O jeitinho faz o errado virar certo

18/02/2020 15:10

Muitas vezes se dá um jeitinho, sem saber que se está dando um “jeitinho”. A frase parece redundante, mas representa a realidade. O jeitinho brasileiro é a capacidade de resolver problemas ou tarefas utilizando subterfúgios, burlando regras, utilizando-se de redes de relacionamentos e tirando vantagens pessoais. Como a nossa cultura política é de negação e desinteresse, colocamos a culpa nos políticos e passamos a fazer o que achamos, sem levar em consideração as regras, sem observar os limites e as orientações, sem se preocupar que o direito de um termina quando começa o do outro.

A prática do jeitinho deturpa a moral e confunde a sociedade, fazendo com que o certo vire errado e o errado vire certo. Para ser mais clara, vou ilustrar com uma história pessoal. Quando minha filha tinha uns 11 anos de idade uma professora me perguntou porque ela não tinha rede social, porque não tinha uma página no Facebook? Afinal de contas, a maioria dos seus colegas já tinham.

Minha resposta foi direta: porque a política de uso das redes sociais não permite que menores de 13 anos utilizem redes sociais. Só pode ter página no Facebook e no Instagram crianças com idade igual ou superior a 13 anos e que isso ficava claro quando se colocava a idade no sistema. A professora prontamente me orientou, que bastava alterar a idade da criança que o problema estaria resolvido.

Aproveitei a oportunidade para fazer uma reflexão com a professora. Se existe uma regra no sistema e, que está associada a uma política de uso de redes sociais, como posso pensar em quebrar a regra adulterando a idade? Dando esse jeitinho brasileiro eu estaria ensinando a minha filha a burlar uma regra com a prática de um crime, pois adulterar uma informação é como gerar uma declaração falsa, que poderia ser enquadrada como crime de falsidade ideológica. O crime de falsidade ideológica é quando se utiliza um documento ou uma declaração falsa para alterar um direito, prejudicando ou favorecendo alguém.

Claro que a professora ficou desconcertada e não tinha pensado na complexidade da situação, afinal de contas, é tão comum alterar a idade para burlar o sistema, é tão comum ver crianças com páginas no Facebook ou no Instagram. Esse é um exemplo prático que mostra que, quando o errado vira certo, faz com que os pais não tenham noção de que estão expondo seus filhos a todos os riscos da internet.

Tanto o Facebook quanto o Instagram recebem denúncias de páginas com menores de 13 anos e, após avaliação do moderador, esses perfis podem ser excluídos. Como o jeitinho permite que o errado vire certo, olhamos as páginas de crianças e fazemos de conta que está tudo certo. No caso do WhatsApp, a orientação do sistema é que o mesmo não seja utilizado por menores de 16 anos. Nos Termos de Serviço, o aplicativo deixa claro a exigência da idade mínima. Mas a maioria dos pais desconhece ou ignora essa regra.

Os grupos de Whats são a sensação das crianças e adolescentes, pois toda a criança gosta de se sentir como um adulto. E ter um Whats permite a uma criança falar com o seu amigo no horário que quiser, sem ter a permissão dos pais. Mas também favorece que a mesma criança/adolescente receba vídeos que dão a entender que a “Dancinha da Rasteira” (Quebra-crânio) é uma coisa bacana, sem se dar conta de que é uma “modinha” que pode matar, como ocorreu na Escola Municipal Antônio Fagundes, em Mossoró, no RN. 

O futuro “apartheid tecnológico” do mundo do trabalho

11/02/2020 10:45

O título desse artigo parece complicado, mas tem o objetivo de fazer uma reflexão sobre onde estamos e para onde vamos. Por princípio, o apartheid é um termo que traz consigo um contexto histórico de um sistema político utilizado na África do Sul e, atualmente, ainda é utilizado para descrever qualquer tipo de política ou prática que separa as pessoas de acordo com a sua raça.

Quando escrevo sobre o “apartheid tecnológico” me refiro à separação natural que está ocorrendo entre as pessoas que sabem usar a tecnologia e as que não sabem e, principalmente, o que irá ocorrer com as pessoas que sabem trabalhar com a tecnologia e com as que não sabem.

Estamos vivendo uma revolução tecnológica e digital que está impactando no mundo do trabalho, que exige uma readaptação do mercado de trabalho e um constante reaprendizado dos trabalhadores.

