A corrupção é pior do que a pandemia

11/08/2020 08:32

Desde 2015, as pesquisas de opinião começaram a sinalizar que a corrupção estava sendo percebida pelos brasileiros como o principal problema do país, ficando na frente de dilemas como saúde e segurança.

A corrupção foi o tema central da eleição de 2018 e motivou a decisão de voto de muitos eleitores, que apostavam na moralização da política brasileira. O princípio decisório de muitos desses eleitores partia da premissa de que um “novo nome” resultaria em um “novo comportamento”. De certa forma, uma avaliação ancorada na esperança!

Mesmo acostumada com a corrupção, a população fica atônita quando observa o noticiário relatando que os esquemas de corrupção acompanham o crescimento da infecção pela Covid-19. Conforme cresce a pandemia, crescem os esquemas de super faturamento ou desvios de verbas em torno de respiradores, hospitais de campanha, EPIs, e até mesmo em função de “kits anti coronavírus”.

Nas pesquisas de opinião realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião verifica-se que essa situação amplia a indignação da sociedade e a percepção negativa em relação à política.

A indignação vai ampliando o sentimento de frustação, a sensação de que “não tem jeito”, e de que os políticos são oportunistas e se aproveitam da situação. E esse sentimento negativo amplia a distância da população em relação aos partidos políticos, vai transformando e consolidando a ideia de que a política é algo ruim, alimenta a força do “jeitinho brasileiro” e a interpretação de que “todo mundo tira vantagem de tudo”.

A população analisa todo o cenário, estima os riscos que corre com a corrupção, e se pergunta se cotidianamente a corrupção não mata mais gente do que a Covid-19?

O momento de incertezas que vivemos gera muitas dúvidas, muitas perguntas e reflexões. É um contexto no qual os entrevistados fazem tantas perguntas quanto os entrevistadores. E essas perguntas tentam estimar os custos e os riscos causados pela corrupção. As pesquisas de opinião monitoram vários tipos de questionamentos:

- Quantas pessoas morrem todo ano por falta de leito ou cirurgia em hospitais sem estrutura que são impactados pela corrupção?

- Quantas pessoas estão morrendo sem atendimento adequado, sem respirador ou sem acesso à UTI pela corrupção?

- Quantas pessoas não têm a medicação ou o tratamento adequado em função da corrupção?

- Quantas pessoas perdem a vida precocemente por não haver uma saúde preventiva que faça diagnósticos no início da doença?

- Quantas pessoas morrem nas estradas de mão única, mal construídas ou até mesmo inacabadas pelos desvios de verba da corrupção?

- Quantas pessoas morrem antes de ter o socorro médico necessário por falta de ambulância ou helicóptero?

São muitas e muitas perguntas que refletem um momento de incertezas, medos e angústias, de uma população que está calejada de sofrer os impactos dos efeitos da corrupção no Brasil.

A população está cansada e tem uma noção de que a corrupção precisa de punição e de muita educação. Para avançarmos nesse tema é necessário reconhecermos que este problema é sistêmico, está inserido em nossa história e está na base de nossa cultura política. Significa que precisamos combater a corrupção em sua nascente, nas relações de reciprocidade que se estabelecem com o jeitinho brasileiro, acabando com o “toma lá, dá cá” que está inserido nas pequenas relações do cotidiano.

Os efeitos da pandemia na educação

04/08/2020 08:51

Pela objetividade e imediatismo, temos clareza em relação à precarização financeira causada pela pandemia. Entretanto, o mesmo debate não está sendo feito em relação aos efeitos da pandemia na precarização da educação.

Além da preocupação com a pandemia em si, as famílias que têm crianças e adolescentes se preocupam com os dois temas: situação financeira e pedagógica.

As incertezas, inquietações e dúvidas são inúmeras. Em cada entrevista realizada pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, os entrevistados têm mais perguntas para fazer do que os entrevistadores. Em especial, no que se refere à questão da educação.

Com a pandemia em curso, as aulas presenciais foram vetadas pelos protocolos sanitários e as aulas virtuais ainda não chegaram para todos. Os estágios de aulas virtuais variam muito, conforme o tipo de escola. E quando chegam, não garantem a democratização do acesso.

Há situações em que as aulas virtuais não estão disponibilizadas. Há casos em que há trabalhos enviados virtualmente. Tem situações em que até a prova é feita. Tem situação em que a criança não tem equipamento eletrônico, situação em que a criança não tem sinal de internet e há casos em que não há nem aparelho e nem acesso à internet.

