A globalização da indiferença

15/01/2020 08:06

No final de ano, minha tia Helena disse que lê meus artigos, mas tem coisas que ela não entende. Na prática ela me disse que eu precisava escrever de uma forma mais simples!

Fiquei pensando na crítica de minha tia, o que fortaleceu meu desejo de transmitir o que aprendo de uma forma mais clara, em melhorar minha narrativa. Fiquei pensando no meu propósito, nas informações que eu tento passar quando escrevo. E ficou mais nítido que minha missão é simplificar o conhecimento sociológico, mostrar que a sociedade é composta por diferentes pensamentos e a compressão da opinião pública nos ajuda a entender que somos diferentes em algumas coisas e iguais em outras tantas.

E em meus pensamentos ficou passando uma retrospectiva das mudanças sociais que tenho acompanhado através das pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião. Algumas dessas mudanças são naturais, fruto da evolução da humanidade ou das mudanças geracionais (das diferenças entre as faixas etárias). E outras, que estão causando doenças sociais, que precisam ser tratadas com conhecimento, reflexão, debate, muita educação e uma mudança cultural.

Revisando os temas percebi que meus artigos mostram fenômenos relacionados entre si e todos eles têm como base a ampliação do individualismo, uma doença social que diminui o sentimento de comunidade. Mas por que esses temas deveriam ser destacados em artigos direcionados à população de forma geral? Se as pessoas estão sendo individualistas e não querem saber de política, elas não querem saber desse debate.

Seguindo a orientação de minha tia, fiquei revisando uma forma simples de falar sobre o assunto. E a inspiração foi o Papa Francisco, que trata temas complexos com a alma e está sempre alertando que a sociedade não pode se alienar para temas que influenciam no seu presente e decidem o seu futuro.

O Papa Francisco fala da globalização da indiferença, de uma cultura de conflito que nos faz pensar somente em nós mesmos, que nos faz viver dentro de uma bolha, que parece agradável pois podemos “bloquear” quem nos incomoda ou nos critica. Ele alerta que estamos ficando acostumamos com o sofrimento dos outros e que isso tem diminuindo nossa sensibilidade, nosso senso de coletividade.

Esse comportamento de indiferença é resultado da ampliação do individualismo. Ninguém se sente responsável por nada. Ninguém é responsável pela desigualdade social e pela miséria dos outros, ninguém é responsável por praticar um jeitinho e tirar vantagem em cima do outro, ninguém é responsável por poluir o meio ambiente. O Papa nos ensina que quando não existe culpado, todos somos culpados.

O individualismo é uma preocupação comigo mesmo, que motiva a indiferença, a intolerância e o desrespeito. Afinal de contas, o que importa é o que eu penso, é o que eu quero, é o que eu gosto.

É um cenário influenciado pela tecnologia, de uma mudança cultural causada pelo smartphone e as redes sociais. É um contexto que somos afetados com reinvenções contínuas, mudanças instantâneas, onde tudo ocorre com muita velocidade e com curto prazo. E nessa jornada vamos nos desconectando dos nossos valores, de nossas crenças, de nossa origem

E tudo isso ocorre em uma escala global. O individualismo é uma transformação social global e precisamos ter consciência do que está ocorrendo, para sermos protagonistas de nossa própria história e mantermos os princípios que nos fazem seres humanos: a capacidade de pensar e de amar o outro.

A empatia como antídoto para intolerância

08/01/2020 10:55

Temos visto a intolerância se fazer cada vez mais presente e se expressar em pensamentos polarizados, intransigência, repressão, racismo, sexismo, homofobia e nas mais diversas formas de preconceito. A história nos mostra que o principal antídoto para a intolerância é a ampliação da tolerância.

Para ampliar a tolerância é necessário empatia, capacidade de compreender o outro, de se colocar em sua situação. É uma tarefa que exige inteligência emocional, tanto para compreender o contexto de uma situação quanto para observar as suas motivações. Exige a mais simples das qualidades: a paciência!

A modernidade ampliou os direitos individuais e a liberdade de expressão. Com ela, veio a necessidade de evolução constante, com a exigência de mais anos de estudo e dedicação permanente à carreira profissional. E ainda apareceram as redes sociais, ocupando cada vez mais o tempo das pessoas.

Essa combinação trouxe consigo fatores estressantes e potencializou a ampliação do individualismo e a ideia de que cada um pode ser um “juiz de plantão”, que pode julgar e condenar moralmente qualquer pessoa, a qualquer tempo.