Conforme a tecnologia vai entrando, vagas de trabalho vão sendo eliminadas. A tendência é que qualquer trabalho que seja rotineiro ou previsível seja assumido por uma tecnologia, por um algoritmo matemático. Nessa lógica, a tecnologia está eliminando os ascensoristas cabineiros de elevador, os porteiros de edifícios, os auxiliares de pedreiro e tantas outras profissões que não precisam de qualificação profissional.

Mas os exemplos não param por aí, também entram nesse debate profissões que exigem uma certa escolaridade, como vendedores de varejo, cobradores de ônibus e até bancários. E o debate fica mais complexo quando se questiona a tendência de eliminar profissões que exigem curso superior como economistas e contadores, entre outros.

Os analistas tecnológicos afirmam que não há com que se preocupar, pois algumas profissões estão acabando e outras estão surgindo. Um exemplo prático são as profissões que trabalham com aplicativos (como Uber, IFood, Rappi, etc.). Essas pessoas são “donos dos seus instrumentos de trabalho” (que pode ser o carro, a bicicleta, etc.) e podem ser classificadas como empreendedoras.

Essa lógica cria um novo conceito chamado de subtrabalho, que é a substituição do trabalho formal e que traz consigo a chamada precarização do trabalho (onde o trabalhador não tem direitos trabalhistas e precisa trabalhar mais horas por dia para garantir uma renda média).

Quando se pensa em um futuro próximo, temos um grande contingente de pessoas que não estão sendo preparadas ou requalificadas para trabalhar por aplicativos e, muito menos, sendo educadas para comandar máquinas ou programar e analisar dados. Essa falta de preparo está criando o “apartheid tecnológico” que irá resultar em uma parte da sociedade usufruindo do que é oferecido pela tecnologia e outra parte da sociedade sendo excluída, sem trabalho e rendimentos fixos.  

Essa reflexão precisa nos levar a uma avaliação do nosso sistema de educação formal, de como as escolas estão preparando as nossas crianças e adolescentes para atuarem nesse futuro contexto profissional de tecnologia.

Com o avanço da tecnologia sem o devido preparo da sociedade, a falta de oportunidades de trabalho irá se agravar entre aquelas pessoas que tem ensino fundamental, independentemente da idade. E esse fenômeno tende a ampliar a desigualdade social.

O debate do tema é urgente e precisa envolver a academia, instituições e políticos e resultar em políticas públicas que efetivem um sistema de requalificação e educação condizente com a tendência do mercado.

Qual foi sua melhor experiência de compra?

04/02/2020 09:48

Com a ampliação do mix de produtos e da quantidade de ofertas, temos muitas opções de compra e serviços especializados à disposição. Encontramos uma farmácia ou um pet shop em cada esquina e quanto maior a cidade, maior a variedade de lojas, de restaurantes temáticos, cafés e bares estilosos, bancos com atendimento vip e profissionais que oferecem serviços personalizados.

E esse cenário é potencializado pela era da internet, que tem revolucionado o mercado com seus aplicativos, sites de comparação de preços e atendimento por inteligência artificial. A tecnologia nos permite pesquisar e comprar com segurança, praticidade e comodidade.

Com tantas possibilidades, como você faz para diferenciar uma proposta da outra? E o que faz você fidelizar uma marca? Essa é a grande pergunta que as empresas, dos mais diferentes segmentos do mercado, fazem ao IPO – Instituto Pesquisas de Opinião.

O preço é sempre um fator relevante e que você, provavelmente, leva em conta na hora da compra. Mas nem sempre o preço define a compra ou a utilização de um serviço. Se você parar para pensar, vai ver que junto com o preço há um gatilho, um motivador que define a sua escolha. E esse gatilho é como se fosse um despertador, algo que chama a sua atenção e, a partir dele, você passa a avaliar todo o contexto de forma integrada e é o que define a sua experiência de compra.

A interação que ocorre na sua experiência de compra está ligada a três momentos: a pré-compra, a compra e o pós-compra.

No melhor cenário, cada um desses momentos pode ser especial e lhe encantar, fazendo com que você tenha vontade de voltar. Em um bom cenário, você pode ser surpreendido em um desses momentos, ter a experiência como uma referência e pensar em voltar. E o pior cenário é quando os três momentos oferecem experiências negativas e você tem a certeza de que não volta mais.

Para ficar mais claro, vamos pensar em uma situação real de pré-compra, que é motivada por uma necessidade imediata. Você está no centro da cidade fazendo compras e seu celular está com pouca bateria, no caminho há uma cafeteria. Quando entra, você verifica se há tomadas perto das mesas, pede a senha do Wi-Fi e só depois pensa no cardápio. Tudo isso precisará acontecer com a paciência e cordialidade da atendente.