Mas a maior preocupação dos pais nem está no acesso às aulas virtuais. A maioria dos pais têm dúvida sobre esse processo pedagógico virtual e acredita que ele está sendo feito para “ocupar” os alunos, para manter a curiosidade das crianças ou até mesmo para diminuir o stress, estimulando um contato com a professora e/ou com os colegas.

A grande preocupação dos pais, que gera muitas perguntas sem respostas, diz respeito às lacunas pedagógicas desse processo. Qual o grau de eficiência pedagógica dessas aulas emergenciais por meio virtual? Qual será o impacto nas séries seguintes? Ou, até mesmo, se não seria mais indicado anular o ano escolar para todos? O que é mais correto para o desenvolvimento pedagógico de nossas crianças?

 Os pais que têm filhos em séries de alfabetização, são os que se mostram muito preocupados. Mais do que a insegurança sobre o processo de alfabetização, o grande receio está associado às sequelas estruturais que podem permear o desenvolvimento cognitivo dessas crianças.

Os pais com filhos em séries concluintes, como nono ano do ensino fundamental e terceiro ano do ensino médio, se preocupam com o futuro dos filhos. Uma das perguntas é se esses adolescentes estarão preparados para seleção de cursos técnicos, ENEM ou vestibulares? Como as dúvidas são imensas, se preocupam com a possibilidade de não haver processo seletivo nas instituições federais, o que deixaria alunos concluintes sem recursos financeiros, parados em 2021. A grande dúvida é se, com o fim da pandemia, haverão turmas alternativas para esses alunos de séries concluintes?

Esse cenário é complexo e precisa da luz técnica da pedagogia, que deve guiar pesquisas que avaliem os impactos da pandemia no processo de aprendizagem dos alunos. Nesse momento há muitas dúvidas que precisam de respostas para que a sociedade possa fazer um debate amplo sobre o tema.

Os governantes precisam estar embasados com informações precisas dos efeitos da pandemia em cada nível da educação básica e planejar ações corretivas e políticas públicas educacionais para minimizar as sequelas da pandemia.

A pandemia poderá diminuir o número de votantes

28/07/2020 08:39

Dia 15 de novembro teremos eleições municipais, para escolhermos o prefeito e os vereadores que irão nos guiar e representar durante o período de 2021 a 2024.

A abstenção eleitoral, que se caracteriza como o ato de não ir votar, tem crescido no Brasil. Em 2006 a taxa de abstenção foi de 16,8%, em 2010 de 18,1%, em 2014 19,4% e em 2018 chegamos a 20,3%. No RS esse índice foi de 18,1% em 2018.

Nas eleições municipais a variação ocorre conforme o porte do município ou o histórico de problemas: acusação de corrupção, desvio de verba, ou até mesmo se houve afastamento temporário ou cassação de Prefeito. Na prática, se verifica que quanto maior for o município e a decepção do eleitor, maior é a abstenção.

O principal motivador da abstenção está associado ao desinteresse e ao descrédito com a política. Esse eleitor não se motiva a votar porque acredita que seu voto não é importante ou que pode até votar errado. A não participação no pleito também está associada com a decepção em relação à política. Pessoas que ficam indignadas com os escândalos de corrupção e se afastam do processo eleitoral.

Com a pandemia em curso durante o processo eleitoral de 2020, a grande pergunta é sobre a tendência do eleitorado e, principalmente, se a abstenção eleitoral tende a aumentar?

De um lado verifica-se a ampliação da negação com a política e a insatisfação da sociedade com a quantidade de incertezas em um cenário de constantes decretos. De outro, sem a perspectiva de uma vacina a curto prazo, amplia-se os números de infectados, com indicação de ampliação das regras de distanciamento social controlado e com a tendência de chegarmos em novembro com a pandemia em curso.

Diante desse cenário, o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião tem questionado os gaúchos sobre a possibilidade de ir votar, em um cenário de pandemia. Em média, 30% dos gaúchos afirmam que não irão votar ou que dependerá de como estiverem os indicadores da pandemia em novembro.

Essa é uma questão difícil de opinar, muitos entrevistados dizem que precisam de mais subsídios para avaliar. Dentre as preocupações está presente a logística de organização do pleito, sendo que o eleitor tem mais perguntas do que respostas:

a) como será o processo de distanciamento social, desde a entrada dos prédios?

b) terá um controle do número de pessoas ingressando nos prédios?

c) serão revistas as seções eleitorais que têm espaços físicos limitados e grande aglomeração de pessoas?

d) haverá horário especial para o grupo de risco e idosos?