Somos seres sociais e emocionais e o cotidiano acelerado e cada vez mais frenético, aliado à diminuição de valores e crenças, tem reduzido nossa capacidade de lidar com algo que não se enquadre em nossas expectativas ou exigências. E nesse contexto, a intolerância ganha força!

A intolerância vai crescendo dentro de um círculo vicioso que está sendo permissivo para a sociedade. Imagine uma situação trivial, onde uma pessoa faz uma postagem na internet manifestando a sua opinião sobre a importância de se dar mais atenção às crianças do que aos animais. Dependendo da forma como essa pessoa escrever o texto, poderá ser criticada severamente por quem gosta de animais. E a partir daí o debate entra em um campo de desrespeito, onde um é intolerante e julga o outro sem entrar no principal mérito do debate: tanto as crianças quanto os animais precisam de atenção.

Quando ficamos mais individualistas, ativamos o egoísmo e ficamos suscetíveis à ansiedade, ao estresse e à depressão. E nesse cenário, qualquer sinal de preconceito ou de rejeição ativa a possibilidade de intolerância, que se manifesta pelo desrespeito.

Para combatermos o preconceito ou a rejeição precisamos ampliar nosso relacionamento social, a nossa interação social. Para tanto, o principal desafio é ampliar nossa capacidade de aceitação, que se estabelece em diferentes níveis:

1º) A capacidade de autoaceitação, ter consciência de que o ser humano precisa se aceitar, se sentir bem no meio social do jeito que é e não querer que ninguém seja igual a ninguém. A primeira meta é se aceitar, para influenciar a percepção da família e o julgamento da sociedade.

2º) A aceitação familiar, que exige a compreensão de que as pessoas são diferentes e de que a família é composta por distintas caraterísticas e personalidades. A família deve ser o berço do respeito, da generosidade, da compressão, da igualdade e da dignidade. A relação familiar tem o poder de diminuir o individualismo e a intolerância e de estimular a empatia.

3º) Aceitação social, que inclui a capacidade de diálogo e de respeito em todos os tipos de relacionamentos: seja na escola, no trabalho, na vizinhança ou entre amigos. A aceitação social necessita de tolerância e de muito exercício empático: para entender o outro, preciso me colocar em seu lugar!

Ano novo, leis novas

31/12/2019 10:04

O dito popular nos ensina que “ano novo, vida nova!”. Na virada, paramos e refletimos sobre os acontecimentos do ano e repensamos nossas práticas, reavaliando o ano seguinte. Uns reclamam e se mantém na mesma lógica, outros renovam as esperanças e estabelecem novos objetivos de vida e tem até quem faz anotações de metas para o ano seguinte.

Como passei o ano dizendo que “precisamos salvar a política”, não vou perder a oportunidade de lembrar que a política está sempre alterando a nossa vida em sociedade. Salvar a política começa pelo hábito de se informar, de conversar sobre o tema e acompanhar os debates e as leis que alteram o nosso cotidiano, a nossa vida.

Vale a pena dar uma olhada na síntese de projetos e leis que foram aprovados pelo Senado Federal em 2019 e podem fazer a diferença em 2020:

- Reforma da previdência (que alterou as regras da aposentadoria);

- Pacote anticrime (que endurece as leis penais);

- Feminicídio como crime imprescritível e inafiançável (o acusado poderá ser investigado em qualquer tempo);

- MP da Liberdade Econômica (que favorece a desburocratização e facilita a vida do empreendedor);

- Cadastro positivo (destaque para os bons pagadores);

- Animal não é coisa (são dotados de natureza biológica, emocional e passíveis de sofrimento);

- Poluição ambiental que resulta em morte é crime hediondo (o projeto foi motivado por tragédias como Mariana e Brumadinho);

- Ressarcimento ao SUS e ao INSS em caso de violência doméstica (obrigando o agressor a bancar os custos com saúde ou afastamento ao trabalho);

- Meia entrada em eventos para doadores de sangue (para quem fizer pelo menos três doações por ano);

- Transferência de feriados para segunda-feira (feriados nacionais que caírem entre terça e sexta podem ser adiantados para segunda-feira, as exceções são Natal, Ano Novo, Sete de Setembro e Carnaval);

- Stalkear vira crime (punição para quem persegue sistematicamente alguém na rua ou no mundo digital);

- Exame de câncer em 30 dias pelo SUS (com suspeita de tumor maligno - já está em vigor);

- Posse de arma em toda propriedade rural (a arma pode ser usada dentro e fora da residência);

- Medida protetiva de urgência (tanto a autoridade judicial como a policial poderão determinar o afastamento do agressor, verificada a existência de risco atual ou iminente à vida ou à integridade física da mulher em situação de violência doméstica);

- Multa por discriminação salarial de mulheres (assegura salário igual para homens e mulheres na mesma função e na mesma atividade);

- Auxílio família para quem não tiver vaga na creche pública (para famílias de baixa renda com crianças de 0 a 5 anos);

- Prioridade no divórcio para vítimas de violência doméstica;

- Política de prevenção do suicídio (estabelece medidas como o atendimento telefônico gratuito e notificações compulsórias desses casos e torna obrigatório o atendimento pelos planos e seguros de saúde);

- Multa para quem fumar com menor dentro do carro.