Chega o momento da compra, você escolhe o café e conforme for a apresentação do cardápio, o apelo visual e a atmosfera do local, você pode até ampliar a sua compra, consumindo um acompanhamento.

Se o local tiver uma decoração bacana e placas com textos motivacionais você pode até fazer um storie para suas redes sociais. Se a qualidade dos produtos for condizente com ambiente e com a qualidade do atendimento, você não irá se importar de pagar um pouco mais do que o café do bar que fica na outra esquina. Afinal de contas, você não comprou apenas o café, você comprou toda a experiência!

Quando o consumo acaba, você é atendido com agilidade, presteza e sem cara feia se você não tiver trocado para pagar a conta.

Se a experiência de compra foi positiva despertará emoções e lembranças que irão estimular a sua fidelidade, e quando você vê já está promovendo aquela cafeteria, contando como foi legal, indicando a um amigo. O contrário também é verdadeiro, se a experiência for ruim, você será um detrator natural, que relata o que aconteceu.

E você já parou para pensar quais foram as suas boas experiências de compra?

Onde vamos parar?

28/01/2020 18:22

Essa é uma pergunta que ouço muito e em diferentes campos de nossa realidade. Quando falo em “diferentes campos” estou me referindo ao conjunto de situações que compõem a nossa vida. Temos vários “papeis sociais”: somos filhos, somos pais, somos amigos, somos colegas, vizinhos, também somos alunos, profissionais e dividimos o mundo com alguém. Além disso, ainda somos consumidores, eleitores, cidadãos e usuários de redes sociais. E como a novela da vida permite muitos papéis, também podemos ser autores ou réus de um processo.

Ufa! São tantos “papeis sociais” e temos cada vez menos tempo e menos noção do script a ser seguido. Somos atores de um espetáculo sem roteiro definido. Começamos uma tendência de cada um fazer o que quer, o que tem vontade, de ir atrás de seu sonho. Em muitos casos o sonho é volátil, muda conforme muda o humor, as relações de amizade ou uma postagem bacana de um influenciador digital. Ora a pessoa pode querer uma coisa, ora pode querer outra coisa. Em uma conjuntura onde só se pensa no hoje, não há um cálculo dos custos de uma decisão.

Todas as escolhas de nossa vida têm um custo, uma consequência. Muitas vezes, para desenhar a trajetória a mercê de nossas vontades e expectativas é necessário ignorar ou romper com os ensinamentos de nossos pais e avós. E quando fizemos isso perdemos o nosso oráculo, a nossa história, nossa referência e até mesmo nossa identidade e valores.  

E após essa reflexão, volto a minha pergunta inicial: onde vamos parar? Ouço essa pergunta rotineiramente quando uma pessoa está avaliando os problemas cotidianos que enfrenta com os jovens. E não vamos pensar apenas em adolescentes, o atual conceito de jovem vai até 29 anos.

A inquietação com futuro faz pais relatarem a falta de respeito e de foco de seus filhos. Chefes reclamam cada vez mais da falta de interesse e de comprometimento de seus funcionários. Os professores falam da indisciplina de seus alunos. E até o mundo político se preocupa com o baixo engajamento dos jovens no debate sobre o futuro.

Esse debate é maior do que os ruídos naturais de um choque entre gerações. Os pais, os professores e os chefes fazem essa pergunta pois não percebem propósito, um caminho possível, onde esses jovens irão chegar! Percebem jovens cada vez mais ansiosos, tristes, frustrados e até deprimidos.

E isso ocorre porque o alcance de um sonho exige dedicação, esmero, muito foco, capacidade de relacionamento, construção de uma rede de apoio e solidariedade. Temos que ter a noção de que estamos no caminho inverso, pois o crescente individualismo motiva o egoísmo, a solidão e, principalmente, a impaciência. Sem paciência, o caminho se torna mais difícil e as pedras intransponíveis.

O “modelo mental atual” pressupõe que, futuramente, esses jovens irão ser pais, irão ser professores e irão ser chefes. Mas se não se dedicarem para essas metas, como será? Isso irá acontecer?

Os visionários afirmam que não há preocupação, pois esta se construindo um “novo modelo mental”, onde a tecnologia resolverá a maior parte dos problemas, basta ter o aplicativo certo.

A inovação pode redesenhar os papeis sociais mas, para tanto, teremos que evoluir de um estágio para o outro. Teremos que ser senhores de nossa história, e saber onde estamos e para onde vamos. Essa caminhada precisa ser feita com valorização de nossas origens e com o reconhecimento de que precisamos dos outros e que eles precisam de nós.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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