A ampliação do descrédito: mais indivíduo e menos coletivo

20/02/2018 16:44

Por princípio, a democracia está associada a cidadania. Para entender os dilemas da democracia é necessário entender os dilemas da cidadania.

A cidadania está associada a direitos e deveres do indivíduo (cidadania individual) e de grupos sociais (cidadania coletiva). A cidadania individual remete a liberdade e a autonomia de um indivíduo (desde o direito à vida, a propriedade até o direito ao voto). A cidadania coletiva está associada ao direito, a participação e representação política e a capacidade de mobilização através de lutas que representem grupos sociais (desigualdade social, desemprego, etc). A cidadania coletiva também deve tratar de temas relacionados a minoria, mas não pode se perder de sua essência: que são as lutas da maioria.

A maior parte dos estudos opinativos desenvolvidos pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião no RS indica que a maioria da população é favorável as manifestações, apoia mobilizações de rua contra a reforma da previdência, contra a corrupção entre outros.  Entretanto, trata-se de um apoio moral, uma terceirização de responsabilidade. Mais de 70% concorda com as manifestações, mas apenas 10% afirma que participaria (desde que tivesse a convicção de que não houvesse interesses políticos escusos).

Mas por que a população terceiriza a responsabilidade?

Verifica-se um alto nível de desinformação, de apatia, ceticismo e descrédito em relação à política. Os eleitores não acreditam nos partidos e na política e essa descrença forma uma apatia social em relação as decisões políticas que atingem o cotidiano. É como se fosse uma negação da cidadania coletiva, a percepção de que não vai dar em nada ou de que alguém ganha com as lutas coletivas, que não o indivíduo. A tendência das pessoas é se preocupar com as suas lutas individuais, com a resolução de seus problemas.

A desinformação e o desinteresse da maior parte do eleitorado não são um reflexo de sua suposta irracionalidade, mas antes, o resultado de uma cultura política cética e personalista, um modus operandi de relacionamento com a política que tem se intensificado nos últimos anos.

A descrença com os partidos e a política faz parte de um processo de construção da cultura política do país, de uma democracia que não estimula a participação política, o exercício da cidadania.

Há vários desafios pela frente para restabelecer a crença da população e fortalecer a cidadania coletiva. Estes desafios perpassam a reflexão da cultura política vigente e de sua relação estreita com o jeitinho brasileiro e termina na reforma do sistema político, que deve reprimir a corrupção e fomentar a participação.

Como entender o voto em Bolsonaro

06/02/2018 17:00

O artigo sobre os principais fatores de motivação do voto em Lula suscitou questionamentos sobre os motivos que sustentam o voto em Bolsonaro.

Enquanto Lula tem dois motivadores de votos (entre os simpatizantes do PT e os beneficiários de programas sociais), Bolsonaro ocupa espaço entre os eleitores que se sentem abandonados pelo Estado. São eleitores que já sofreram alguma mazela pessoal e não confiam mais no discurso do político tradicional: querem alguém que efetivamente os representem:

a) Os indignados com a corrupção = Eleitores que intencionam votar em Bolsonaro pelo princípio da ética, afirmam que Bolsonaro é verdadeiro, espontâneo: diz o que pensa, o que precisa ser dito. Dentre estes eleitores se destacam jovens que acreditam e até idolatram Bolsonaro. É como se Bolsonaro representasse a angústia reprimida, a indignação perante a falta de princípios que se expressam nas práticas do jeitinho brasileiro.

b) Os que se sentem inseguros = Esta parcela de eleitores de Bolsonaro teme a situação do país, se preocupa com o aumento dos índices de criminalidade (em especial os associados ao crime organizado) e acredita que Bolsonaro não estaria comprometido com conchavos políticos e corporações, tendo condições de enfrentar os principais dilemas que atingem a sociedade na área da segurança pública. Na percepção destes eleitores Bolsonaro é um político de coragem e, portanto, tem condições de liderar.

c) Os que almejam pelo discurso da maioria = Se constituem por eleitores que não se sentem inclusos nos discursos de minorias e acreditam que há um vazio na defesa do conceito de família, no conceito de trabalhador, na defesa das pessoas de bem. Estes eleitores que não se interessam por política e que não tem ideologia, tem apenas um sentimento de falta de identidade. Nesta lógica entra o voto nacionalista, seguindo a tendência da eleição de Trump. É um raciocínio que pode crescer durante o processo eleitoral e se a agregar temas como ética e segurança pública.

d) Os que argumentam com critérios políticos = Caracterizam-se como o menor e mais marcante grupo de eleitores de Bolsonaro. São eleitores conservadores e que, declaradamente, tem consciência política de sua opção. São eleitores com tendência à direita, alguns defendem a ditadura ou até mesmo raciocínios homofóbicos ou racistas. São os eleitores mais radicais de Bolsonaro e vão se manifestar se a onda Bolsonaro se tornar um tsunami.

Para uma grande parcela do eleitorado é difícil compreender a intenção de voto em Lula e em Bolsonaro e esta grande parcela poderá ser responsável pela decisão eleitoral no Brasil, desde que saia de sua apatia social

Como entender o voto em Lula

31/01/2018 15:50

É recorrente chegar, a um instituto de pesquisas como o IPO, questionamentos sobre os motivos pelos quais os eleitores intencionam votar em Lula, mesmo diante de processos e de uma condenação.

