O eleitor é vítima e cúmplice

20/06/2018 07:38

Nas pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião é corrente as reflexões dos eleitores em relação a origem do comportamento permissivo da maioria dos políticos: “os atuais políticos que nasceram da sociedade foram contaminados pelo vírus da corrupção no exercício do poder ou já subiram ao poder com o vírus do jeitinho brasileiro”?

É uma reflexão angustiante pela premissa de que o eleitor pode “tirar quem está lá e colocar outro com a mesma fragilidade de caráter e cair na lógica do 6 por meia dúzia”. Mas como equacionamos este dilema?

De um lado a democracia pressupõe participação popular e exercício da cidadania. Para tanto tem-se instrumentos democráticos como o voto, o referendo, o plebiscito e a iniciativa popular. São instrumentos que possibilitam o exercício da cidadania, o direito das pessoas contribuírem para o avanço dos direitos coletivos e difusos (de natureza indivisível, que não é de ninguém e é de todos).

Para acessar estes instrumentos a democracia representativa pressupõe representação, na prática as pessoas precisam se organizar em grupos: pais (associação escolar), de moradores (associação de bairro), de profissionais (sindicatos, associações), de cidadãos (movimentos sociais, ONGs, partidos), etc. Para se ter “vez e voz” tem que ter debate, tem que ter embate, tem que ter divergência e tem que ter convergência da maioria. É assim que a democracia foi idealizada!

Mas de outro lado, na prática, temos uma cultura política que nega a política e que historicamente foi aleijada da participação popular, “não foi ensinada a fazer debate e muito menos embate”.

Na primeira instituição social que é a família se critica a participação e os partidos. Na segunda instituição social que é a escola se apregoa a “lei da mordaça” e no cotidiano os comportamentais individuais se destacam em detrimento do coletivo. O interesse pessoal se torna mais forte do que o interesse público e o jeitinho brasileiro vai se tornando uma prática endêmica e sendo a base motivadora de comportamentos corruptos.

Vamos a um exercício básico sobre o “jeitinho brasileiro”. Você sai ileso dos 10 testes abaixo?

- Não dar ou pedir nota fiscal;

- Não declarar imposto de renda;

- Tentar subornar o guarda para evitar multas;

- Falsificar carteirinha de estudante;

- Dar ou aceitar troco errado;

-Roubar sinal de TV a cabo;

-Furar fila;

-Comprar produtos falsificados;

- Bater o ponto pelo colega no trabalho;

- Falsificar assinaturas.

Entre os anos de 2014 e 2017, verificou-se um aumento do reconhecimento da prática do “jeitinho”. Durante esse período, passou de 45% para 60% o percentual de gaúchos que afirmaram a realização de alguma das práticas listadas acima, visando o autobenefício e reconhecendo que a ação praticada pode ter prejudicado outra pessoa.

Esta variação não permite dizer que houve apenas o aumento da prática do “jeitinho”. A indignação social em torno da política também ampliou o debate sobre os males que afetam a sociedade e, dentre eles, a premissa de que o “jeitinho” favorece e até nebula a corrupção. E o reconhecimento da prática do jeitinho brasileiro implica em uma maior consciência sobre o tema: os políticos nascem na sociedade e refletem as práticas e o comportamento dela.

Para construírmos uma política que vise o bem comum e termos uma prática de participação e fiscalização, temos que repensar nossos valores, nossas práticas e a educação que damos aos nossos filhos.

Quem só é servido não aprende a servir

13/06/2018 13:44

Um leitor questionou-me sobre a explicação sociológica para o caso do estadunidense Michael Rotondo, de 30 anos de idade, que foi processado por seus pais que exigiam que o filho deixasse o lar, queixando-se de que “ele não ajudava nas despesas e tarefas domésticas”.

Salvaguardando as análises psicológicas, como no caso da Síndrome de Peter Pan, que apregoa que há pessoas com mais de 25 anos que parecem presas à adolescência, evitando a rotina e as responsabilidades típicas da idade adulta. E, adentrando na análise sociológica, pode se avaliar este comportamento como reflexo de uma cultura social de superproteção dos pais.

Para entender o que está acontecendo com jovens, como Michael, temos que analisar os últimos dois ciclos geracionais, em especial, dentre a população de menor renda e que representa a maior parte da população.