Se você quer saber mais sobre um projeto ou lei que lhe interessa, dá um Google! Digite o nome da lei e coloque ao lado “Senado Federal”. Assim terá informações detalhadas sobre seus direitos e deveres.

E se você está on-line, já dê uma olhada nos projetos de leis aprovados pela Câmara de Vereadores de seu município. De uma analisada nas atividades do vereador que você votou nas últimas eleições.

Em 2020 tem eleição municipal e cada um de nós tem a responsabilidade de “salvar a política”.

Quando o Papai Noel chega, as contas aumentam

24/12/2019 09:57

O Natal é mágico! Por suas histórias, por sua simbologia, pela capacidade de humanizar o nosso dia a dia e motivar a confraternização, a solidariedade e a explicitação dos gestos de gratidão e amor. Para os cristãos, o Natal representa o nascimento de Jesus, que veio ao mundo para salvar os homens de seus pecados. 

O Natal é representado pela árvore de Natal que tem sua origem em povos antigos que cultuavam o animismo (primeiro sistema de crenças), e em seu topo pode ter a estrela, que é um dos símbolos da cultura Cristã. Sabemos que o ano está acabando quando observamos as lojas colocarem os enfeites de Natal. Quando isso acontece, começa o “frenesi” de final de ano e a preocupação com a ampliação das contas, do endividamento familiar. 

O final de ano chega e com ele se amplia o número de contas e pagamentos: chegam os boletos de IPTU, de IPVA, de seguro, a renovação das matrículas escolares, tem a compra de presentes, as férias e o pagamento de contas atrasadas. Não é à toa que a maior parte dos gaúchos utilizaram o décimo terceiro ou a parcela do FGTS para pagar dívidas atrasadas. 

Atualmente, 2/3 das famílias brasileiras estão endividadas. O último levantamento divulgado pela Confederação Nacional de Comércio, Bens, Serviços e Turismo (CNC) indica que 1/4 das famílias estão inadimplentes (pessoas que têm contas ou dívidas em atraso) e quase 10% dos brasileiros não têm condições de pagar as suas contas. 

O cartão de crédito é o principal tipo de dívida do brasileiro (78,9%) e o principal motivador de endividamento. O crédito facilita a compra, motiva a compra por impulso e, para alguns, o cartão de crédito é um dinheiro que parece infinito, até que o sonho se torna um pesadelo. 

E o “bom velhinho” chega fazendo barulho, com muitas estratégias de marketing e promoções. Isso faz com que muitos desejos reprimidos e expectativas de consumo se tornem realidade em muitas famílias. Na maioria dos casos, a intenção de compra está associada ao mercado de eletroeletrônicos: trocar a televisão, o celular, a geladeira, a máquina de lavar ou até mesmo adquirir um ar-condicionado.

Os mais jovens se preocupam com o guarda-roupa. Tanto em termos de vestuários, como calçados e acessórios. A galera também está sempre de olho nas inovações tecnológicas e se o limite do cartão estourar, até se arriscam a fazer um carnê para comprar parcelado. 

Cerca de 1/4 da população se preocupa com os recursos para as férias. Algumas famílias fazem o devido planejamento. Outras famílias têm suas férias definidas pelas oportunidades que vão aparecendo e, cada vez mais, as férias ou os passeios estão associados ao apoio e motivação da rede de relacionamento. Significa dizer, que a casa de praia de um parente ou amigo é sempre uma possibilidade a ser avaliada.

As pesquisas de intenção de compra em datas festivas e o grau de comprometimento de renda e endividamento da população indicam que a educação financeira não é o forte do brasileiro e que a mesma deveria ser um tema de currículo escolar. Precisamos aprender a definir o que é útil e necessário, o que realmente importa. E ter claro o que é supérfluo ou nos motiva apenas em função da moda, da pressão social.

O que mais importa no Natal é a celebração em família, a cumplicidade e a empatia entre as pessoas. E como a empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro, o Natal inspira o perdão e a compaixão, até com quem gastou mais do que podia!

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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