeitar as vitrines para o Natal dispara um alerta no inconsciente das pessoas, para o fechamento de um ciclo e recomeço de outro. Esta simbologia indica que o fim do ano se avizinha.

Quem estuda se angústia com as provas. Que estabeleceu metas e sonhos faz os cálculos para ver o que atingiu ou irá atingir até a chegada do “bom velhinho”. Uns sonham com o décimo terceiro e outros tem pesadelos com as contas de final de ano, como IPVA, IPTU, matrículas, etc. Muitos contam os dias para as férias com o argumento de que a “bateria está quase no fim”!

O stress também é ampliado pelas compras de Natal ou por aqueles que precisam trabalhar mais em função do movimento do final de ano. E muitos chegam a conclusão de que em dezembro “se gasta mais do que se ganha”. De outro lado, mesmo que o Natal esteja muito associado ao materialismo e ao comércio, ele traz consigo uma certa magia, que compensa todo o stress e coloca a questão mercenária em segundo plano.

É um momento que se pensa na roupa especial, na casa arrumada, nos presentes, nas integrações de amigo secreto e até na ceia de Natal, com algo especial. Mas a magia está na crença, na esperança, na perspectiva de um amanhã com menos problemas, com menos conflitos, decepções e frustrações. E esta magia se fundamenta na reunião familiar, na integração das pessoas e na coletividade. É o momento em que se pensa menos como indivíduo e mais como família, é o momento que se pensa no outro e nos outros, onde a solidariedade e a generosidade se tornam mais latentes e a emoção atinge até as pessoas mais racionais.

O principal mérito do Natal está associado a capacidade de aflorar e motivar os sentimentos e as reflexões. É o momento em que se pensa mais no amor, no aconchego, na troca de carinho e até mesmo no reencontro e no pedido de perdão. O Natal tem o poder de ativar a empatia e, quando há empatia, há o exercício de se colocar no lugar do outro. Quando nos colocamos no lugar do outro nos tornamos mais condescendentes e até mesmo resilientes.

Mesmo que o Natal seja explorado pelo comércio e associado a coisas tangíveis, na prática o Natal está enraizado no sistema de crenças da sociedade e funciona como uma mola propulsora do bem, ativando o que existe de melhor na sociedade e em cada um de nós.

Desejo que o espírito do Natal esteja presente em cada família, renovando a esperança, a fé, o perdão e o amor. Um Feliz Natal!

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

Voltar Topo