Para entender este fenômeno, excluindo os eleitores com relação orgânica ou histórica com o PT, é importante observar duas vertentes de análise:

a) cultura política vigente no país;

b) o papel dos programas sociais de Lula.

Em termos de cultura política temos como cerne todos os vícios do clientelismo, do personalismo e do patrimonialismo. Esta cultura política foi reforçada pela premissa da corrupção endêmica (ativada pela operação Lava Jato) e ampliou a desconfiança, o ceticismo e a descrença da população em relação aos políticos e a política. O eleitor que antes dizia que não gostava de política, hoje não quer nem ouvir falar sobre a mesma.

Atualmente a maior parte dos brasileiros não confia nos partidos políticos. Não confia em nenhum partido! Os eleitores não confiam na maior parte das instituições de representação política, como as Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional.

Ora, se o voto personalista se constituiu como a égide da decisão eleitoral e a percepção que vigora é a de que todos os políticos são corruptos, como o eleitor faz para diferenciar? A decisão do eleitor, que se mantém distante da política e vota em Lula, parte do pressuposto que todos os políticos se preocupam com seus interesses próprios e a diferença está naquele que além de buscar os seus interesses pessoais, também se preocupa com a população: a antiga premissa Ademarista do rouba, mas faz.

Diante desta lógica cultural que equanimiza a maior parte dos eleitores de Lula, solidificam-se dois fenômenos que se fundem entre si e justificam o voto no petista:

a) a percepção de dignidade humana = é preciso ter em mente que boa parte do eleitorado de Lula recebeu algum benefício oriundo de políticas públicas, através de programas sociais. Nas entrevistas qualitativas o eleitor de Lula sempre conta uma história de vida que tem como base a mobilidade social. Esta mobilidade traz consigo o atributo da dignidade que aparece em vários tipos de relatos:

- Imagine um trabalhador braçal semianalfabeto que vê seu filho ingressar na Universidade pelo ProUni.

- Um trabalhador que atua há anos como auxiliar de serviços gerais e faz um curso do PRONATEC: sente-se um profissional e passa a ter uma identidade como trabalhador.

- Um morador de periferia que mora de favor na casa de parentes ou em sub habitação e consegue a sua moradia no programa Minha Casa, Minha Vida.

b) Quem ganha dignidade retribui com gratidão = Os eleitores que receberam benefícios sociais tiveram melhorias na sua qualidade de vida e, por consequência, na sua autoestima, sentiram-se respeitados ou tiveram o reconhecimento público de seus pares, se sentiram valorizados. Esta dignidade motiva um sentimento de gratidão e, este sentimento, se materializa na intenção de voto em Lula.

Para uma grande parcela da população é difícil de entender porque uma outra grande parcela do eleitorado continua destinando seu voto em Lula. O que parece não fazer sentido, está imbuído de sentido e de sentimento. 

A geração Y e o mercado de trabalho

26/01/2018 14:10

Um dos debates atuais, do mundo do trabalho, está associado as crescentes disrupturas comportamentais ocasionadas pela geração Y e tantas outras que serão estimuladas pela geração Z, que logo estará no mercado de trabalho.

A geração Y se desenvolveu em uma época de grandes avanços tecnológicos, ampliação das oportunidades na área da educação e com estabilidade econômica. Cresceu brincando de Barbie e jogando videogame. Possui acesso aos mais variados bens materiais e de consumo duráveis e usufruem de um mix variado de alimentação, diferentemente da origem e desenvolvimento de seus antepassados. Para esta geração o mundo está aí e é para ser vivido.

Neste contexto o desafio é compreender o comportamento destes jovens que foram e continuam sendo estimulados por diferentes atividades, tendem a ser ansiosos e possuem certa dificuldade em exercer carreiras subalternas no início de sua trajetória, necessitando de constantes feedbacks.

No ambiente de trabalho o profissional da geração Y é pragmático no que se refere ao exemplo dado pela chefia: não pode haver contradição entre o que o chefe fala e o que o chefe faz.

As expectativas com o trabalho estão associadas à flexibilidade de horário e qualidade de vida. Este profissional não quer ficar preso ao trabalho ou trabalhar aos sábados pela manhã. Não tem vocação para ser workaholic.

O trabalho ideal é aquele que favoreça o desenvolvimento pessoal com o profissional. O desejo deste profissional é conciliar as metas do trabalho com as suas metas pessoais.

A relação com o tempo é a principal fonte de ansiedade desta geração. Estes jovens não gostam de rotina, de ficar fazendo a mesma coisa por horas, precisam de uma pausa ou respiro a cada duas horas. Esta geração não almeja se estabelecer em um único emprego. Se em dois anos a empresa não apresentou um plano de carreira para este profissional, a tendência natural será de novos voos.

 Esta geração tem uma relação mais íntima com a internet do que com os livros. Quando precisam de atualização ou de algum conhecimento específico procuram sites que englobem o maior conjunto de informações sobre o tema em questão.

Para esta geração a cidadania é um tema superficial. Não são motivados a mobilização ou a participação política. A principal adesão desta geração se limita ao compartilhamento nas redes sociais, mas apenas de temas ou ações que tenham credibilidade ou sensibilizem uma pauta específica.

Quanto maior for o conhecimento sobre o comportamento e a tendência de cada geração, maior será a capacidade de relacionamento, de embate ou até mesmo de resiliência. Não podemos esquecer que as mudanças de comportamento estão associadas as mudanças do meio, da conjuntura, do mundo. Sociologicamente, somos reflexos do meio.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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