Para fazer este exercício mental vamos pensar primeiro na geração BB (Baby Boomer), que nasceu após a segunda guerra mundial. Estas pessoas tinham muitas restrições econômicas, dificuldade de aquisição de bens básicos, como roupas e utensílios domésticos. Como detinham baixo nível de educação formal atuavam em atividades braçais, mal remuneradas. Diante desse cenário, criaram seus filhos com dificuldades econômicas, mas com muita perseverança, valores e crenças. Estimularam os mesmos a construírem a sua vida e a sua independência.

Assim emergiu a geração X, composta por pessoas que nasceram até 1980. A geração X foi orientada a trabalhar, a conquistar, a superar as dificuldades e ampliar a sua capacidade econômica. A geração X trabalhou muito e aguentou muitas mazelas. Além disso, a conjuntura social e econômica do país também ajudou esta geração!

A geração X teve mais acesso à educação, oferta de emprego e infraestrutura. Pode comprar parcelado, conheceu a estabilidade econômica e melhorou o seu padrão de vida. Nessa circunstância, projetou o seguinte princípio: meus filhos não vão passar pelo que passei.

E neste quadro temos o fenômeno sociológico que está associado a superproteção geracional. Uma geração sempre quer dar a outra geração a capacidade de evolução. Desejamos que os nossos filhos sejam melhores do que nós.

A geração Y chegou e foi servida pela geração X. Estes pais cuidaram dos seus filhos com muito esmero, dando todo carinho que o tempo permitia, mas principalmente, ofertando as condições econômicas que não receberam. Incentivando a estudar e orientando a buscar uma ocupação digna de sua formação. Apoiando o filho a desistir de um emprego onde este se sentia pressionado ou indicando a troca de escola quando havia um conflito.

A geração BB dizia para geração X que ela precisava trabalhar e enfrentar as dificuldades. A geração X diz para a geração Y que ela não precisa se preocupar. Nesse caso, o feitiço está indo contra o feiticeiro!

A geração que foi e está sendo protegida por seus pais, não foi ensinada a superar dificuldades e a persistir. Assimilou a premissa de que tem direitos, mas não teve a mesma orientação em termos de deveres. Estes jovens foram e são servidos por seus pais e se tornaram adultos que têm a percepção de que não precisam servir. Adultos que moram com os pais e dizem que não pensam em cuidar dos pais porque os eles “sabem se virar”.

Diante deste contexto, o caso como o de Michael Rotondo pode ser considerado um produto do meio.  Ele foi educado a receber e não a dar e só está cobrando o que aprendeu!

Por que a democracia está sendo questionada?

05/06/2018 16:38

Durante a greve dos caminhoneiros observou-se placas nas ruas, postagens nas redes sociais e até mesmo manifestações na frente de quarteis pedindo uma intervenção militar. Os manifestantes esclareciam que o pedido de intervenção militar não estaria associado a um regime ditatorial. Desejavam por uma intervenção que assumisse o governo federal até o próximo pleito.

Pesquisa de opinião realizada pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opiniao antes da greve dos caminhoneiros indicou que a maioria dos gaúchos preferem a democracia em detrimento da ditadura. Para uma amostra de 1.500 gaúchos, distribuída de forma representativa nas sete mesorregiões do Estado, realizou-se o seguinte questionamento: “Pensando no debate entre democracia (governo de muitos) e ditadura (governo de um) é melhor para o Brasil... (%)”

- 69,3% se manter na democracia;

- 22,9% ter uma ditadura;

- 7,8% não sabem avaliar.

A preferência por democracia aumenta conforme aumenta o nível de informação e de renda dos entrevistados. Ao contrário, quanto menor a educação formal e a renda familiar, maior é a adesão à ditadura.

A maior parte do percentual de opinião favorável pela ditadura quanto aos pedidos de intervenção militar não estão associados a uma ideologia. Esta opinião surge de percepções, anseios ou até mesmo por mazelas sofridas. Há entrevistados que constrõem a sua conviccão a partir de um argumento e outros que relacionam mais de um dos argumentos abaixo:

1º) Descrença em relação ao funcionamento do Estado e falta de confiança nas instituições. As pessoas de menor renda são aquelas que necessitam mais de políticas públicas e, em muitos casos, também não conhecem ou usufruem de seus direitos;

2º)  Falta de lideranças. A maior parte está insatisfeita, na mesma proporção, com o Presidente da República e com o Congresso (Deputados e Senadores). Está insatifação fomenta a percepção de que os atuais representantes do povo não estão a serviço do povo.

3º) Aumento da sensação de insegurança. Ao perceber que a ampliação da violência não é acompanhada de uma resposta adequada do Estado a população passa a questionar o atual satus quo e, parte do pressuposto, de que um governo militar seria mais eficiente.