O grupo de risco e o de maior faixa etária são os que mais apoiam o isolamento social e se preocupam com o processo eleitoral, indicando a possibilidade de não participação ao pleito. Ao contrário, os que estão na atividade cotidiana das ruas e que defendem a economia por uma questão de subsistência básica, indicam que irão participar.

Essa “dicotomia comportamental” irá dificultar a vida dos candidatos que terão que equalizar os seus discursos motivando a importância do voto.

 E vai exigir muita atenção e cuidado da Justiça Eleitoral, que terá que montar um protocolo que dê conta das diferentes realidades dos colégios eleitorais desse país e que dê segurança a toda população, em especial, à que está no grupo de risco.

Essa pandemia nos traz um “novo normal” para o dia a dia, um “novo normal” para decidir o voto e até mesmo um “novo normal” para se ir votar.

As lições da pandemia

22/07/2020 09:21

O dito popular nos diz que “a dor ensina a gemer”. Essa lição clássica traz consigo a máxima de que só valorizamos algo quando o perdemos. Quem não ouviu aquela frase célebre, existente na maioria das famílias: “você só vai dar valor a tal coisa quando não tiver mais”.

Esse exemplo tem sido a principal lição do coronavírus: nos ensinar a reconhecer e a valorizar o que tínhamos! A olhar para coisas simples da vida que estavam sempre à nossa disposição e que, hoje, nos fazem muita falta.

Estávamos tão absorvidos pelo ritmo acelerado imposto pelas regras e protocolos do dia a dia (sejam de trabalho, de estudo ou de conquistas), que não gastávamos muito tempo observando o que tínhamos, mas o que queríamos ter. Não prestávamos tanta atenção no “ser” e sim, no “ter”.

E a pandemia apareceu de uma hora para a outra, criando uma grande ruptura em nosso cotidiano, “bagunçando” a nossa vida e nos ensinando o valor de coisas importantes de nossa existência. Despertando os mais diferentes tipos de saudade, que nos permitem fazer uma lista de perdas momentâneas:

Hoje sentimos falta dos abraços, beijinhos e apertos de mão.

De visitarmos nossos pais ou avós com frequência. E os nossos pais e avós sentem falta de sua liberdade. De fazerem coisas simples, como a ida ao supermercado, ao banco ou até mesmo uma visita ao amigo.

Sentimos falta das reuniões de família e até daquele parente mais chato.

De ir a um aniversário, casamento ou em festas típicas de cidades, daqueles pavilhões cheios e filas homéricas.

Lembramos com saudades daquelas rodas de chimarrão entre amigos.

E das festas da noite, onde um esbarrava ou se apoiava no outro.

E a galera jovem sente falta dos encontros, paqueras e amassos e até daqueles trabalhos em grupo, onde sempre tem um colega folgado que não faz nada.

As crianças estão desoladas por não encontrarem os amigos, não compartilharem e socializarem aprendizados, brincadeiras ou até mesmo do conflito (aquele desentendimento onde se diz “não sou mais teu amigo”, seguido da lição clássica de pedido de desculpas e do abraço).

As crianças também sentem a falta de convívio com outras crianças da família, por não visitarem os primos e não terem aqueles dormidões na casa dos avós.

Os estudantes e professores sentem falta da sala de aula, inclusive das provas e das “muvucas” da escola.

O pessoal que gosta de TV, está com saudade de suas novelas ou seriados. E o pessoal das artes, cultura e turismo não vê a hora de tudo isso acabar. Vivem um misto de saudade, nostalgia e esperança.

Sentimos falta da possibilidade de sonhar com férias ou com uma viagem para a casa de um parente.

Há muita saudade do esporte, seja por quem pratica ou aprecia campeonatos. Quem acompanha o futebol e vibra com o seu time, não vê a hora de ver a bola rolando, valendo o campeonato. Para essas pessoas a saudade da torcida presente no estádio é imensa, é como se estivessem sem o seu remédio natural contra o estresse.

A saudade também é severa para aquelas pessoas que estão impedidas de trabalhar. É uma saudade que vem acompanhada de medo, preocupação, em especial para aqueles que não têm renda fixa.

E a pandemia tem prejudicado até o rito de despedida de um ente querido, criando a sensação de que “algo ficou faltando”.

A lista de lições que a pandemia está nos dando é imensa. A grande pergunta é: como vamos lidar com as essas perdas e, principalmente, que pessoas seremos depois de tudo isso?

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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