A importância do tal “ócio criativo”

06/08/2019 08:57

Cada vez mais temos menos tempo e mais coisas para fazer. Uma correria sem fim e até soa estranho quando alguém defende o ócio. O conceito diz que ócio é um tempo de descanso, cessação do trabalho, folga, repouso, quietação, vagar. Na prática, o conceito está nos dizendo que temos que ter uma mudança de rotina, fazer algo diferente.

Nesse debate reside a grande reflexão em torno do ócio criativo, que é uma resposta, uma saída ou até uma forma de fuga da rotina e, principalmente, uma capacidade de relacionamento com a tecnologia.

Estudos realizados pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião indicam que o gaúcho passa em média 3 horas na internet, em especial, navegando nas redes sociais. Se calcularmos esse tempo, em uma semana estamos falando de 21 horas e em um mês representa uma média de 84 horas de envolvimento com a internet e com as redes sociais.

Mas vamos imaginar um dia normal. O dia tem apenas 24 horas e durante esse período temos que dormir, fazer higiene, temos que nos locomover no trânsito, temos que trabalhar ou estudar, temos responsabilidades e problemas com as pessoas que vivemos e temos o tempo gasto nas redes sociais.

Ufa, temos a sensação de que o tempo passa voando e que não temos tempo para nada. E não temos mesmo! Voltando ao conceito simplista de ócio criativo, a ideia é administrarmos o tempo. Termos um tempo para nós, ter um tempo em família, ter um tempo com as pessoas que gostamos. Significa desligar o smartfone de todos adultos e o tablet das crianças, escutar uma música, tomar um chimarrão, dividir o preparo do jantar ou ter uma relação afetiva.

Pense em um momento de contemplação do céu, onde explicamos para as crianças o que aprendemos sobre as estrelas ou sobre a lua. O momento em que cuidamos de flores ou o momento em que paramos para ler ou debater sobre um livro. E mais do que isso, o momento em que trocamos ideias sobre o presente e sonhamos com o futuro. E o momento que discutimos a relação ou que criamos um hábito de ouvir o outro.

O que estou dizendo é que temos que gerenciar o tempo, e gerenciar o tempo significa diminuir a influência dos smartfones e das redes sociais em nossas vidas e na relação com a nossa família. Significa ter uma disciplina sobre o tempo, ter um planejamento do tempo, e ter o ócio criativo como parte de uma estratégia para que a tecnologia não domine nossa vida, nossos valores e nossos sonhos.

Em um debate mais avançado, o ócio criativo significa trabalhar com aprendizado constante e buscando momentos de bem-estar e de lazer. Em algumas atividades profissionais dá para fazer a integração destas três ações, em outras não! Quanto mais intelectualizado o trabalho, maior a capacidade de haver o ócio criativo de forma integrada e esta capacidade diminui quando o trabalho é mais braçal.  

Mas como a tecnologia vem adentrando em nossas vidas, em todas as atividades temos que ter a seguinte lógica: o tempo da atividade/trabalho, o tempo do penso/da busca pelo conhecimento e o tempo da diversão, do lazer.

A grande reflexão que devemos fazer, de forma permanente, diz respeito ao nosso posicionamento em relação à tecnologia: vamos ficar passivos ao que a tecnologia nos oferece, sendo objetos desse processo, ou vamos nos posicionar como sujeitos e planejar o papel que a tecnologia vai ter em nossas vidas e o tempo que vamos gastar com o ócio criativo, vivendo com as pessoas que amamos?

Comportamento e Sociedade

O Blog Comportamento e Sociedade será comandado por Elis Radmann.
Socióloga MTb 721
Mestre Ciência Política UFRGS
Diretora do IPO - Instituto Pesquisas de Opinião  www.ipo.inf.br
Conselheira ASBPM (Associação Brasileia de Pesquisadores de Mercado Opinião e Mídia).
20 anos de atuação na coordenação de pesquisas de opinião.

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