Rio Grande

Outubro Rosa

Um novo significado para marcas de dor

Por Catharina Signorini , 09/10/2019, 14h21

Em torno da mesa, as duas convidadas esperavam ansiosamente que Maria Leia Soares Taveira – a Leia – servisse o jantar. O cardápio era massa com camarões e, para acompanhar, uma garrafa de vinho – tudo ao gosto da família. Antes mesmo que todos começassem a comer, Leia pediu a palavra, “olha gente, antes de tudo eu tenho um assunto para contar para vocês. Eu estou com câncer”. A animação com o jantar deu lugar às lágrimas. O diagnóstico era uma neoplasia mesenquimal maligna na coxa e em apenas cinco dias, Leia foi internada para tratar o primeiro dos quatro cânceres que já enfrentou nos últimos 12 anos.

Aos 62 anos, Maria Leia Soares Taveira, está aposentada. O bom humor e o sorriso constante contrastam com a história marcada por tantos percalços. “Eu sou feliz e muito vaidosa”, afirma. O corpo, alto e magro, serve como tela para diversas tatuagens. A primeira foi feita quando ela tinha 20 anos e o pai, militar, havia falecido.

Após o câncer na coxa, a doença foi novamente detectada, desta vez em seu ombro. O terceiro diagnóstico de câncer foi no útero. Leia diz que o tamanho do tumor era semelhante ao de uma laranja, “não podia ter relações sexuais, pois eu tinha dor e sangrava”, e o tratamento exigiu que a aposentada retirasse o útero.

“Há três anos, eu estava no banho e senti uma coisinha no meu seio. Mas era do tamanho de uma ervilha. Em três meses eu fiquei como se eu tivesse outro seio, enorme. Não senti dor, nem febre, nem nada”, afirma ao descrever a descoberta do quarto tumor, desta vez na mama. Após mais um procedimento cirúrgico, Leia foi instruída a esperar porque, pela primeira vez, ela seria encaminhada para a quimioterapia e radioterapia.

Estudos divulgados, em 2017, pela Organização Mundial da Saúde apontam que anualmente mais de 14 milhões de pessoas desenvolvem câncer e 8,8 milhões morrem em razão da doença, o que representa uma em cada seis mortes no mundo. Dentre os tipos mais comuns de câncer, o de Mama ocupa a segunda posição – em 2018, foram 2.088.849 diagnósticos. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer estima que em 2019 serão 59.700 novos casos de câncer de mama.

Foi novamente enquanto estava tomando banho, após a retirada dos pontos, que Leia percebeu que havia algo estranho no local da cirurgia, “senti uma ardência debaixo do braço e aí eu chamei a minha filha e mostrei”. As duas se deslocaram imediatamente ao hospital, onde foi recebida pelo médico que estava acompanhando seu tratamento – era ele que estava de plantão. Após examinar a lesão, ele explicou à aposentada que o caso era urgente. “Só tenho uma triste notícia para te dar, tu vais retirar o seio. E eu disse ‘eu tenho a possibilidade de ficar bem?’, ‘Sim, tens possibilidade. E tem a possibilidade de estar no teu pulmão, nós vamos raspar as duas costelas’. ‘Faça o que o senhor quiser”, conta Leia ao reproduzir a conversa com o médico.

Quando questionada sobre o momento em que se percebeu sem o seio, Leia diz que o que realmente a assustou foi o aspecto machucado do local da cirurgia, pois além dos pontos havia um grande hematoma em razão da raspagem das costelas. “Nunca me deu aquela coisa de ‘meu Deus, eu estou sem seio’, o que me incomoda é o que está no lugar porque é muito feio”, explica. Após a retirada dos 52 pontos e o período de cicatrização, Leia foi submetida a 20 sessões de radioterapia e a 30 de quimioterapia, o que resultou na queda de seus cabelos. Diferentemente de muitas mulheres que foram submetidas à mastectomia, a aposentada não quis fazer a reconstrução do seio. No local da cicatriz, hoje Leia tem uma tatuagem, feita gratuitamente através do projeto Só se vive uma vez.

