Uma sociedade indignada, uma eleição ímpar

06/11/2018 08:14

O ano começou com a sociedade demonstrando os maiores índices de indignação social e descrença registrados desde a redemocratização do país, sendo que 2/3 da sociedade se revelava antissistema, desconfiando das instituições.

O sentimento de frustração dividia espaço com o desejo de mudança, com a esperança, um sentimento dicotômico que o eleitor já vive há muito tempo.

Nas pesquisas realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, a maioria dos eleitores externava a sua esperança em torno de candidatos a presidente, na expectativa de que apresentassem propostas de combate a corrupção, de ativação da economia, de combate ao crime e ampliação do sentimento de segurança e de atenção à saúde e a educação.

A eleição foi ímpar em todos os sentidos: um candidato preso que ungiu o seu sucessor, um candidato esfaqueado que não tinha tempo de TV e passou a ocupar todo o noticiário, candidatos envolvidos em esquema de corrupção e inúmeros candidatos que não motivavam os eleitores.

O processo eleitoral para presidente virou de ponta a cabeça, fazendo com que os indicadores tradicionais não fizessem mais sentido: tempo de horário eleitoral gratuito na televisão sendo prescindido pelas redes sociais, candidatos com orçamento milionários tendo o mesmo desempenho eleitoral de candidatos sem orçamento e o debate substituído por lives e fakes news.

Este cenário ativou a maior polarização política que este país já viveu em sua jovem democracia, onde a radicalização foi a justificativa para a negligência do debate em torno de propostas. A prioridade não era o plano de governo, mas a capacidade de empatia com os dilemas da população, a verdade e a simplicidade.

A sociedade cansada, indignada e sofrida queria discutir a relação e o grande debate estava associado a moralidade, a ordem, a família e a disciplina. O direito da maioria prevalecendo em detrimento ao direito de minoria.

A população que tanto assistiu quieta aos sucessivos noticiários que exibiam as fragilidades do país em termos de ética e de segurança pública, se fez presente na defesa se um propósito: escolher quem entendia o que estava acontecendo e afirmava que iria arrumar o que estava errado.

A singularidade deste processo eleitoral foi resultante de todo o contexto histórico, conjuntural e estrutural que a política brasileira viveu neste último ciclo. E deve se observar que o fenômeno nacional também se repetiu em vários Estados afetados pelo questionamento ético aos seus governantes.

Caberá a toda a classe política a humildade de reconhecer que os partidos precisam se reinventar, e que o Brasil precisa de uma grande transformação em seu sistema político, incluindo as reformas necessárias e a coragem de acabar com o foro privilegiado.

E não haverá mudança no sistema político enquanto não houver uma grande alteração do posicionamento e das práticas políticas dos representantes eleitos. É a hora de todos os partidos reverem seus programas e a política do toma lá dá cá e trabalhar em prol da nação. Os líderes precisam restabelecer o debate sobre os males causados pelo jeitinho brasileiro e ajudar a guiar uma mudança cultural da sociedade.

E a primeira grande tarefa do presidente eleito Jair Bolsonaro está associada a necessidade de apaziguar, unir o Brasil em torno de um propósito. Para tanto, terá que estimular a união da sociedade, demonstrar serenidade em suas colocações e combater qualquer forma de intolerância e radicalismo.

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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