4º)  Preocupação com a corrupção. Uma parcela de quem defende a ditadura acredita que “não há mais moralidade nos políticos” e que o país precisa de seriedade e transparência com o interesse público a fim de combater o interesse pessoal e a corrupção.

5º) Os que acreditam na ideologia totalitária. É o menor grupo e se destaca pela crença de que deva haver regulação de todos os espaços da vida pública.

Compreender os motivos de quem acredita na ditadura ou na intervenção militar é vital para que haja sensibilidade democrática. É fundamental que aflore uma crítica construtiva em relação à democracia representativa que temos e a democracia representativa que deveríamos ter. Quem defende a ditadura ou a intervenção militar o faz porque acredita na liberdade de expressão.

Dizer para estas pessoas que é ilegal ser a favor da ditadura é um argumento autoritário baseado em um estado de direito que não cumpre o seu papel, ameaça e pune os descontentes com os rigores da lei.

A maior parte destas pessoas não nega a democracia, mas quer um caminho, quer uma luz no fim do túnel. Quer que haja líderes que cumpram o prometido, que tenham políticas públicas eficientes contra a violência e que defendam o bem comum, em especial, os menos favorecidos.

Sr. Presidente que parte da indignação social o Sr. não entendeu?

30/05/2018 13:35

A greve dos caminhoneiros é greve da maioria da sociedade. A dificuldade financeira dos caminhoneiros é a dificuldade financeira da maioria da sociedade. A indignação dos caminhoneiros com a situação do Brasil é a indignação da maioria da sociedade. A descrença dos caminhoneiros com os políticos é a descrença da maioria sociedade.

A desconfiança dos caminhoneiros com as instituições é a desconfiança da maioria sociedade.

Todas as pesquisas de opinião deste país mostram que o brasileiro está decepcionado, não aguenta mais tanta corrução, desvio de recursos públicos, ineficiência de serviços, manutenção de privilégios e, principalmente, não suporta mais pagar tantos impostos. O brasileiro não aguenta mais driblar tanta dificuldade na área da saúde, na educação, na segurança pública e ainda “pagar a conta”.

O brasileiro está “exausto”, “machucado”, e acredita que a classe política é a grande responsável pela situação em que o país se encontra. A população vive a frustração com a mesma intensidade que tem esperança. A sociedade precisa de propósito, de uma bandeira. E não se pode esquecer do raciocínio clássico: na falta de um caminho, qualquer caminho serve.

A população estava apática, pois não sabia o que fazer, em quem acreditar, como ser ouvida.

Agora, a apatia social pode encontrar o seu extremo, que é a reação social. Os caminhoneiros tiveram a coragem e mostraram o caminho, tiveram a adesão e a solidariedade da sociedade.

A maioria da população apoia as manifestações (mais de 70%) e a adesão as manifestações está sendo realizada de diferentes formas. Há “muitos cidadãos com coração de grevista” pois há muitos “cidadãos indignados”.

Os caminhoneiros estão nas ruas, os empresários estão suportando as perdas, o povo mesmo passando trabalho entende a situação e apoia os caminhoneiros com o seguinte argumento: “é ruim, mas como está não pode ficar”.

Nos grupos de WhatsApp se multiplicam os apoios aos caminheiros. São depoimentos de empresários que mostram suas perdas e reclamam dos impostos e da corrupção, relatos de donos de transportadoras que ajudam caminhoneiros e são acusados de locaute, são trabalhadores da iniciativa privada que não aguentam mais as dificuldades cotidianas, são autônomos que não conseguem mais alimentar as suas famílias. São pais e mães de família que querem ter esperança.

A população conclama por mudança. Uma mudança real, para além da diminuição do valor do diesel e da gasolina.

Deseja uma nova forma de administrar, onde o Estado esteja a serviço da sociedade. A esperança é por um governo que vise o bem comum, que lute pelo interesse público e que não ceda aos interesses pessoais. Um Estado onde a corrupção e o jeitinho brasileiro não sejam os protagonistas.

O anseio da sociedade pode ser retratado em um trecho do poema de Elisa Lucinda: “Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar a limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o “escambau”. Dirão: é inútil, todo mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal. E eu direi, não admito! Minha esperança é imortal. E eu repito, imortal: sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser, dá para mudar o final”.

A maioria da população só quer o que é seu de direito: o direito de viver em paz, de trabalhar e não ser extorquida.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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