Para superar a doença, Leia seguiu as orientações da equipe médica mas também apostou em cirurgias espirituais e medicamentos naturais. Constantemente ela repete que “nunca foi sorte, sempre foi Deus”, e destaca que encontrou forças na filha Simone, no genro José e nas amigas que fez na Associação de Apoio a Pessoas com Câncer (AAPECAN).

Um novo mamilo para um seio reconstituído

Foi na AAPECAN que o caminho de Leia cruzou com o de Rosi Maria Medina da Silveira, de 55 anos. Da mesma forma que a amiga, Rosi também precisou retirar o seio durante o tratamento do câncer de mama.

Foi fazendo o autoexame que Rosi identificou um caroço em seu seio, em 2012, e decidiu procurar atendimento médico. Após uma consulta com a ginecologista, ela foi encaminhada para uma mastologista, que solicitou a realização de exames. “Fiz a biópsia, e deu que era um câncer. Dali eu já fui direto para oncologia e comecei o tratamento”, explica.

Durante o tratamento, Rosi foi afastada do trabalho. “Eu era diarista e trabalhava todos os dias. Todos os dias eu tinha dinheiro e vivia muito bem. E aí, de repente, fiquei sem chão. Com a doença eu tive que parar tudo. Eu ainda estou encostada no INSS”. Além da mastectomia, Rosi passou por seis sessões que quimioterapia e, da mesma forma que Leia, ela também perdeu o cabelo. “Passei por todas essas coisas ruins”, enfatiza com os olhos marejados.

Sobre a mastectomia, Rosi revela que “foi horrível, passei uma fase muito triste na minha vida e eu nem gosto muito de ficar lembrando”. Ela conta que quando se percebeu sem a mama “parecia que uma parte de mim já tinha morrido e a outra parte só vivia por causa dos filhos”. Com o tempo, a dor de perder um seio foi sendo superada e Rosi pode encaminhar o pedido para realizar uma cirurgia plástica de reconstrução da mama. “Depois da reconstrução, há uma esperança nova. Não fica igual como era antes, mas fica bem melhor do que tinha ficado”, afirma.

Com a mama reconstruída, a única coisa que estava faltando era o mamilo. Foi, também, através do projeto Só se vive uma vez que Rosi fez uma tatuagem gratuita em sua cicatriz. A escolha foi uma reprodução em 3D do mamilo.

Foi, também, na família que Rosi encontrou forças para superar o câncer. “As coisas mais importantes foram os meus filhos, a minha neta – que estava a caminho –  e a minha mãe, que agora eu não tenho mais”. Ela também reforça que os amigos que fez na AAPECAN foram muito importantes para suportar a doença.

Da descoberta do nódulo ao tratamento

Quando se detecta um nódulo no seio, através do autoexame ou de um exame de rotina, como o ultrassom e a mamografia, o médico – geralmente um ginecologista –, encaminha apaciente a um mastologista, que solicita uma Core Biópsia (biópsia de mama). Segundo a mastologista Táyra Dall’Oglio Hoffmann Gomes Ferreira, após a biópsia aguarda-se o resultado histopatológico. Quando se trata de um tumor maligno, encaminha-se a paciente para o tratamento, que “consiste em cirurgia, quimioterapia e radioterapia, e às vezes, dependendo do tipo histológico do tumor, é feita também a hormonioterapia – que pode durar até dez anos após o diagnóstico”, explica Táyra.

A mastologista frisa que a ordem do tratamento pode variar de acordo com o tumor. Quando se trata de um tumor em estágio muito avançado, o mais adequado é começar a quimioterapia antes de realizar o procedimento cirúrgico. “Hoje em dia, a quimioterapia antes da cirurgia não serve só para procedimento de câncer avançado. Ela também serve para cirurgias conservadoras, para a gente conseguir diminuir o tumor e preservar mais ainda a mama da paciente”, frisa. Sobre a cirurgia, a médica explica que a mastectomia é radical, retira toda a mama. Mas em alguns casos é possível realizar uma segmentectomia, que é um tipo de cirurgia conservadora e retira apenas um segmento da mama.

