Rio Grande

Heróis de Máscara

Que depois da tempestade, venha a mudança

Por Guilherme Rajão , 22/05/2020, 17h00

A pandemia de coronavírus trouxe inúmeros desafios aos gestores públicos. Inéditos e complexos, os momentos que estamos enfrentando demandam seriedade e equilíbrio nas decisões. Quando 2020 iniciou, poucas pessoas já sabiam dos primeiros casos que surgiam na China e, por isso, não imaginavam que a vida seria colocada de ponta cabeça a partir do final de fevereiro. 

Um dos grandes debates travados entre os gestores e a sociedade está na essencialidade de alguns serviços. Uns, passaram a essenciais em dias. Outros, deixaram de ser essenciais para serem considerados secundários. Os debates acontecem, as discordâncias chegam, algo normal dentro de uma sociedade democrática. No entanto, duas coisas dispensam qualquer discussão: a certeza de que a vida precisa estar em primeiro lugar e de que 2020 veio com a missão de ensinar.

Em três meses, aprendemos mais sobre empatia, cuidado, saudade, afeto e medo do que desde que nos entendemos como humanos. Alguns desses sentimentos foram resignificados, ou melhor, adaptados para o momento que estamos enfrentando. Mas, diferentes ou iguais, certamente ganharam mais importância e precisam estar na bússola da nossa rotina daqui pra frente. 

As dificuldades estão presentes na vida de todos, e com o motorista de ônibus Sandro Pacheco Rodrigues, de 41 anos, não é diferente. Pacheco, como é carinhosamente chamado pelos amigos, trabalha há mais de 15 anos na empresa Noiva do Mar, em Rio Grande. Durante todo esse período, ele garante que os últimos meses são os mais difíceis que já enfrentou. Ele é pai de Thalia Pacheco, de 19 anos, e casado com Bárbara Rodrigues Pacheco, de 43.

A filha, que mora no Uruguai, está em uma das zonas menos atingidas pela pandemia no país, o distrito de Piriápolis. "Eu fico muito preocupado. Mas o que tranquiliza é saber que naquela região a população está seguindo com muito rigor o distanciamento social. Esse é o segredo para os números estarem tão inferiores lá quando comparados com Rio Grande e região" garante.

Ser motorista de ônibus, em meio à pandemia, não é desafio fácil. O transporte coletivo não costuma ser um local higiênico, o que vai totalmente de encontro às recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas, como ficar sem transporte coletivo? Como fazer com que as pessoas se desloquem sem gerar riscos à vida?

Para Pacheco, a definição sobre essencialidade do transporte coletivo é inquestionável. Em uma cidade que sofre economicamente, o transporte público é fundamental para levar, inclusive, os profissionais de saúde aos seus postos de trabalho. "Não tem como ninguém dizer que o transporte coletivo não é essencial. Muitas pessoas dependem de nós, dependem do ônibus pra chegar no trabalho ou em casa. Eu sinto de uma forma muito grande a responsabilidade cada vez que vejo um enfermeiro, técnico de enfermagem ou até médicos entrarem no ônibus que estou dirigindo pra irem até o trabalho" desabafa.

Pacheco conta que, hoje em dia, a questão da higiene é muito por conta da população. Ao sair da garagem, o carro está limpo. Uma ou duas viagens depois, está totalmente sujo. "Isso passa pela falta de cuidado dos passageiros. A empresa está fazendo o possível e o impossível pra fazer com que nós tenhamos segurança pra trabalhar. Todos os funcionários usam máscaras, o ônibus é higienizado frequentemente e nós pedimos o mesmo para quem utiliza o nosso serviço" diz Pacheco.

Em casa

Pacheco é casado com a técnica de enfermagem Bárbara Pacheco. Marido e mulher, sob o mesmo teto, ambos na linha de frente dos serviços essenciais e encarando diariamente os riscos de contaminação. O medo é constante. O amor não diminui, mas o afeto encontrou condições de existência nunca antes pensadas, mudando, mais uma vez, a vida do casal.

"Eu tenho medo por estar diariamente lidando com centenas de pessoas e infelizmente também tenho medo de saber como ela está no hospital. Sei o quanto a rotina do hospital é rigorosa, a minha também mudou totalmente, hoje eu tenho cuidados de higiene que nunca pensei que ia ter. Mas o medo é inevitável, pois eu sei que eu me cuido, mas e os outros?" reflete o motorista.

Sobre a rotina enfrentada em casa, Sandro garante que nada é mais como era antes. "Quando nós chegamos em casa as nossas roupas vão direto para a máquina de lavar. Dentro de casa a gente mantém nossa rotina normal, mas tentamos evitar ficar juntos o tempo todo, como era antes disso tudo. Temos medo e temos amor um pelo outro. Queremos nos ver bem e é por isso que agimos dessa forma. É o que esperamos de todo mundo, pois cada um fazendo a sua parte tudo vai ser bem mais fácil."

O futuro

Com os olhos marejados, Pacheco conta sobre o que espera do futuro do mundo e dos amigos que, devido aos problemas financeiros, foram demitidos ou tiveram seus contratos suspensos pelas empresas de transporte coletivo. "Bah, todos os dias só o que eu desejo é que simplesmente esse vírus tome a mesma proporção que tomou para o lado ruim mas que seja para o lado bom. Que as pessoas reflitam sobre a importância de cuidar não somente de si próprio mas também do outro. Que as pessoas abracem e amem sem precisar de data comemorativa. Que o medo de perder as pessoas que estão próximas de nós não seja maior do que a força do amor que sentimos por elas. Só quero que isso acabe" afirma.

As vacinas, capazes de imunizar a população mundial do coronavírus, estão em produção. Cerca de 118 empresas produzem o material, que tem um prazo estimado de finalização de dois anos. No entanto, a luta é para que esse prazo seja reduzido, ao menos, pela metade. Quando isso acontecer, o que Pacheco e todos nós queremos é que possamos abraçar com força aqueles que amamos, lembrar daqueles que se foram com carinho e torcer para que o mundo seja impactado com a mesma força do Covid-19 mas pelo vírus da empatia e do amor.

"Espero do fundo do meu coração que o transporte coletivo seja cada vez mais valorizado, que as pessoas pensem que quando elas descerem do ônibus, outras vão subir e que precisamos do espaço limpo e organizado. Que os colegas que não estão mais podendo atuar na profissão se encontrem e possamos estar juntos novamente em breve, com um mundo bem melhor do que tínhamos antes" finaliza.

Imagens: Guilherme Rajão/Grupo Oceano
Divulgação/Sandro Pacheco

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