Sobre os efeitos do câncer de mama na autoestima das pacientes, Táyra explica que não há um padrão, que nem sempre as pacientes se abalam de forma significativa com a mastectomia. “É claro que de uma forma geral elas tentam preservar a mama ou reconstruir. Por incrível que pareça, o maior temor delas é perder o cabelo, porque a mama você esconde, usa o sutiã postiço, consegue disfarçar, mas o cabelo não. A maioria das vezes elas choram por causa do cabelo”. Porém, em muitos casos há uma influência na autoestima, principalmente quando são pacientes mais jovens, geralmente abaixo dos 55 anos. A médica revela que já teve “casos de pacientes que tiveram indicação para fazer uma mastectomia e os maridos se separarem delas, largarem as pacientes por causa disso. De não querer ficar com elas porque elas iriam ficar mastectomizadas”.

Sobre a reconstrução, a indicação é que ela seja feita sempre que possível, mas nem sempre há condições para que seja imediata. Táyra explica que em alguns casos a própria paciente não deseja fazer a reconstrução, como é o caso de Leia. “Não quis fazer reposição. A única coisa que eu quero agora é retirar a outra mama, que está me prejudicando a coluna e tem outros dois nódulos, que estão quietinhos”, conta a aposentada.

Tatuador transforma sua experiência em projeto

Não é apenas o projeto Só se vive uma vez que o tatuador Fabiano Xavier, 47 anos, o Gói, possui em comum com Leia e Rosi. Em 2011, Gói foi diagnosticado com um tumor maligno nas cordas vocais. O câncer do tatuador foi o décimo a ser diagnosticado em sua família.

Mesmo tendo percebido que estava ficando rouco, Gói não foi procurar atendimento imediatamente. Após ser pressionado pela esposa Raquel, o tatuador decidiu agendar uma consulta médica, que confirmou a presença de um tumor nas cordas vocais. Após biópsia, constatou-se que o tumor era maligno e Gói iniciou o tratamento. Porém, os médicos destacaram que se ele tivesse procurado atendimento antes seria possível resolver o problema apenas com uma cirurgia a laser.

Durante os três meses de tratamento, o tatuador seguiu trabalhando por pelo menos um. Além da quimioterapia, Gói foi submetido a 47 sessões de radioterapia. “Até a 30ª sessão de radioterapia eu estava bem. Depois pediram para eu fazer mais e começou a queimar muito o meu pescoço. Aí eu comecei a não comer, tive que colocar sonda para poder me alimentar”, conta. No início do tratamento, o tatuador pesava 105kg, ao final a balança marcava em torno de 60 kg.

Sobre o sofrimento, Gói afirma que nunca chorou porque estava com câncer. “Eu nunca derramei uma lágrima pela doença. Eu só chorava de dor”. O tatuador destaca que além do tratamento médico, outros fatores foram fundamentais para que hoje ele estivesse curado, um deles foi a presença da família e o outro foi a fé. “É o amor da família. E tem o amor da minha mulher, que nunca me abandonou e sempre esteve ao meu lado. Ela é o pivô desta história. Eu não sei muita coisa, mas ela lembra tudo. São 27 anos casados”, revela.

Outra demonstração de apoio e amor veio da mãe e do irmão, que rasparam a cabeça quando o cabelo do tatuador começou a cair. Em outra ocasião, os três voltaram a raspar o cabelo, “nós somos da Umbanda e nós temos muita fé na Iemanjá. Minha mãe fez uma promessa para Iemanjá, que se ela me curasse, minha mãe daria o cabelo para ela. Quando completou cinco anos da doença, nós os três raspamos o cabelo de novo”. Para homenagear a mãe, Gói fez uma tatuagem de sua imagem com os cabelos compridos.

O tatuador reforça que a fé foi fundamental para a sua cura. “Eu fiz cirurgias espirituais, reiki, pastores foram na minha casa e oraram por mim. Tudo que me diziam que poderia me ajudar, eu fiz”, conta.

A relação de Gói com as tatuagens começou em 1996, em Porto Alegre, quando, aos 15 anos de idade, ele fez um coração e escreveu Mãe. Aos 19 anos, quando casou com Raquel, ele já tinha várias tatuagens. Na época, a esposa e a cunhada pediram que ele as tatuasse, e ele acabou montando uma máquina caseira.

Gói se dedica exclusivamente a tatuagens e piercings há quase duas décadas, quando começou a trabalhar em um estúdio no Centro de Porto Alegre. Depois de um período na Capital, ele voltou para Rio Grande, “eu comecei a tatuar em uma peça 3m x 3m e não tinha dinheiro nem para o ônibus. Eu ia a pé da Barra até o Cassino. Eu trabalhei lá no verão e meu sonho era comprar uma bicicleta. No final da temporada eu consegui comprar uma moto”, conta orgulhoso.

A inspiração para o projeto Só se vive uma vez veio da Argentina. Há sete anos Gói frequenta uma convenção de tatuagens no país vizinho, organizada por Diego Mandinga. O tatuador argentino também é idealizador do projeto El club de las tetas felices de Mandinga, que já tatuou mais de 400 mulheres vítimas do câncer. Em 2017, quando Gói retornou ao Brasil decidiu implementar em Rio Grande um projeto semelhante ao de Mandinga.

Além de tatuar gratuitamente as mulheres que passaram por um câncer de mama, Gói também pinta telas para a ala oncológica da Santa Casa de Rio Grande. Ele acredita que as telas alegram a unidade e ajudam a dar força aos pacientes. Para as tatuagens, Gói conta com o patrocínio da Eletric Ink, que fornece agulhas, tintas e biqueiras. Já para custear as telas, o tatuador conta com o auxílio de alguns amigos e também arca pessoalmente com algumas despesas de material.

Até o momento, apenas Leia e Rosi participaram do projeto. O tatuador acredita que a procura ainda é pequena em razão da divulgação ser precária. Gói destaca que seria necessário contar com patrocinadores para custear a impressão de cartazes, que seriam afixados nos hospitais e nas estações rodoviárias da região.

As marcas que ficam

É inquestionável que o câncer deixa muitas marcas na vida de todos aqueles que já foram diagnosticados com a doença. Ficam marcas no corpo e ficam marcas na alma. Sobre as marcas na alma, Leia diz que “a cicatriz que ficou é o outro seio, que eu quero retirar e que me incomoda. E os relacionamentos amorosos, que eu ainda não me animo a ter”.

Na família de Gói algumas cicatrizes também perduram. “O câncer é muito difícil. Para quem passa junto, para a família, é muito difícil. É mais triste para quem está junto do que para quem está doente”, afirma a esposa Raquel. Na época em que o tatuador enfrentou a doença, seu filho tinha apenas dois anos e até hoje ele faz acompanhamento psicológico. “Ele ficou com muitos medos. Em um dia que chovia muito, o Gói chegou de sonda. E a partir daí ele ficou com medo de chuva”, conta Raquel.

Para Rosi, as marcas da alma foram embora com as marcas do corpo. “Só faltava a mão do Gói. Antes eu me olhava no espelho e ficava me escondendo, agora eu já não não me escondo mais”, explica.

As cicatrizes do corpo podem ganhar um novo significado. As memórias, que vinham à tona toda vez que se deparava com um espelho, podem ficar para trás. A autoestima da mulher que encontrava uma cicatriz no lugar do seio pode ser devolvida com uma tatuagem. É isso que incentiva Gói a seguir com o projeto e a transformar em arte o que antes eram 52 pontos no seio de Leia.

Fotos: Catharina Signorini/Grupo Oceano

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